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Torcida esbanja bom humor e criatividade nos cânticos na Olimpíada

(Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília) - Torcida esbanja bom humor e criatividade nos cânticos na Olimpíada
(Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)

Na Copa do Mundo, em 2014, a torcida brasileira se notabilizou pela monotonia nos cânticos dentro dos estádios. Só se ouvia o enfadonho "Sou brasileiro/ Com muito orgulho/ Com muito amor". Não se pode acusar o público da Olimpíada da mesma falta de imaginação. A criatividade está imperando nas arenas, quadras e estádios. Algumas vezes atrapalhou os atletas, outras passou do tom, mas, em geral, provocou risos e sorrisos em quem ouviu.

Os cânticos irônicos, involuntariamente ou não, foram entoados até nos lugares e competições mais insuspeitos - e mesmo quando o Brasil não tinha representante em quadra (ou na água). Maior nadador de todos os tempos, Michael Phelps não entendeu nada quando, em uma eliminatória, um torcedor brasileiro, sem saber como torcer pelo ídolo, soltou um “Vai, Curíntia!”. Outros, porém, foram mais criativos nas suas manifestações.

As equipes femininas de Japão e Áustria disputavam uma animada partida pelas quartas de final do tênis de mesa, no sábado à tarde. Os poucos torcedores japoneses começaram a entoar o tradicional “Go Nippon! Go Nippon!” para incentivar suas atletas. A torcida brasileira entrou no coro, suplantando os nipônicos, mas fez uma adaptação aos novos tempos: “Go Pokemon! Go Pokemon!”. Deu Pikachu, ou melhor, Japão por 3 a 0.

A favorita Dinamarca enfrentava o Catar na Arena do Futuro, sábado, pelo Grupo A do torneio de handebol masculino. O jogo estava apertado mas, dessa vez, os brasileiros não optaram pelo mais fraco. Ou, se optaram, foi ironicamente. Talvez porque o trocadilho fosse irresistível: “Vai… Te catar!/ Vai… Te catar!”. O goleiro do Catar não catou e a Dinamarca venceu, por diferença de um gol.

A torcida irônica apareceu quase sempre que estimulava um time contra o favorito, mas a equipe mais forte confirmava o favoritismo. Foi o que aconteceu na partida de basquete entre China e Estados Unidos. A diferença em favor do time norte-americano, e os brasileiros na arquibancada se divertiam cantando “Vamos virar, China”, seguido de um “Eu acredito”.

Menos irônico e mais literal foi o grito repetido em diversos combates da esgrima nos quais havia brasileiros, ou mesmo no boxe. Os torcedores importaram o coro das arenas de MMA e não pararam mesmo depois de serem repreendidos: “Uh! Vai morrer!”. “Vai Safadão, vai Safadão!”, era o grito que ecoava na torcida da Arena do Vôlei de Praia, em Copacabana, na disputa da repescagem entre as duplas da Polônia e do Canadá, na quinta-feira. Não era um xingamento, mas referência à semelhança entre o polonês Marius Trudel com o cantor brasileiro Wesley Safadão.

De boné e rabinho de cavalo, Trudel era ovacionado toda vez que tocava na bola. O público ia ao delírio, enquanto o jogador não tomava nem conhecimento do que acontecia. Houve até mesmo uma entrevista no telão em que uma torcedora brasileira confessou estar torcendo para o intérprete do hit "Aquele 1%". O jogo terminou em 2 a 0 para o Canadá. E o "Safadão cover" voltou para casa.

PITCHULA DO BOXE

Os cabelos de outro atleta também inspiraram a torcida brasileira em outra arena. Foi o boxeador do Equador Carlos Andrés Mina, na luta contra o alemão Serge Michel - que, convenientemente, era careca. Os brasileiros entoaram um hit dos Mamonas Assassinas - Pelados em Santos, estimulados também pelo nome do equatoriano: “Mina, teus cabelo é da hora…” Deu certo: o lutador do Equador ganhou a luta.

Poucos jogos assistiram a uma batalha de torcidas mais intensa do que Brasil e Argentina, no basquete masculino. O empate no tempo normal, seguido de duas prorrogações alimentou a já tradicional rivalidade, e estimulou a criatividade de ambos os lados. Algumas das rimas mais explícitas não convém reproduzir, mas outras revelaram um deboche que merece o registro.

Quando o Brasil ainda comandava o placar, a torcida brasileira se entusiasmou, e enfileirou cânticos provocativos aos argentinos, quase sempre aludindo ao futebol. O mais cantado e engraçado fazia uma comparação do maior craque da atualidade do futebol mundial com um jogador brasileiro que ficou mais famoso na Copa de 2002 pelas cambalhotas que deu na rampa do Palácio do Planalto após algumas doses do que pela habilidade: “Êta, êta, etá/ O Messi não tem Copa/ Quem tem é o Vampeta, êta, etá.”

Mas os argentinos acabaram vencendo em quadra e tiveram a palavra final, ou melhor, o cântico definitivo, antevendo a eliminação da seleção brasileira do torneio de basquete: “Um minuto de silêncio/ Shhhh (silêncio)/ O Brasil morreu”. A festa dos hermanos continuou muito tempo depois de os brasileiros terem abandonado o velório, ou melhor, a quadra.

Não é que o “Sou brasileiro/ Com muito orgulho/ Com muito amor” tenha ficando totalmente ausente dos campos e quadras olímpicos. Foi ouvido aqui e ali, mas nada tão onipresente quanto na Copa. Na verdade, os torcedores conseguiram até dar um toque irônico à música, mas não foi em um jogo do Brasil. No handebol feminino, a torcida brasileira adotou a seleção de Angola, graças especialmente à - como ela se define - “fofinha” goleira Bá. Para demonstrar seu carinho, os brasileiros improvisaram um “Sou angolano/ Com muito orgulho/ Com muito amor”. Não deu muita sorte. Angola foi tão longe no handebol quanto o Brasil em 2014.