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Após demissão, maestro John Neschling diz que Haddad o traiu

O maestro John Neschling, ex-diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo, afirmou na quinta-feira, 8, que o prefeito Fernando Haddad (PT) o traiu. Em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, da Globonews, o músico afirmou que havia recebido do petista a garantia de que só deixaria o posto quando quisesse, já que nenhuma prova de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção que desviou R$ 15 milhões do teatro foi apresentada até agora pela Controladoria Geral do Município. "Ele disse na quinta-feira: fique tranquilo. De mim não partirá essa injustiça. Na segunda, fui demitido. Não por ele, mas pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Gestão Cultural), com ordem dele, evidentemente."

Segundo Neschling, o aval dado pelo prefeito tem relação direta com a campanha eleitoral - Haddad é candidato à reeleição e o caso do teatro poderia prejudicá-lo. Durante a reunião entre eles, realizada na semana passada, essa pressão política pela saída do maestro chegou a ser mencionada. "Falei que se essa pressão continuasse e de forma extremamente desagradável para a campanha, eu iria embora. Falei que não tinha problema, mas ele falou que, pelo amor de Deus, que não fizesse isso."

Os desdobramentos seguintes, de acordo com o músico, representaram para ele uma "grande decepção". Durante a entrevista, disse que Haddad era uma pessoa em quem ele acreditava, confiava e com quem tinha diálogos abertos. "Nesses três anos, pensei ter encontrado um político que realmente era diferente, mas, infelizmente, vi que ele não é diferente em nada. Que na hora do vamos ver, na hora em que a vaca vai para o brejo, ele é como todos os outros políticos e trai da mesma forma que todos traem", completou.

A gestão Haddad não quis comentar a entrevista. Na segunda-feira, após a notícia da demissão de Neschling, a Prefeitura divulgou nota na qual afirmou que o IBGC tem autonomia para definir sobre o afastamento do músico.

Investigações

O nome de Neschling foi citado nas investigações em março pelo ex-diretor da Fundação Theatro Municipal, José Luiz Herência, primeiro delator do esquema. No acordo que firmou com o Ministério Público Estadual, ele afirma que o músico não só sabia das fraudes, como participava delas, usando a indicação de espetáculos superfaturados ou a contratação de artistas internacionais por valores superiores aos praticados no País.

Um dos projetos sob investigação, o Alma Brasileira, custou R$ 1 milhão à cidade, apesar de nunca ter sido montado.

De lá pra cá, o maestro passou a ser oficialmente investigado pelo Grupo Especial de Combate a Delitos Econômicos (Gedec) e foi novamente acusado, desta vez pelo ex-diretor do IBGC, William Nacked, que também teve acordo de delação homologado pela Justiça. Assim como Herência, Nacked afirma que Neschling participava do esquema ao contratar espetáculos de agentes que depois o chamavam para apresentações no exterior, como uma espécie de "toma lá, dá cá".

O músico nega qualquer tipo de participação e considera a demissão um ato unilateral, que pretendeu extinguir seu contrato de "forma ilegal e arbitrária". Diante da situação, o músico afirmou que, juntamente com seus advogados, tomará as providências legais cabíveis. O IBGC não informou o motivo da demissão.