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Lotado, hospital terceirizado atende menos na capital paulista

Mesmo com salas de espera lotadas, hospitais estaduais de administração terceirizada reduziram o número de atendimentos de urgência feitos nos primeiros quatro meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, conforme dados publicados no Diário Oficial do Estado.

Levantamento feito pela reportagem nos relatórios de produção dos cinco hospitais estaduais da capital geridos por Organizações Sociais da Saúde (OSS) mostra que eles atenderam 62 mil pessoas a menos no período analisado. A maior queda aconteceu no Hospital Geral do Grajaú, na zona sul da capital, administrado pelo Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês. Se comparados os primeiros quadrimestres de 2015 e de 2016, o número de atendimentos de urgência caiu de 108,6 mil para 61,5 mil, 43,4% a menos.

Segundo pacientes, nos últimos meses o centro médico passou a restringir os atendimentos do pronto-socorro a casos graves. A regra faz com que alguns pacientes com quadros menos complexos sejam recusados na triagem e orientados a procurar uma Assistência Médica Ambulatorial (AMA).

Foi o caso da dona de casa Ariana Braga Ramos, de 24 anos, que procurou a unidade na sexta-feira, 29, com uma crise de hemorroida. Ao passar pela triagem, foi informada que não poderia ser atendida por um médico porque seu caso não era uma emergência. "Disseram que era para procurarmos uma AMA, mas não aceitamos porque outro dia trouxemos nosso filho aqui, nos mandaram para a AMA e lá não tinha médico. Desta vez, não aceitei e briguei para nos atenderem", afirma o pedagogo Antonio Eduardo Moreira da Silva, de 33 anos, marido de Ariana.

Após brigar para ser atendida, a dona de casa passou pelo clínico e descobriu que vai precisar se submeter a uma cirurgia.

Outras unidades

Também registraram queda nos atendimentos de urgência os Hospitais da Pedreira, na zona sul, do Itaim Paulista, da Vila Alpina e de Sapopemba, todos na zona leste. No de Pedreira, administrado pela SPDM, o número de pacientes atendidos no pronto-socorro caiu de 97,9 mil para 91,2 mil no período analisado. As salas de espera lotadas, no entanto, mostram que a demanda continua alta. Na sexta-feira, um visor na entrada do pronto-socorro mostrava que a espera média por atendimento era estimada em quatro horas.

Foi o tempo que teve de esperar o estudante Jonatan Bertunes, de 18 anos, que chegou à unidade às 12h45, mas só conseguiu passar por um clínico por volta das 17 horas. "Ele estava com tosse com sangue, mas deram a classificação menos grave para ele e precisamos esperar todo esse tempo", diz a educadora Elizângela Bertunes, de 34 anos, tia do rapaz.

Mesmo casos classificados como mais graves não eram atendidos imediatamente. Um idoso de 86 anos, que chegou de ambulância encaminhado por um posto de saúde da região, esperou mais de uma hora para passar por um médico. Ele estava com falta de ar e vômito, e a suspeita era de uma pneumonia. "Tive de ir lá na sala das enfermeiras três vezes para falar que o caso era grave, só depois ele foi atendido", diz uma familiar do paciente, que não quis ter o nome revelado.

Queda na demanda

Questionada sobre a queda nos atendimentos de urgência, a Secretaria Estadual da Saúde informou que houve queda na demanda. De acordo com a pasta, a alta procura no primeiro quadrimestre do ano passado se deve à pior epidemia de dengue que o Estado já viveu. "A incidência da doença foi recorde em São Paulo, com consequente aumento da demanda nos prontos-socorros dos hospitais estaduais. Neste ano, até junho, o número de casos de dengue caiu 78,8% no Estado, com consequente diminuição da procura nos PSs", afirmou a secretaria, em nota.

O levantamento feito pela reportagem, no entanto, mostra que o número de atendimentos do primeiro quadrimestre de 2016 também é menor do que o registrado nos quatro primeiros meses de 2014, quando a epidemia de dengue não foi tão grande quanto à do ano passado. Comparados os dois períodos, foram cerca de 47 mil atendimentos a menos.

Com relação ao Hospital do Grajaú, a secretaria afirma que houve uma reorganização regional do atendimento de saúde para que o pronto-socorro "pudesse cumprir a sua real vocação, que é atender casos graves e gravíssimos". Disse que a paciente Ariana "passou pela classificação de risco às 14h21 da última sexta-feira e foi prontamente atendida às 14h30". A pasta disse ainda que o hospital aumentou em 80,9% o número de cirurgias eletivas entre 2015 e 2016.

Sobre o Hospital de Pedreira, a secretaria negou que pacientes esperem quatro horas por atendimento, embora o visor na unidade mostrasse esse tempo. Segundo a pasta, "esse pode ser o intervalo entre a triagem e a realização dos procedimentos, conforme a urgência, como exames, medicação e reavaliação clínica". A secretaria informou ainda que não faltam médicos em nenhum dos hospitais estaduais citados. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.