22°
Máx
16°
Min

Cientistas trazem de volta memórias esquecidas

RICARDO BONALUME NETO

SÃO PAULO , SP (FOLHAPRESS) - "Memória", a capacidade de obter, armazenar e recuperar informações no cérebro, costuma ser classificada de várias maneiras. A mais importante é a distinção entre a memória de curto prazo -que dura alguns segundos ou minutos- e a de longo prazo -que faz a pessoa lembrar de algo vários dias, meses ou anos depois.

A memória de curto prazo também costuma ser chamada de "memória de trabalho", pois é aquela usada praticamente todo o tempo. Os cientistas achavam que mesmo para guardar um número de telefone ou lembrar o nome de uma pessoa recém-apresentada por alguns segundos ou minutos seria preciso que as células nervosas do cérebro (os neurônios) vinculadas a essa memória deveriam estar constantemente ativas.

Se a pessoa achar o número de telefone ou o nome do novo conhecido importantes, eles vão ser armazenados a longo prazo pela memória de longa duração.

Um novo estudo da equipe de Nathan Rosen, pesquisador das universidade de Wisconsin e Notre Dame, EUA, demonstrou agora que os neurônios conectados a esse tipo de memória não precisam estar tão "ligadões" assim. Essas zonas ativas de contato entre uma terminação nervosa e outros neurônios são conhecidas como "sinapses".

Os neurônios podem ficar em estado latente, mostrando que a atividade cerebral ligada a essa memória só precisa reaparecer quando a pessoa que tenta lembrá-la conscientemente focaliza sua atenção nela. Ou seja, a memória que tinha sido deixada de lado –como o número de telefone antes considerado não importante– passa a ser "reativada".

"A capacidade de armazenar informações na memória de trabalho é fundamental para a cognição. Ao contrário da visão de longa data de que a memória de trabalho depende de uma atividade elevada e sustentada, apresentamos evidências que sugerem que os seres humanos podem armazenar informações na memória de trabalho através de mecanismos sinápticos 'silenciosos em atividade'", escreveram Rose e colegas em artigo na última edição da revista científica "Science".

Eles usaram um complexo modelo matemático para analisar os padrões de atividade cerebral. Os experimentos envolveram observar rapidamente imagens, palavras ou movimentos, prestar atenção em dicas capazes de identificá-los, enquanto o cérebro era "escaneado" por tomografia.

A reativação foi ajudada por impulsos de uma técnica magnética não invasiva, que usa rápidos campos magnéticos para enviar um impulso elétrico ao cérebro. Se o impulso for na área do cérebro inicialmente ativa, a resposta de "reativação" é ainda mais intensa.

"Nossos resultados fornecem evidência empírica para a existência de um mecanismo de plasticidade de curto prazo que é provável que seja fundamental para uma ampla gama de funções cognitivas envolvendo a seleção atencional e pode fornecer os blocos de construção para mecanismos de potencialização de longo prazo que apoiam a memória a longo prazo. Portanto, nossos resultados introduzem uma via potencial para reativar e fortalecer representações que estão subjacentes a muitas classes de cognição de alto nível", concluíram os autores na "Science".

O estudo não explica o mecanismo pelo qual as sinapses ou outras características neurais podem conter este segundo nível de memória de trabalho, ou quanta informação poderia ser armazenada. "É um primitivo passo inicial na compreensão de como levamos as coisas à mente", diz o neurocientista cognitivo Bradley Postle, da Universidade de Wisconsin, um coautor do estudo.

Em termos práticos, os resultados de estudos na área poderão ajudar pessoas com problemas de memória como amnésia, epilepsia e esquizofrenia.