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Delator acusa secretário de Haddad em CPI do teatro

Em depoimento secreto a vereadores da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura desvios no Teatro Municipal de São Paulo, o ex-diretor da Fundação Teatro Municipal José Luiz Herência acusou o secretário de Comunicação da gestão Fernando Haddad (PT), Nunzio Briguglio Filho, de ordenar contratação e pagamentos a serviços que não foram prestados e que somariam R$ 1,5 milhão. Herência também acusou o maestro John Neschling de intermediar contratos de sua empresa com a instituição.

Briguglio negou as acusações e se colocou à disposição da CPI, que ontem confirmou sua convocação para depoimento. O maestro também deve comparecer à comissão. A Prefeitura tornou público ontem um relatório da Controladoria-Geral do Município com resultados da primeira auditoria feita no Municipal, que encontrou irregularidades em contratos na gestão Herência, entre 2013 e 2015, da ordem de R$ 15 milhões.

O depoimento do ex-diretor foi dado a portas fechadas aos vereadores. O Estado confirmou o teor da oitiva com três pessoas que participaram da sessão, ocorrida entre 10 horas e 15 horas de ontem, na Câmara.

Herência afirmou que Briguglio teria "ordenado" que ele contratasse um produtor de vídeos para a produção de cinco peças publicitárias do Municipal, ao custo de R$ 500 mil, mas que o material jamais teria sido entregue. A contratação teria ocorrido em 2014.

Em uma segunda acusação, o ex-diretor afirmou que o secretário de Comunicação teria contratado uma empresa de Montecarlo, na Europa, para a realização de uma série de concertos naquele continente, mas que a produção também não foi adiante, mesmo após o pagamento.

Ele mostrou aos vereadores uma carta assinada por Briguglio, escrita em espanhol e datada de julho de 2014, em que confirmava o interesse da Prefeitura em realizar seu projeto na Europa e que iria garantir os recursos. O teatro terminou contratando a empresa e fez um pagamento de R$ 150 mil, mas a execução está suspensa diante da intervenção na entidade feita pela gestão Haddad.

Briguglio confirmou a disposição em realizar o projeto, que consistia em dez apresentações de óperas brasileiras na Europa antes da Olimpíada. "Mas o projeto nunca foi apresentado. Por isso, não o contratamos", disse. Depois, o Municipal fechou com a empresa europeia.

Relatório

O relatório produzido pela Controladoria-Geral do Município, de 77 páginas, aponta uma série de irregularidades na gestão do Municipal por Herência. As falhas seriam de responsabilidade da Organização Social Instituto Brasileiro de Gestão da Cultura (IBGC), que tinha contrato de gestão com o teatro, e era presidido por William Naked, que também foi ouvido pelos vereadores na quarta-feira, 29.

Segundo a controladoria, haveria irregularidades na contratação de 17 fornecedores. "Havia até três contratos para fornecimento de um mesmo serviço, sete empresas que tinham um mesmo endereço ou um mesmo contador", escreveu o controlador-geral do Município, Gustavo Gallardo. "Mesmo que os contratos tivessem sido executados, se houvesse comprovação, ainda assim haveria indícios de direcionamento."

A auditoria revelou ainda transferências sem justificativa em recursos do IBGC para outra organização social de Naked. O alvo da investigação interna foram contratos cuja execução não pôde ser comprovada.

Segundo a controladoria, os vídeos para peças publicitárias citados por Herência à CPI foram feitos. Por isso, segundo o interventor do Municipal, Pedro Dallari, o relatório não cita esse contrato. A contração da empresa que fez os vídeos - cujo proprietário é Toni Venturi, que seria amigo de Briguglio - passou por processo de licitação com participação de outras três concorrentes.

Já o contrato com a empresa de Montecarlo também ficou fora do relatório porque o acordo está suspenso.

O advogado do maestro Neschling, Eduardo Pizarro Carnelós, negou as acusações feitas pelo ex-diretor. A CPI busca, agora, estabelecer ligações do prefeito com Neschling, a partir de informações dadas por Herência de viagens de Haddad ao sítio do maestro, no interior.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.