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Comportamento efusivo do torcedor brasileiro surpreende atletas do Rio-2016

(Foto: Divulgação)  - Comportamento efusivo do torcedor brasileiro surpreende atletas
(Foto: Divulgação)

Quando compraram ingressos para os Jogos Olímpicos, os brasileiros escolheram estar na arquibancada, não na plateia. Seja em partidas das principais equipes do País, em duelos entre estrangeiros ou em modalidades sem tradição no Brasil, o que se vê no Rio é a participação ativa da torcida. Ser só um espectador não é opção.

Nem sempre essa reação agrada aos estrangeiros. Em algumas modalidades, existe um código branco de conduta que nem sempre é respeitado. Em esportes como tênis de mesa e tiro com arco, o público é formado majoritariamente por pessoas que estão tendo o primeiro contato com uma competição de alto rendimento da modalidade. Ao chegar ao estádio de canoagem slalom, na última segunda-feira, a publicitária paulistana Mariana Sampaio não tinha ideia de como se comportar. "Acho que a gente tem que gritar ‘Brasil’, incentivar. E vaiar também".

No "País do futebol", a referência é o comportamento nos estádios. "Esperamos que um dos legados desse evento seja o aprendizado no que se refere a outros esportes", avaliou Mario Andrada, diretor de Comunicações da Rio-2016.

O clima de arquibancada começa a ser construído na hora em que o torcedor escolhe a roupa que vai usar. A advogada Leila Karl decidiu vestir a camisa do Flamengo. "Todas as pessoas que vêm de fora devem saber que o Rio de Janeiro é do Flamengo". Vilson Valdemar Mantey queria demonstrar dois orgulhos diferentes. "Gosto de mostrar que sou torcedor do Grêmio e que sou gaúcho", afirmou o comerciante.

Há também quem tente atrapalhar o rival. A equipe de tiro com arco do Brasil viveu uma situação constrangedora. Na disputa das oitavas de final contra a China, a torcida brasileira gritava para atrapalhar os rivais - uma gafe esportiva que os chineses não quiseram comentar. "Esse é o jeito de o brasileiro torcer. Nós somos assim", disse o técnico Evandro França.

No tiro, não há o que impeça alguém de fazer isso. Na final em que Felipe Wu ganhou a prata, russos soavam cornetas na tentativa de desconcertar os rivais. “Chegou a atrapalhar, mas eles estão no direito deles. Já teve competição que eles levaram até bumbos”, contou o brasileiro.

Quando o duelo é em esporte coletivo e entre estrangeiros, a preferência é pelo mais fraco. No duelo entre Senegal e Estados Unidos pelo basquete feminino, por exemplo, os gritos de incentivo para o time africano incluíram um "eu acredito" quando a diferença no placar já era de mais de 50 pontos.

IMPLICÂNCIAS - Se argentinos estão em quadra, a torcida está contra - como ocorreu no jogo de handebol entre Argentina e Suécia. A goleira americana Hope Solo, que reclamou de disputar a Olimpíada em um país onde poderia contrair o vírus da zika, passou a ouvir gritos irônicos: "olê, olê, olê, olá, zika, zika." Na natação, a equipe russa do revezamento 4 x 100 metors livre foi vaiada quando teve a entrada anunciada e mostrada no telão do Estádio Aquático, uma reação da torcida ao escândalo de doping que culminou com ao banimento da maioria da delegação russa dos Jogos.

A criatividade tem sido vista com frequência na adaptação dos gritos de estádios de futebol. "Olê, olê, olê, olá, Bellucci e Sá", cantava a torcida que esteve na vitória contra os irmãos Murray, no tênis. Na esgrima, o “Uh, vai morrer. Uh vai morrer” virou: “Uh, fura ele. Uh, fura ele.” Na manha de segunda-feira, durante a disputa do judô, a torcida criou o grito “Pooooombo” para o judoca Alex Pombo, que acabou eliminado.

Esse apoio chega até os atletas brasileiros, que têm se impressionado com a recepção. Felipe Wu comemorou a prata afirmando que não teria chegado lá sem o apoio. Até quem tem na bagagem a maior coleção de medalhas olímpica se surpreende. “Tinha tanto entusiasmo vindo da torcida que era possível sentir durante a prova. Eu não sei se já ouvi algo parecido com isso”, comentou Michael Phelps, após sua primeira conquista no Rio.

VAIAS - Na Arena do Vôlei de Praia, as vaias são o método favorito do público para “secar” o saque dos adversários do Brasil. As checas Hermannova e Slukova sofreram na estreia contra Ágatha e Bárbara. Nos jogos sem brasileiros, os torcedores acabam escolhendo um lado e aí tome vaia para quem não caiu em suas graças. Quando a temperatura sobe no “caldeirão” de Copacabana, os locutores chegam a pedir moderação aos torcedores.

No Maracanãzinho, durante o vôlei, a proximidade das arquibancadas favorece o contato dos torcedores com os atletas. Vaias para adversários dos brasileiros foram comuns nos dois primeiros dias de competição no ginásio carioca, sem maiores incidentes.

Por mais que não aceite ser espectador, o brasileiro quer ver espetáculo. E quem oferece isso é recompensado. Argentino, Del Potro eliminou da Olimpíada o sérvio Djokovic, adotado pelos brasileiros. Ao fim da partida de domingo, em que teve a torcida contrária o tempo todo, foi aplaudido de pé por pelo menos um minuto. Na última segunda, a torcida já estava contra ele de novo.