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Sob chuva, Rafaela Silva desfila em carro de Bombeiros na Cidade de Deus

(Foto: Divulgação)  - Rafaela Silva desfila em carro de Bombeiros na Cidade de Deus
(Foto: Divulgação)

A judoca Rafaela Silva foi homenageada nesta segunda-feira por moradores da Cidade de Deus, favela da zona oeste do Rio de Janeiro onde nasceu e foi criada. Com a medalha de ouro olímpica no pescoço e segurando uma bandeira do Brasil, ela desfilou por mais de duas horas no alto de um carro do Corpo de Bombeiros e, mesmo sob chuva, foi acompanhada por centenas de pessoas, que tiravam fotos, gritavam seu nome e cantavam músicas de exaltação à comunidade e versinhos como "Rafaela é ouro na favela". Desde sua vitória na Olimpíada, há duas semanas, triplicou a procura por vagas para crianças em escolinhas de luta na favela, segundo instrutores.

Sorridente, a atleta de 24 anos passou pelas ruas onde, na infância, jogava bola e carregava botijões de gás para ajudar os pais, e fez a alegria das crianças. Moradores bateram palmas e soltaram fogos de artifício durante o trajeto. Uma carreata acompanhou o carro dos bombeiros. "Na Cidade de Deus não temos nada, mas temos uma medalhista de ouro", disse, entusiasmada a confeiteira Roselaine Baptista, de 39 anos, que levou a filha de nove para acenar para Rafaela.

"Ela me inspira. Todo mundo criminaliza a favela", contou a lutadora Gabrieli Pessanha, de 16 anos, que integra o projeto Lutadores de Cristo, nascido há cinco anos na Cidade de Deus, e ganhou duas medalhas numa competição mundial na Califórnia há dois meses - conseguiu dinheiro para viajar vendendo brigadeiros, que faz em casa. A adolescente recebeu outro prêmio nesta segunda: subiu no alto do carro junto com Rafaela, seus pais, irmã e sobrinha.

Pouco antes do desfile, a judoca falou a jovens do projeto, criado pelo pastor Josué Branquinho, da Igreja Maranata, que oferece aulas gratuitas de jiu-jitsu numa garagem improvisada.

"É muito importante estar aqui, tirar fotos com as crianças. Já estive do outro lado. Quis estar perto de um ídolo, pegar no quimono, e não tive essa oportunidade. Gosto de estar perto das crianças. Elas me acolhem", declarou a jornalistas brasileiros e estrangeiros presentes. "Depois de 19 anos de trabalho, tenho esse reconhecimento. Antes eu era reconhecida uma vez por mês, agora é o tempo todo. Tenho 24 anos e todos os títulos que um atleta pode ter."

Filha de um motorista de frete e uma dona de casa, Rafaela se mudou da Cidade de Deus aos oito anos, para morar mais perto do Instituto Reação, ONG do ex-judoca Flávio Canto, onde treina. Para os moradores, ela segue "a Rafaela da CDD", um modelo a ser seguido pela criançada. "A comunidade sempre foi estigmatizada pela violência. A medalha acende uma esperança de mudar isso", disse o DJ TR, que organizou a homenagem com o amigo Bruno Rafael. Agitadores culturais da favela, os dois estão filmando um documentário sobre os 50 anos da Cidade de Deus.

Ex-pugilista, TR toca desde o ano passado o projeto Embaixada da Luva, que, à base de doações, oferece a 270 alunos aulas gratuitas de boxe e muay thai. Horas depois da luta da vitória, a academia, que não cobra nada dos alunos, viu triplicar seu movimento - eram mães que querem que os filhos sigam os passos de Rafaela.

O professor Marcio de Deus, do Lutadores de Cristo, também notou o aumento da procura. "Ela venceu de tarde. De noite, já vieram dez ou 15 mães me procurar. Todo mundo se identifica com a história dela", contou.

Durante o trajeto feito pelo carro dos bombeiros que levava Rafaela, podiam ser vistos traficantes armados em ruas próximas, mas não foram registrados incidentes. Por volta das 8h30, seis horas antes da chegada de Rafaela, criminosos e policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) travaram um tiroteio. Ninguém se feriu. Nenhum bandido foi preso. A UPP está na favela desde 2009, mas o tráfico permaneceu por lá.