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Festa de adeus aos Jogos marca fim de ciclo de grandes eventos esportivos no País

(Foto: Rio 2016) - Festa de adeus aos Jogos marca fim de grandes eventos  no País
(Foto: Rio 2016)

A cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos marca o início do tempo de fazer contas. O ciclo de grandes eventos, que incluiu a Olimpíada e a Copa do Mundo de 2014, consumiu pelo menos R$ 66 bilhões de recursos públicos, um valor superior ao PIB de quase 80 países, sem falar no dinheiro gasto com os Jogos Pan-Americanos, em 2007, e os Mundiais Militares, em 2011. Os dados foram levantados pela reportagem do Estado a partir de planilhas de custos apresentadas pelos comitês organizadores dos projetos.

O debate sobre a fase dos megaeventos vai além da matemática e incluiu discussões acaloradas sobre estádios considerados “elefantes brancos” em Manaus, Brasília e Cuiabá, um complexo esportivo na Barra da Tijuca, no Rio, que gera dúvidas em relação à manutenção, e dramas coletivos e políticos, como a derrota da seleção brasileira para a alemã por 7 a 1, a onda de protestos de 2013 que minou a popularidade da presidente Dilma Rousseff e abriu caminho para seu impeachment, a aposta de uma parceria entre lideranças do PT e do PMDB com empreiteiros e investidores em grandes obras e o rombo nos orçamentos da prefeitura carioca e da União.

Quando o Rio ganhou o direito de receber os Jogos em 2009, a escolha de um mercado emergente parecia óbvia. Sete anos depois, o evento desembarcou num país em recessão, com problemas para atrair patrocinadores, em uma crise política, questionamento social e desemprego com taxa de 11%.

Tanto a Olimpíada quanto a Copa foram negociadas por um grupo que incluía especialmente o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), o prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB), empreiteiras como a Odebrecht e cartolas envolvidos em escândalos há pelo menos uma década. Operações da Polícia Federal e do Ministério Público minaram o poder e a influência do grupo, que tinha por discurso a parceria entre os setores público e privado.

A promessa é que os eventos originalmente não contariam com recursos públicos. Hoje, governos como o do Distrito Federal, do Amazonas e do Mato Grosso pressionam o Planalto e o Congresso para compensar os rombos causados pelas obras do Mané Garrincha, da Arena Amazônia e da Arena Pantanal. No caso da Olimpíada, mesmo a Vila dos Atletas, um condomínio de 31 prédios de luxo edificado na Barra da Tijuca pela Odebrecht e pela construtora Carvalho Hosken, foi praticamente todo financiado pela Caixa Econômica Federal.

O governo interino de Michel Temer foi obrigado ainda a sair ao resgate do evento olímpico. “A sociedade brasileira precisa ver isso como um investimento”, argumentou Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro.

PROMESSAS - Algumas promessas foram abandonados no caminho. Em 2009, os organizadores diziam que os Jogos seriam usados para despoluir a Baía de Guanabara. Em meio às provas de vela, barcos eram vistos na água recolhendo lixo.

O projeto de desenvolvimento tocado por Lula e pela presidente Dilma Rousseff, que incluía os grandes eventos, engessou a atuação de movimentos populares e sindicatos ligados ao PT. Com um efetivo de 23 mil agentes no Rio, o atual governo procurou desvincular problemas na segurança com os Jogos. Numa rápida visita ao Parque Olímpico na última quinta-feira, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que a morte do soldado Hélio Vieira, da Força Nacional e as mortes de pelo menos quatro moradores do Complexo da Maré, no Rio, em ações punitivas da polícia, não têm ligação com a Olimpíada. “Nós entendemos que não há vínculos.”

A corrupção também marcou os sete anos de preparação da cidade. As obras em Deodoro foram alvos de uma operação da Polícia Federal, enquanto o próprio Maracanã passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. No total, o MPF tem cinco investigações abertas em relação ao evento.

Um dos legados, porém, será a nova estrutura de transporte na cidade, como a linha 4 do metrô, até a Barra da Tijuca, o corredor de ônibus BRT e o VLT, Veículo Leve Sobre Trilhos, que ligou o aeroporto Santos Dumont à rodoviária. Os custos ficaram R$ 10 bilhões acima do orçamento inicial, de R$ 28,8 bilhões. Ainda que com custos inferiores aos Jogos de Londres em 2012, a Olimpíada brasileira terá gastos 40% superiores ao que foi aplicado para a Copa do Mundo de 2014, que saiu por R$ 27 bilhões.

Assim como ocorreu com a Fifa em 2014, o COI em 2016 não esconde sua satisfação com a renda. A entidade do futebol arrecadou R$ 15 bilhões, contra R$ 18 bilhões pelo COI. “A entidade, os patrocinadores e os parceiros comerciais estão muito satisfeitos”, disse à reportagem do Estado o presidente de honra do COI, Jacques Rogge. “Com o fim da Olimpíada, termina a fase de complexo de vira-lata do Brasil”, comemorou Mario Andrada, diretor executivo do Comitê Rio-2016.

Longe das estratégias de comunicação, a aposta nos megaeventos deixou um legado misto. O fim de uma década de obras, planos e pressões não gerou todas as mudanças prometidas. Não houve um atalho para o desenvolvimento. Mas a Olimpíada e a Copa colocaram o Brasil no foco internacional e se transformaram em espelhos do País ao mundo.