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Moradores de rua montam favelas na Av. Cruzeiro do Sul

A cada cem metros, uma família. Sob o elevado da Avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte de São Paulo, dezenas de moradores de rua montaram barracas, armaram tendas e espalharam colchões, em uma espécie de "favela em linha reta" que vai do Terminal Rodoviário do Tietê até a Estação Santana, do Metrô. Segundo comerciantes da região, o número de pessoas ali vem crescendo, especialmente após o decreto do prefeito Fernando Haddad (PT), em junho, que proibiu a retirada de pertences de moradores de rua.

Com cerca de 3,5 quilômetros, a Cruzeiro do Sul tinha 32 locais ocupados por moradores de rua na tarde de quinta-feira, 26. Para se alojar, eles usam barracas de acampamento, carrinhos de supermercado e colchões, que são alocados entre as duas pistas da ciclovia. "Todo dia aumenta. Agora, é condomínio fechado, com 'Base 1', 'Base 2' e 'Base 3'", afirma Edson Félix, de 55 anos, que há quatro tem uma pastelaria na avenida.

As "bases" são os pontos com maior concentração de barracas, próximo das Estações Portuguesa-Tietê, Carandiru e Santana do Metrô. Nesta última, uma onda de agressões, roubo e furtos, envolvendo moradores de rua e travestis tem assustado lojistas, funcionários e usuários do transporte.

De acordo com Félix, sempre houve moradores de rua na região, mas o número "aumentou muito" recentemente. "Olhando assim, a impressão é de que a quantidade triplicou", diz o comerciante, que passou a fechar o estabelecimento às 17h30 - 1h30 mais cedo do que o habitual. "Quando escurece é perigoso, não convém arriscar."

O mecânico José Carlos Vitalino, de 42 anos, também afirma que há problemas de segurança. "Outro dia, houve uma briga na frente da oficina, foi tijolada para todo lado", diz. "É comum ter assalto à noite. Quem precisa passar a pé sofre."

Em nota, a Prefeitura afirma que o decreto proibindo a retirada de itens de moradores de rua foi elaborado em parceria com a Defensoria Pública de São Paulo e teve apoio do Comitê PopRua, voltado para populações de rua. "As ações de zeladoria serão intensificadas gradativamente", informa.

Também segundo a administração municipal, assistentes sociais atuam diariamente na região, encaminhando moradores para centros de acolhida. A escolha de ir, no entanto, depende da pessoa atendida.

Família

Apesar de carregar um alvará de soltura no bolso, após ser detida por arremessar uma pedra em uma vidraça da Estação Santana, no fim de semana, Érica Morais diz que a região "não está perigosa nem tem confusão". "Até porque, se alguém vier meter a mão, eu pego o facão que tem embaixo da barraca para me defender."

Aos 18 anos, Érica mora há dois anos na Cruzeiro do Sul, onde hoje divide uma barraca com o namorado e dois filhos. As crianças, de 3 e 4 anos, não estudam. Érica nunca trabalhou. "Querem que a gente saia da calçada, mas ninguém arruma uma coisa melhor. Até parece que alguém gosta de morar na rua", diz. Segundo conta, vive de doações de moradores. "Não tenho casa nem família."

Para fazer higiene, Érica recorre principalmente a banheiros de bares. Ao contrário de outros moradores de rua, ela evita usar os toaletes do Metrô Santana. "Os meninos descem lá para espancar os gays, porque não gostam do que veem."

Banheiro

O que os "meninos" não gostam de ver é uma suposta prostituição de travestis que, segundo lojistas e funcionários, acontece no banheiro masculino da estação. As agressões são confirmadas pelos próprios moradores de rua. "É a maior safadeza. É lógico que a gente tem de se envolver, senão vira bagunça", diz M.S., de 24 anos, que mora na Cruzeiro do Sul.

Um funcionário do serviço de limpeza contou ao jornal O Estado de S. Paulo que a prostituição começa assim que o Metrô abre. "As travestis ficam no box, esperando. A gente não pode falar nada, porque é ameaçado", diz. Segundo ele, é comum recolher vestígios de crack e cocaína no banheiro.

"A gente se sente muito inseguro, mas não tem a quem recorrer", diz a vendedora Marigleide Soares, de 42 anos, que trabalha na estação. "Quase todo dia entra um cliente dizendo que foi assaltado no banheiro."

Em nota, o Metrô nega problemas de segurança. Segundo a companhia, os sanitários contam com funcionários da limpeza o tempo inteiro. A nota também diz que em "qualquer anormalidade" os agentes de segurança são acionados para, "prontamente", adotarem as providências. Já a Secretaria da Segurança Pública diz que apoia a segurança do Metrô e a polícia intensificará as diligências no local para coibir casos de agressão e uso de drogas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.