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Colégios particulares de SP chamam estrangeiros para conversas e aulas

Quando chegou ao Brasil em 2014, o nigeriano Shakiru Olawale, de 31 anos, teve de se adaptar a uma nova realidade: deixou as aulas de Matemática, Ciências e História para adolescentes para ensinar Inglês a adultos. Mas, no mês passado, ele teve a oportunidade de voltar a ensinar para os jovens, dessa vez sobre a cultura de seu país. Como ele, outros imigrantes estão sendo convidados por colégios particulares de São Paulo para dar aulas e trocar experiências com estudantes.

O Colégio Oswald de Andrade, na Vila Madalena, zona sul da capital, iniciou neste ano um trabalho na disciplina de Inglês de troca de cartas entre alunos do 2º ano do ensino médio e imigrantes, que dão aulas de idioma e cultura no projeto Abraço Cultural. "Inicialmente, nossa ideia era fazer com que os alunos tivessem uma experiência mais real com o idioma ao serem obrigados a se comunicar com quem tem uma única língua em comum, o inglês. Mas eles ficaram tão entusiasmados com a troca de experiências que o projeto cresceu", afirma Maria Cristina Ramos, coordenadora da disciplina no colégio.

Os alunos escreveram 22 cartas para seis imigrantes de Congo, Síria, Paquistão e Nigéria. Em inglês, eles contaram sobre as tradições, a cultura e a situação política no Brasil. "Quando receberam as respostas e ficaram sabendo sobre outras culturas, os motivos da vinda dessas pessoas para cá, ficaram ainda mais interessados", conta Maria Cristina.

Troca

Por isso, o colégio organizou uma tarde de oficinas de culinária paquistanesa, dança nigeriana e caligrafia árabe. "Os alunos ao perceberem que eles tinham uma vida difícil e sofrem preconceito no Brasil, quiseram fazer uma recepção calorosa no colégio. Alguns trouxeram paçoca e brigadeiro para que todos pudessem experimentar", diz a coordenadora.

Olawale conversou com os alunos e ensinou a eles um pouco sobre sua cultura, o que foi gratificante. "Na Nigéria, o sistema de ensino é diferente. Lá, eu dava aula de todas as disciplinas para os alunos, ficava muito próximo deles e sinto falta disso. Com esses jovens, pude resgatar um pouco desse trabalho", destaca.

Para Joana Fontana, coordenadora do Abraço Cultural, experiências como essa são importantes para resgatar a autoestima de imigrantes que sofreram em seu país de origem e ainda são alvo de preconceito e vulnerabilidade no Brasil. "Eles passam por situações muito difíceis por aqui. É enriquecedor ver adolescentes curiosos, que valorizam a cultura deles."

A ideia, segundo Joana, é fazer parceria com outros colégios, não apenas para trabalhar o inglês, mas para a "formação cidadã" dos estudantes. "Para que conheçam outras culturas que não sejam as europeias, que entendam e sejam sensíveis aos problemas do mundo."

No Colégio Equipe, em Higienópolis, região central, quatro imigrantes de Congo, Síria e Camarões deram uma palestra aos pais e alunos. "Eles contaram sobre a vida no Brasil e percebemos o quanto é difícil a situação deles. Por isso, queremos fazer um projeto de oficina em que nos ensinem sobre sua cultura. Mas queremos fazer um trabalho que beneficie esses imigrantes. Isso é parte da missão humanista do colégio", afirma Antonio Carlos de Carvalho, professor de Geografia.

Segundo Carvalho, a ideia é apresentar aos alunos a cultura de outros povos e também abordar temas como imigração e globalização e fazer com que reflitam sobre os problemas que outras nações enfrentam.

Já o Colégio Mary Ward, no Tatuapé, zona leste, fez uma gincana no fim do primeiro semestre e arrecadou cobertores e alimentos a serem doados para abrigos da cidade, incluindo os que recebem imigrantes. "Aproveitamos e abordamos o tema com os alunos. Eu sempre explico que o Brasil é um país formado por imigrantes, que os avôs e bisavós dos alunos podem ter passado por situações difíceis de adaptação - como os refugiados enfrentam hoje", diz o professor de História do colégio, Anderson Nogueira.

Segundo ele, além de o tema da imigração fazer parte do currículo de ensino, também é uma oportunidade para a escola debater questões como preconceito e respeito às diferenças. "Eles (alunos) passam a enxergar as diferenças de cultura e identidade de uma maneira muito mais natural, o que leva a um menor número de conflitos em sala de aula. Este também é um papel da escola: formar alunos mais sensíveis e respeitosos."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.