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Investigação descobre pagamento secreto de Tóquio para sediar Jogos de 2020

A candidatura de Tóquio para sediar os Jogos de 2020 teria feito um pagamento para o ex-presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês), Lamine Diack, em troca de seus votos e influência para que a cidade japonesa recebesse o evento.

No total, cerca de 1,3 milhão de euros teriam sido transferidos para a conta do ex-dirigente, e a transação é hoje investigada pela polícia da França, que apura os crimes cometidos por Diack. Eles também apuram se houve algum tipo de irregularidade na escolha do Rio de Janeiro para sediar o evento em 2016.

A revelação é do jornal inglês The Guardian e vai aumentar a pressão para que o Comitê Olímpico Internacional (COI) abra investigações sobre a forma pela qual Tóquio venceu o pleito, ainda em 2013.

Uma década depois dos escândalos sobre a compra de votos para a Olimpíada de Inverno de Salt Lake City, em 2002, o COI poderá mergulhar em uma nova crise.

Diack já estava no radar dos franceses, depois que foi acusado de ter recebido 1 milhão de euros para esconder casos de doping de atletas russos enquanto comandava a IAAF. Como membro do COI, ele tinha ainda influência na escolha de sedes.

Os investigadores em Paris decidiram, assim, ampliar as investigações para também lidar com as escolhas dos Jogos de 2016 no Rio e 2020 no Japão.

A suspeita aparece ainda num informe publicado pela Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês). Numa nota de roda pé, o documento que investigava a IAAF sugeriu que os japoneses venceram depois que Diack abandonou o projeto de Istambul e deu seu voto para Tóquio. Semanas antes, um patrocinador japonês havia fechado um acordo de apoio à IAAF. Os japoneses negam, enquanto o COI apenas indicou que iria " examinar o caso ".

O informe diz que Istambul perdeu os votos dos membros da federação de atletismo que fazem parte do Comitê Olímpico Internacional (COI) porque não fez um depósito de US$ 5 milhões para Khalil Diack, consultor da IAAF e filho do então presidente da entidade, Lamine Diack.

"Segundo o relato da conversa, os japoneses fizeram o pagamento de tal soma. E os Jogos Olímpicos foram dados para Tóquio", indicou o informe. Os japoneses foram à final contra os turcos e ganharam por 60 votos a 36 o direito de sediar o evento que organizaram pela primeira vez em 1964.

Hoje, dos sete patrocinadores da IAAF, quatro são japoneses: Canon, Seiko, TDK e Toyota. A suspeita é de que o dirigente trocava patrocínios por apoio aos eventos internacionais.

Agora, o que a polícia francesa apura é um pagamento enviado pela candidatura japonesa para uma conta Black Tiding, em Cingapura. A conta seria controlada pela família Diack e está no centro das investigações do sistema corrupto criado pelo dirigente.

Os organizadores japoneses da candidatura se recusaram a dar uma explicação ao jornal inglês e seu comitê organizador insiste que desconhece o que foi feito durante os meses de candidaturas. "Não conhecemos essas alegações. Acreditamos que os Jogos foram dados para Tóquio porque a cidade tinha a melhor candidatura", disse a porta-voz Hikariko Ono.

Segundo o jornal, o pagamento também poderia levantar questões sobre o papel da Dentsu, a empresa de marketing japonesa que conta com um contrato com a IAAF até 2029. Nos últimos meses no cargo, Diack ampliou o contrato dos japoneses com a entidade.

A conta Black Tiding também era controlada por Ian Tan Tong Han, consultor de uma das subsidárias da Dentsu criada para administrar os contratos com a IAAF. Tan, porém, tinha amplo acesso ao comando da federação e era um dos principais aliados de Diack.

A primeira referência à conta em Cingapura também foi feita pela WADA. Em sua investigação, a entidade identificou um pagamento de 300 mil euros para a Black Tiding relativos à tentativa de abafar o doping da corredora russa Liliya Shobukhova, depois que testes apontaram substâncias ilegais. Em hindu, Black Tidings significa "Lavar dinheiro negro".

O COI garante que já é parte civil no processo na Justiça francesa e que está em contato com os investigadores desde o início do mesmo. "Os delegados do Comitê de Ética do COI vão continuar em contato com todas as partes interessadas para esclarecer qualquer tipo de conduta inadequada", disse a entidade. O COI, porém, afirmou que não fará qualquer comentário sobre a revelação.