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Após 5 anos, morte de jovem atropelado na Vila Madalena permanece impune

Dia 23 faz cinco anos que o administrador Vitor Gurman foi atropelado na calçada da Rua Natingui, na Vila Madalena, zona oeste, por um Land Rover que trafegava em alta velocidade. A motorista do veículo, a nutricionista Gabriella Guerrero, que estava acompanhada do então namorado, Roberto Lima, ainda derrubou um poste e o carro tombou. Gurman morreu seis dias depois.

No âmbito criminal, a nutricionista foi denunciada por homicídio doloso (quando há intenção de matar), mas a Justiça ainda não decidiu se o caso vai a julgamento. Até agora, como punição, ela teve a carteira cassada e ficou proibida de sair à noite, mas já recuperou os seus direitos. Juntamente com o namorado, também foi condenada a pagar R$ 1,5 milhão à família de Gurman. Eles recorreram.

"Sempre nos perguntamos até quando vai durar esse sofrimento", disse Jairo Gurman, pai de Vitor. A defesa de Gabriella sustenta que houve homicídio culposo (sem intenção).

Casos semelhantes ao de Gurman fazem fila para serem julgados. No último dia 8, o estudante Lucas Magalhães Ribeiro, de 16 anos, foi atropelado com a avó, de 66, quando esperavam um ônibus na Lapa, na zona oeste. Lucas morreu na hora. A avó continua internada no hospital.

O motorista do carro, o estudante Rodrigo Monteiro Sze, de 20 anos, foi preso em flagrante por homicídio doloso. A Justiça determinou a liberdade dele, desde que pague fiança de R$ 130 mil. Sem condições de pagar, ele continua preso. "Meu filho foi assassinado", disse Gilberto Ribeiro dos Reis, pai de Lucas. Para a defesa de Sze, houve um acidente.

Em maio, Anariá Recchia, o marido dela, Sávio Mourão, e um amigo estavam na calçada de um bar em Pinheiros quando foram atropelados por um carro em alta velocidade. Anariá morreu no dia seguinte. O motorista, segundo a polícia, estava bêbado, não tinha habilitação e tentou fugir. Ele ficou preso por 20 dias, mas foi solto. "Ninguém merece passar por essa dor", disse Mourão.

Em agosto de 2014, o atleta Álvaro Teno, de 67 anos, foi atropelado com um grupo de corredores na Cidade Universitária por um motorista que, segundo a polícia, estava bêbado e dirigia em alta velocidade. O suspeito ficou um ano preso e foi solto e o crime não foi julgado. "Indignação. Esse é o sentimento", disse Adolfo Teno, filho da vítima.

O professor de Direito Penal da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Christiano Jorge Santos defende uma mudança na legislação. "As penas são baixas e os casos se repetem. Condenados acabam com pena de prestação de serviços à comunidade. É preciso mudar a lei e estabelecer parâmetros adequados para acabar com a sensação de impunidade", afirmou.

Na capital, os registros de homicídios culposos no trânsito têm diminuído: no primeiro semestre deste ano aconteceram 167 ocorrências, ante 201 casos no mesmo período de 2015. Os crimes dolosos caíram de sete para seis.

Depoimentos

'Todos os dias nos perguntamos até quando vai durar esse sofrimento'

Jairo Gurman, pai de Vitor Gurman

"A família vive uma angústia muito grande. Neste mês o crime faz cinco anos e nada aconteceu em termos de Justiça. O processo caminha a passos lentos. Não tem nem sentença de pronúncia, ou seja, nem é possível dizer se a responsável por esse crime será julgada. Porque não foi acidente, foi um assassinato.

A motorista estava em alta velocidade, sob efeito de álcool e tirou a vida de uma pessoa. Não sou eu que afirmo isso, mas a investigação da Polícia Civil. E o Ministério Público diz que houve um homicídio doloso.

Existem provas técnicas, há testemunhas, enfim, tudo que foi feito até agora mostra que houve um crime.

Todos os dias, nós nos perguntamos até quando vai durar esse sofrimento, essa angústia, essa falta de definição que só aumenta a indignação.

No País, as leis são frágeis e desamparam as famílias, que ficam sem resposta por parte do Estado. Conseguimos, por meio da ONG Não Foi Acidente, mais de 1 milhão de assinaturas para mudar as leis de trânsito, que são brandas demais e incentivam o aumento da impunidade. A gente está fazendo tudo o que é possível para mudar esse cenário.

Amparo

A demora da Justiça só nos mostra o quanto estamos desamparados. Nós, familiares de vítimas, nos ajudamos e damos amparo uns aos outros, porque sabemos a dor enfrentada por cada um.

Nesta última semana, eu acolhi uma família que perdeu um filho, morto por um motorista bêbado. Acolher alguém nessa situação é muito difícil. Você fica viúvo quando perde o companheiro, fica órfão quando perde os pais. Mas e quando se perde um filho? A dor é tão grande que não tem definição. As pessoas que não passaram por isso podem imaginar o que é isso. Mas entre imaginar e viver, há uma distância quilométrica. Nós sentimos isso na pele, por isso, conhecemos a dor da pessoa."

'Tiramos as fotos do Lucas de casa'

Gilberto dos Reis, pai de Lucas Magalhães Ribeiro

"O Lucas estava indo para a escola. Eu trabalhei à noite, por isso, a minha mãe foi com ele até o ponto de ônibus. Eu sei que ele (o acusado) está preso, porque não está conseguindo pagar a fiança estipulada pela Justiça. Eu quero que ele pague, não com dinheiro, porque ele tirou a vida do meu filho.

O Lucas sempre foi muito estudioso e estava indo apenas entregar um trabalho na escola. A minha mãe ficou muito machucada e ainda está internada no hospital. Ela sabe que o neto dela morreu e está sedada. Aliás, eu e minha mulher estamos sob efeito de calmantes. Tivemos de tirar todas as fotos do Lucas que estavam espalhadas pela casa, porque a minha filha de 1 ano e 4 meses chama por ele quando as vê, e isso é doloroso demais.

O que aconteceu não foi uma fatalidade, foi um assassinato. Como alguém pode dirigir a ponto de passar por cima do cercado em que eles estavam, bater em dois postes e só parar quando bateu em outro carro? Nós doamos as córneas do Lucas para duas pessoas e assim ajudamos duas vidas. Estamos procurando testemunhas para ajudar na apuração da polícia. Eu tenho direito de que ele (o acusado) fique preso."

'Ninguém merece viver essa dor'

Sávio Mourão, marido de Anariá Recchia

"Perdi a Anariá, minha mulher, há dois meses. Estávamos na calçada junto com nosso amigo Tiago quando fomos atropelados por um carro que estava em alta velocidade. O motorista estava bêbado, não tinha carteira de habilitação e só não fugiu porque as outras pessoas não deixaram.

A Anariá ficou internada no hospital, mas morreu. Ela foi assassinada. O Código de Trânsito diz que tudo é acidente, mas não é. Ela foi vítima de um crime. Quando se tem uma arma e se atira e mata, há uma responsabilização. Um carro também é uma arma, quando o motorista que o dirige está bêbado e age com imprudência. É um crime que deveria ser considerado hediondo.

Depois do que aconteceu, nós fomos acolhidos pela ONG Não Foi Acidente. Descobri que não somos os únicos que sofrem com essa dor, essa injustiça. É triste saber que a maioria desses casos fica impune, sem resposta da Justiça.

A Anariá morreu da pior forma possível. Ninguém merece viver e reviver essa dor de perder a pessoa amada dessa maneira e saber que há um doloroso caminho a ser percorrido para que o responsável por esse crime possa ser punido."