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Comentário de TV francesa sobre escravidão na abertura do Rio-2016 causa polêmica

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil) - Comentário de TV francesa sobre escravidão na abertura causa polêmica
(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O Conselho Superior do Audiovisual (CSA), órgão público de regulação do setor na França, abriu uma investigação a pedido do Conselho Representativo das Associações Negras (CRAN), que denunciou o "prisma colonialista" da transmissão da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, realizada pelos narradores da rede pública France Télévisions. Durante a cerimônia, um dos apresentadores fez comentários sobre a escravidão no Brasil, afirmando que "a escravidão foi necessária para o desenvolvimento industrial do país".

A transmissão foi realizada ao vivo pelo principal canal do grupo, France 2, e teve a participação do ex-jogador de futebol Raí, chamado de "embaixador" pela emissora. Líder de audiência no horário, com 42,6%, a transmissão incluiu uma verdadeira aula de história às avessas. Além de absolver a escravidão ao afirmar que "foi necessária" para o Brasil, o editor de Esportes Daniel Bilalian, comentarista da cerimônia, errou o setor da economia "beneficiado" pela exploração de mão-de-obra africana: foi na agricultura, e não na indústria que a escravidão foi mais empregada.

Além disso, Bilalian afirmou que a escravidão acabou "no fim do século 18", quando na realidade se prolongou até o fim do século 19. Os erros de informação foram além, como quando se fez referência às "populações incas" do Brasil, ou ainda quando Cristóvão Colombo foi descrito como "navegador espanhol", quando ele na realidade era de Gênova, cidade que viria a fazer parte da Itália.

Os comentários indignaram o conselho de associações negras, que protestou ao CSA contra o viés racista e colonialista da cobertura. "Afirmar que o tráfico foi 'necessário' e que utilizavam 'os serviços' de escravos constituem uma apresentação desastrada, para não dizer equivocada, que tende a minimizar ou até justificar a escravidão - que foi um crime contra a humanidade", afirmou a associação.

Além da entidade, telespectadores também protestaram ao Conselho Superior do Audiovisual contra a suposta "xenofobia" da equipe de transmissão. Países como Comores e Azerbaijão, por exemplo, "tentam existir", afirmaram os comentaristas.

Nas transmissões esportivas também houve reclamações. Em uma competição de ginástica olímpica, Thomas Bouhail, comentarista da modalidade, aventurou-se a ironias sobre os atletas japonesas. "Parecem mangazinhos. Há todos aqueles pequenos personagens felizes", disse, tentando fazer humor. "Parece que estamos em um desenho animado com pequenos Pikachus para todo lado." O comentarista mais tarde pediu desculpas e retirou os comentários, afirmando que não tinha tido a intenção de ofender a equipe feminina do Japão.

Diante das queixas sucessivas, o grupo de trabalho encarregado de Ética da Informação do Conselho Superior do Audiovisual abriu um estudo sobre o caso, que pode resultar em sanções ao canal. Em resposta, a direção da emissora publicou nota lamentando o episódio e informando que os incidentes estão sendo levados a sério no interior do grupo de informação. A presidente de France Télévisions, Delphine Ernotte, informou ainda que receberá representantes do conselho de associações negras para uma reunião em setembro.