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Crise eleva tensão em áreas de fronteira da Venezuela

José Guerra começa o dia dobrando o pedaço de papelão que é sua cama no terminal rodoviário de Pacaraima, a última cidade de Roraima antes da fronteira com a Venezuela. Durante o processo, não tira os olhos de um caminhão estacionado poucos metros à frente, do outro lado da rua estreita que começa na BR-174 e termina após três quadras. Às 5h20, o venezuelano de Puerto Ordaz espera o motorista da carreta acordar para oferecer seus serviços de carregador.

Por "15 ou 20 reais" a cada veículo atendido, segundo ele próprio, Guerra e outras dezenas de imigrantes trabalham transferindo alimentos que chegam de Boa Vista, Manaus e até cidades mais distantes. Os armazéns lotados vendem os produtos em fardos a venezuelanos que os levam em carros comuns ou pequenos caminhões. A escassez de alimentos no país vizinho movimenta os negócios de dezenas de comerciantes em Pacaraima - açúcar, arroz, farinha de trigo e produtos de higiene são os mais buscados.

O fluxo intenso de venezuelanos preocupa o governo estadual de Roraima e o federal, que nos últimos dias coordenam ações para frear a intensificação de uma crise humana muito maior do que a que afetou o Acre com a chegada maciça de haitianos entre 2012 e 2013. Só em 2016, 1.805 venezuelanos atravessaram a fronteira por Pacaraima e pediram refúgio no Brasil. De 2010 a 2015, este número foi de apenas 1.096.

O número de estrangeiros que entraram ilegalmente pela cidade desde o início do ano, no entanto, é muito maior - estimado pelo governo do Estado em pelo menos 30 mil.

O serviço de ajuda no frete - como o oferecido por Guerra - é o primeiro que os candidatos encontram. Operador de retroescavadeira em sua cidade, Valencia, Jon Noguera, de 30 anos, está há dois meses em Roraima trabalhando com os caminhoneiros. Na Venezuela, perdeu o emprego há cerca de um ano. "Só os que estão com o chavismo conseguem trabalhar. Só os do partido", afirma, referindo-se ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), principal legenda chavista. Noguera e um amigo, também de Valencia, dormem no chão sob a proteção da varanda de um pequeno centro comercial da cidade.

Outros conseguem redes para pendurar, mas precisam deixar o local antes das 6 horas, quando os proprietários das lojas começam a chegar. José Turizo, de 32 anos, se levanta pouco antes desse horário. Apressado, arruma suas coisas, toma um gole de água e tenta, sem sucesso, convencer uma vendedora de arepas - salgado típico venezuelano - a lhe vender fiado. "Ganhamos pouco, não dá para o dia a dia. Não compro café da manhã porque preciso juntar alguma coisa para comprar comida e mandar para a família."

As arepas são feitas em pequenas cozinhas improvisadas, montadas e desmontadas rapidamente nos fundos de lojas ou do próprio centro comercial. Venezuelanas oferecem o produto e copos de café aos carregadores. A prefeitura local não tem números precisos sobre a presença de venezuelanos nas ruas da cidade, mas a situação vem se agravando a tal ponto que o governo de Roraima anunciou a criação de um gabinete de emergência para lidar com a crise. O Executivo federal, por seu lado, também marcou para amanhã uma reunião sobre o assunto e enviará uma missão a Pacaraima.

Há um mês e meio na cidade, Turizo pensa em sair e tentar a sorte em Boa Vista ou Manaus. Na capital de Roraima, no entanto, as chances são pequenas. Muitos venezuelanos já estão empregados e a maioria dos que chega, hoje em dia, acaba em semáforos se oferecendo para limpar para-brisas, fazendo malabarismo ou vendendo morangos que recebem de empregadores informais. Numa semana boa, Turizo consegue juntar cerca de 10 mil bolívares (cerca de R$ 40 pelo câmbio informal estabelecido pelo comércio local). Um quilo de arroz em Pacaraima é vendido por cerca de mil bolívares - ou R$ 4.

Pouco depois das 6h30, Martín Salcedo, de 29 anos, chega ao balcão da Padaria Mercosul, em uma das principais ruas de Pacaraima, para um café. Não tem dinheiro para pagar, mas consegue que um amigo empreste os R$ 3,50 cobrados pelo estabelecimento pela bebida e por um pão com manteiga na chapa. Nascido em Caracas, ele atravessou a fronteira há dois meses e não voltou mais. "O salário mínimo (na Venezuela) é de 16 mil bolívares. O quilo de arroz está custando 4 mil. O que se faz com um salário mínimo? Não se vive. Maduro tem comida, nós, não."

Empregos mais estáveis em Pacaraima são raros para os que chegam agora. Muitos venezuelanos já trabalham nos armazéns, lojas, borracharias, oficinas mecânicas e farmácias que oferecem produtos e serviços escassos do outro lado da divisa. Com o mercado de trabalho formal e o informal já saturado, as vantagens de atravessar para o Brasil vêm diminuindo, conta Salcedo. "Conheço gente que está aqui há seis meses e quando chegou descarregava duas ou três carretas por dia. Hoje, quando conseguimos uma já estamos bem."

Após mais de uma hora e meia esperando pelo caminhão ao lado da rodoviária, José Guerra ouve do motorista que a carga não deve deixar a carroceria tão cedo. Há uma "diferença de valor" entre o combinado com o atravessador do frete e o que pretende pagar o dono do armazém. "Esse arroz só desce do caminhão quando acertar o pagamento", grita o caminhoneiro. Guerra se afasta, coloca sua cama de papelão sob o braço e vai procurar outra carga pelas ruas para tentar trabalhar.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.