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Brasileiros e estrangeiros encontram meios de acompanhar Olimpíada 'de graça'

(Foto: Alexandre Macieira/ Riotur) - Público encontra meios de acompanhar Olimpíada 'de graça'
(Foto: Alexandre Macieira/ Riotur)

Para assistir aos primeiros dias das provas de vela na Olimpíada, o público gastou R$ 40 de ingresso, pagou R$ 13 pela cerveja, R$ 10 pelo refrigerante e a batata de pacotinho saiu a R$ 6. Mas a poucos metros dali, do lado de fora dos alambrados, a vista é a mesma e sentar na areia não custa nada. Na Barraca do Boca, tem até cerveja holandesa por R$ 6 e biscoitinho por R$ 3,50. O Boca ainda empresta a cadeira, para quem quer mais conforto. E pode pagar com qualquer cartão de débito ou crédito. Nas arenas, só é aceita a bandeira da patrocinadora do evento.

Brasileiros e estrangeiros sempre buscam um meio de assistir às disputas olímpicas sem gastar muito. Com provas ao ar livre, não tem sido difícil. Pôde-se ver o remo, na Lagoa Rodrigo de Freitas, o vôlei de praia, em Copacabana, o ciclismo, pelas ruas das zonas sul, norte e oeste.

A família da velejadora Lola Moreira, de 17 anos, porta-bandeira da delegação de seu país, o Uruguai, estava entre as que escolheram ver as primeiras provas na Praia do Flamengo, vizinha à Marina da Glória, base física do iatismo. Só compraram ingressos para regatas nos dois dias de disputa de medalhas.

“Aqui da praia a vista é praticamente a mesma. Se a regata não é no Pão de Açúcar, não temos como vê-la nem daqui. Agora vamos a Copacabana, porque a regata de hoje (quinta-feira passada) é lá”, disse Cristina Moreira, de 56 anos, tia da atleta, que estava acompanhada do marido e da filha.

O aposentado Marcio Gomes, de 57 anos, veio buscar o sobrinho, Pedro, de 9, para passar as férias em Minas Gerais e aproveitou para assistir às regatas. “É um esporte mais elitizado, a gente não acompanha muito. A vantagem é que aqui é tudo 0800”, afirmou.

José Fernandes, o Boca, de 55 anos, ainda não está feliz. “Desde 12 de junho tive que sair do meu ponto, ali mais perto da Marina, onde trabalhava desde os 30 anos, por causa dessas provas. O movimento caiu. A verdade é que poucos dão valor a esse esporte”, reclamava. A esperança do dono da barraca é que com a previsão de sol neste domingo e as primeiras regatas de medalha, o número de “bicões” cresça.

A baiana Sandra Montenegro, de 50 anos, comprou ingressos para o handebol e o vôlei e decidiu assistir ao máximo possível de provas ao ar livre. Na quarta-feira, enfrentou o frio para ver da Praia do Flamengo a estreia de Isabel Swan e Samuel Albrecht na Nacra 17. No fim de semana, ficou em Ipanema, para acompanhar a passagem dos ciclistas de estrada.

“Foi lindo ver as pessoas apoiando, aplaudindo. O atleta estrangeiro deve estar encantado com nossa acolhida”. A interação foi tão grande que quando o turco Onur Balkan, do ciclismo de estrada, caiu, um pedestre o ajudou a levantar. No trecho do percurso em que os atletas passaram pela Estrada das Canoas, o mais difícil, com subida íngreme de 9 km, as pessoas que assistiam à corrida jogavam água para aliviar o calor dos ciclistas.

IMPROVISO - Também tem gente tirando "casquinha" dos jogos de vôlei de praia. Na Praia de Copacabana, um monte de areia de um metro e meio de altura foi levantada para barrar o avanço do mar, em caso de ressaca. Do alto, não é possível avistar a quadra principal, mas se tem uma visão parcial do telão e pode-se ouvir a música da arena.

Enrolada em uma canga do Palmeiras, a enfermeira paulista Fabiana Gabriel assistia aos jogos de domingo passado sentada na "miniduna". “Para quem não pode estar dentro da arena é uma maneira de participar”, disse ela, que viajou ao Rio para “aproveitar o clima dos Jogos”.

O alemão Andreas Duhnke, de 30 anos, piloto da Condor Airlines, veio ao Brasil a trabalho, mas não pode reclamar da sorte. A seu pedido, foi escalado para um voo para o Rio no período da Olimpíada e está hospedado no 17.º andar o hotel Windsor Atlântica, no Leme, de frente para a Arena do Vôlei de Praia. “Assisti a vários jogos da janela do meu quarto”, conta.

Na manhã de quinta-feira, foi um espectador privilegiado das provas de remo. Em 20 minutos, viu seu país levar duas medalhas de ouro, no skiff quádruplo masculino e feminino. Sem pagar um tostão.

Duhnke era um dos muitos torcedores que assistiram à chegada dos remadores em uma estreita calçada à beira da ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas, palco das competições, colados ao alambrado. Na altura da sede do Flamengo, ao lado do estádio do remo, onde os ingressos custavam entre R$ 100 e R$ 280, a turma do gargarejo pôde ver de graça seis disputas de medalhas, depois da frustração pelo cancelamento das provas de quarta-feira, por causa do mau tempo.

“Bravo”, repetia Duhnke, diante dos conterrâneos campeões. “Até que enfim vamos melhorar o desempenho de medalhas. A visão daqui é muito boa”, disse o alemão.

Perto de Duhnke, a holandesa Geesje Mechiel vibrou com a medalha de prata da equipe feminina do skiff quádruplo. Ainda nas semifinais, Geesje já gritava palavras de estímulo aos atletas e acenava com o boné laranja. “Aqui é o segundo melhor lugar para ver a competição. Não conseguimos comprar ingressos, mas está muito bom do lado de cá”, elogiou.

Outro grupo de espectadores ao ar livre preferiu o gramado ao lado do clube Caiçaras para se acomodar com mais conforto, embora não fosse possível ver a chegada dos competidores. O mexicano Samuel Atri, de 25 anos, estudante de Relações Internacionais na Cidade do México, levou um binóculo para acompanhar a passagem dos remadores. Economizou nesta modalidade, depois de comprar ingressos para boxe, basquete, vôlei e tênis de mesa. “Adoro a vida no Brasil”, elogiou.

Outra visão privilegiada do remo é o ponto de partida, próximo ao túnel Rebouças. A doméstica Antônia Maria Rodrigues de Souza, de 40 anos, a filha Alana, de 17, estudante, e a amiga Antônia Alda do Nascimento, de 52, também doméstica, todas de férias, caminhavam pela orla da Lagoa quando perceberam o movimento de preparação para a largada, pouco antes das 8h30.

“Eu sabia que hoje tinha remo, mas não sabia a hora. Demos sorte de passar agora”, disse Antônia Souza, que prestava atenção na sofisticada câmera de TV que, pendurada em um cabo, percorria no ar todo o percurso da prova. “Agora não podemos dizer que não vimos nada da Olimpíada”, brincou. “O resto a gente vê na TV.”

Logo na segunda largada da categoria dois (remadores) com timoneiro, a plateia improvisada no recuo da ciclovia, onde ficam aparelhos de exercício físico, lamentou o erro da equipe francesa, que não largou em linha reta e chegou a encostar um dos remos na corda divisora da raia. “Treinar tanto e errar na saída é muito triste, que pena”, lamentou Antônia Souza. “Com um remo só para cada uma é muito difícil”, complementou Alana.

A irlandesa Luise Dalton, de 32 anos, que mora com o marido francês no Brasil há um ano e meio, levou os filhos Hugo, de 4 anos, e Nuna, de 1, para passear de bicicleta na Lagoa e parou para ver a passagem dos remadores. “A vantagem é que torcemos para vários países”, afirmou. Luise não comprou ingressos para o remo, contentou-se com a vista de longe, mas, no fim de semana, assistirá às competições de atletismo e ciclismo de pista.