28°
Máx
17°
Min

Refugiados no Brasil festejam participação iraquiana no futebol olímpico

(Foto: EBC) - Refugiados no Brasil festejam participação iraquiana no futebol
(Foto: EBC)

O comerciante Hamid Jassm ficará feliz seja qual for o placar do jogo deste domingo entre Brasil e Iraque. Com camisa, bandeira e corneta, ele estará no Estádio Mané Garrincha para empurrar a seleção iraquiana, que depois de 12 anos volta a disputar os Jogos Olímpicos. Mas também torcerá pelo bom desempenho do futebol do Brasil, terra que o acolheu há 14 anos.

Jassm é um dos 275 iraquianos refugiados no Brasil reconhecidos pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), segundo dados mais recentes, de abril deste ano. Ele se mudou para a capital federal para trabalhar na embaixada do Iraque, em 2002. No ano seguinte, perdeu o posto com a invasão das tropas americanas ao país, sob a justificativa de que o líder Saddam Hussein detinha armas de destruição em massa.

Com a queda de Saddam, o ex-morador de Bagdá pediu asilo ao Brasil, onde decidiu recomeçar a vida. Trabalhou em hotel, vendeu comidas árabes, juntou dinheiro e abriu uma loja de R$ 1,99 com o nome de Shopping do Habib, em Sobradinho, uma das regiões administrativas do Distrito Federal. Com preços variados, Jassm vende de tudo: utensílios domésticos, roupas, produtos de beleza e também bijuterias.

Com 61 anos, ele nunca tirou férias, nem descansou em feriados. Vive em Sobradinho ao lado da esposa, da irmã e de sete sobrinhos, que vieram aos poucos para o Brasil - alguns o ajudam na loja. "Brasileiro é cheio de amor pela bola, por isso acho que deve terminar em primeiro (do grupo). Iraquiano não joga apenas para ganhar, mas também para fazer amigos”, afirma.

Assim que a seleção iraquiana desembarcou em Brasília, a família dele preparou comidas típicas para os jogadores, mas eles gostaram mesmo foi de feijão, picanha e dos doces brasileiros. Jassm foi com a família à estreia do Iraque no Rio-2016 na última quinta-feira, quando a equipe empatou sem gols com a seleção da Dinamarca.

Jassm elogia todos os clubes brasileiros, mas admite sua torcida pelo rubro-negro carioca. “O povo aqui diz que quem torce pelo Flamengo é bagunceiro, mas eles jogam bem”, afirma rindo.

Ele só fica triste, com olhos embargados, quando lembra que perdeu o único filho na guerra entre Irã e Iraque (1980-1988). O comerciante deseja que o Iraque volte a prosperar, embora descarte voltar ao país. “Essa virou a minha terra, aqui eu vivo em paz.”

COMUNIDADE - Segundo a irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IDH), no ano passado, foram 38 solicitações de refugiados do Iraque na capital, mais do que o dobro dos 17 atendidos em 2014. “Não temos como confirmar se todos ainda se encontram na capital. É comum que busquem outras cidades quando surgem oportunidades de empregos”, afirma.

A família de Rasim Mohamadali, de 50 anos, se mudou para Brasília há dois anos, fugindo do acirramento dos conflitos sectários entre xiitas e sunitas. Montou o Lava Jato Bagdá, onde trabalham os filhos Hassan de 18 anos, e Hussein, de 17 anos. Eles também foram receber a seleção iraquiana no hotel onde está hospedada e ganharam ingressos para as partidas na capital.

Hussein diz que ficou feliz ao ver que os brasileiros que chegaram antecipadamente para o jogo na quinta resolveram encorpar o coro da torcida pelo Iraque. Para o jogo deste domingo, afirma estar divido. “Vou torcer no primeiro tempo para a seleção iraquiana e no segundo, pela brasileira, já que o Brasil deve ganhar mesmo”, diz.

Ele elogia o camisa 6 do Iraque, Ali Adnan, único jogador da seleção iraquiana a atuar em grandes ligas da Europa, pela italiana Udinese. No Brasil, Hussein ainda não escolheu um time para torcer, já o irmão optou pelo Flamengo.

Os adolescentes sentem falta dos amigos e da comida do Iraque, mas pretendem voltar apenas para visitar. “Aqui é melhor para viver porque temos paz, só é ruim para passear. Tem poucos lugares e são caros”, diz Hassan, que tem mais três irmãos além de Hussein, tinha namorada no Iraque mas não teve tempo de arrumar uma aqui no Brasil. Eles não estudam no Brasil porque os documentos escolares ficaram no Iraque. Trabalham de segunda a sábado das 8 às 18 horas e nos domingos, de 8 horas ao meio dia. Com cinco minutos de entrevista, o pai que tem dificuldade em falar português interrompe e diz: “Desculpa, mas eles precisam voltar ao trabalho”.