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El Niño se torna um desastre humanitário e afeta 60 milhões

Os fenômenos climáticos causados pelo El Niño deixam 60 milhões de pessoas em situação de profunda vulnerabilidade e sem alimentos. Com secas, inundações e eventos climáticos extremos, o El Niño neste ano é considerado pelas entidades internacionais como uma real ameaça a décadas de progressos em países na luta pelo desenvolvimento.

O alerta foi feita pela Organização das Nações Unidas (ONU) que, nesta segunda-feira, 25, convocou uma reunião de emergência para buscar apoio a essa população afetada. Para a entidade, o fenômeno já se transformou em um desastre humanitário e deve se intensificar ainda mais entre o final de 2016 e o início de 2017. "Tememos que o pior ainda está por vir", indicou o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês).

Em 2016, cientistas acreditam que estejam presenciando o ciclo mais forte do El Niño, um fenômeno que envolve o aquecimento acima do normal nas águas do Oceano Pacífico, com impactos em todo o planeta.

No total, a ONU estima que vá precisar de US$ 3,2 bilhões para evitar a morte de milhares de pessoas. Mas, apesar de negociar a ajuda com governos, a entidade admitiu nesta segunda-feira que ainda tem um buraco em suas contas de mais de US$ 2,2 bilhões.

Um dos locais mais atingidos foi a Etiópia. No país, a seca é a pior em 50 anos e já deixou 10 milhões de pessoas em situação crítica, exigindo a ONU investimentos de US$ 570 milhões para distribuir alimentos. Uma situação parecida também foi registrada no Lesoto, onde a população passou a receber ajuda. No total, 32 milhões de pessoas ainda estão sendo afetadas no sul da África por causa da falta de alimentos.

No Haiti, o El Niño está agravando a fome. A colheita foi reduzida em 50% diante do impacto climática. A ONU pede à comunidade internacional cerca de US$ 105 milhões para lidar com a nova onda de fome. Mas, até agora, só conseguiu arrecadar 10% dos recursos necessários.

O subsecretário da ONU para Assuntos Humanitários, Stephan O'Brian, admitiu até mesmo que a crise causada pelo El Niño pode afetar os sinais de estabilização social e política no país mais pobre do Ocidente. "Onde existe falta de recursos, existem condições para a instabilidade e o movimento de pessoas", alertou.

Segundo ele, vários outros países latino-americanos também sofrem com o El Niño e com a falta de recursos internacionais. "O efeito tem sido extremamente severo", indicou. "Para Guatemala, precisamos de US$ 57 milhões, mas só temos 13% dos recursos. Em Honduras, temos apenas 22% dos US$ 44 milhões necessários", indicou.

A ONU colocou 23 países em uma lista de locais mais atingidos pelo El Niño. Desses, 13 terão uma atenção especial. "Trata-se de um grande desastre", disse Stephan O'Brian. "O problema é que temos um buraco enorme em termos de recursos e precisamos garantir remédios, sementes e alimentos a milhões de pessoas", disse. "O silêncio precisa acabar. Ele está causando mortes", insistiu.

Quem também faz o alerta é o Programa da ONU para o Desenvolvimento, que já adiantou que, depois do El Niño, esses mesmos países terão de estar preparados para o fenômeno do La Niña.

Para Wolfgang Jamann, presidente de uma das maiores organizações não governamentais do mundo, a Care, as mudanças climáticas farão com que o os fenômenos extremos fiquem cada vez mais frequentes. "A vida vai ficar mais difícil para os mais pobres", constatou.