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Macacos-prego põem em xeque teoria sobre ferramentas da Idade da Pedra

Foto: Divulgação  - Macacos-prego põem em xeque teoria sobre ferramentas da Idade da Pedra
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No Nordeste do Brasil, macacos-prego foram observados pela primeira vez quebrando pedras e produzindo, inadvertidamente, lascas com características semelhantes às das ferramentas utilizadas por hominídeos da Idade da Pedra.

A descoberta foi feita no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, por um grupo internacional de cientistas, com participação brasileira, e publicada nesta quarta-feira, 19, na revista Nature.

Segundo os autores do artigo, o achado deverá fazer com que os especialistas tenham de revisar seus critérios para identificar ferramentas de pedra lascada produzidas intencionalmente por hominídeos.

Os hominídeos que deram origem aos humanos utilizavam ferramentas de pedra lascada, que muitas vezes são o único vestígio de sua presença em um sítio arqueológico, segundo os autores. Para diferenciá-las das pedras fragmentadas naturalmente, os cientistas estudam características únicas dessas pedras lascadas, como as bordas afiadas e cortantes.

As lascas produzidas pelo macaco-prego, no entanto, têm as mesmas características das ferramentas que os hominídeos usavam para cortar e raspar objetos. A única diferença, segundo os autores, é que os macacos não as produzem intencionalmente: eles parecem quebrar as pedras por alguma outra razão e não se interessam pelas lascas.

O comportamento dos macacos foi observado e filmado: eles escolhem uma pedra e a martelam vigorosamente, repetidas vezes, contra uma rocha maior. As pedras menores eventualmente são fraturadas e, de tempos em tempos, os animais lambem o local martelado na pedra maior.

De acordo com um dos autores do artigo, o primatólogo Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), ainda não se sabe qual é a intenção do macaco-prego ao bater as pedras, mas as lascas produzidas têm fraturas conchoidais (em forma de concha), que são típicas das ferramentas da Idade da Pedra.

"A finalidade deles ainda é nebulosa. A percussão das pedras pode ter a intenção de produzir apenas barulho. É possível também que eles busquem algum nutriente, já que eles se interessam pelo pó produzido pelas batidas na pedra fraturada. Analisamos esse pó e só encontramos sílica e quartzo - mas é polêmico se a ingestão disso serve para algo", disse Ottoni à reportagem.

"Ao analisar pedras utilizadas pelos macacos, concluímos que o comportamento de bater as pedras é intencional, mas não o seu produto, que são as lascas semelhantes a ferramentas. Eles produzem lascas conchoidais involuntariamente", afirmou Ottoni.

Segundo ele, três espécies de macacos utilizam ferramentas de pedra para quebrar cocos, nozes e frutas: o macaco-prego, o chimpanzé e o macaco fascicularis, do sudeste asiático. Mas só o macaco-prego da Serra da Capivara foi observado utilizando as pedras com o propósito de fraturá-las e não de quebrar algum outro objeto.

Em julho, o grupo liderado pelo pesquisador participou de um estudo, publicado na revista Current Biology, que indicou que os macacos-prego da Serra da Capivara já usavam ferramentas de pedra há pelo menos 700 anos.

O uso de lascas cortantes, no entanto, já é uma tecnologia mais avançada, atribuída a primatas em estágios mais avançados da evolução. Embora tenham produzido essas lascas afiadas, os macacos-prego não parecem capazes de utilizá-las para as tarefas atribuídas aos hominídeos.

"Para os arqueólogos, as lascas conchoidais eram uma evidência de ação proposital humana, mas vimos agora que elas podem ser um mero acidente produzido por macacos. Algumas evidências mais arcaicas de presença de hominídeos terão que ser cuidadosamente reexaminadas", disse Ottoni.

Mais plausível

Embora a descoberta crie novos problemas para os arqueólogos, ela é positiva do ponto de vista dos primatólogos, segundo Ottoni. Ele afirma que, embora muitas lâminas de pedra possam ter sido produzidas casualmente por macacos, é possível que essa maior presença de lascas tenha aumentado as probabilidades de que hominídeos tenham descoberto seu potencial para novas tarefas como cortar e raspar.

"Eu jamais havia pensado que esse estudo complicaria o trabalho dos arqueólogos, mas da nossa perspectiva de primatologistas, podemos contar uma história mais parcimoniosa sobre a evolução da cognição tecnológica. É plausível que os hominídeos tenham até mesmo utilizado ferramentas de pedra produzidas sem intenção pelos macacos", explicou.

De acordo com outro dos autores do estudo, Tomos Proffitt, da Escola de Arqueologia da Universidade de Oxford (Reino Unido), as conclusões do estudo realmente geram novas questões para os arqueólogos, mas não significam que as primeiras ferramentas de pedra - produzidas há mais de 3 milhões de anos e encontradas no leste da África - não tenham sido feitas por hominídeos.

"Por outro lado, as conclusões levantam interessantes questões sobre as possíveis maneiras como as tecnologias de ferramentas de pedra evoluíram antes dos primeiros registros de ferramentas produzidas por hominídeos", disse Proffitt.

Complexidade cerebral

Segundo o arqueólogo britânico, o novo estudo também levanta importantes questões sobre comportamentos que eram considerados exclusivos dos primeiros hominídeos. "Essa descoberta contradiz a ideia, aceita até agora pela ciência, de que é preciso uma complexidade cerebral e um nível cognitivo mínimo para produzir lascas conchoidais", declarou.

Outro dos autores do novo estudo, Michael Haslam, diretor de Arqueologia de Primatas da Universidade de Oxford, afirma que compreender as novas tecnologias adotadas pelos primeiros ancestrais do Homo sapiens é fundamental para entender a evolução humana.

"O surgimento de ferramentas de pedra afiadas produzidas para criar um aparato de corte é uma grande parte dessa história. O fato de descobrirmos que macacos podem produzir os mesmos resultados frustra um pouco a maneira como pensamos no comportamento evolutivo e a quem atribuímos esses artefatos. Mas, se os humanos não são os únicos a produzir essa tecnologia, a maneira como eles a empregam é ainda muito distinta daquela que os macacos são capazes de fazer", afirmou Haslam.