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Neschling depõe na CPI sem assinar termo de compromisso com a verdade

O diretor artístico do Teatro Municipal, maestro John Neschling, depôs na manhã desta quarta-feira, 17, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Câmara Municipal para investigar irregularidades na gestão da casa. O depoimento atrasou quase 40 minutos em função da negativa pelo músico de assinar um documento no qual se comprometeria a falar a verdade.

Neschling é acusado pelo ex-diretor da Fundação Teatro Municipal de São Paulo José Luiz Herencia, réu confesso no desvio de recursos públicos, de participar dos crimes.

O advogado de Neschling, Eduardo Carnelós, justificou que o termo apresentado pelos vereadores não tinha respaldo legal e ressaltou que seu cliente falaria toda a verdade, já que é vítima no processo.

Já durante o depoimento, o músico afirmou nunca ter participado do esquema de corrupção que teria desviado ao menos R$ 15 milhões dos cofres públicos. Durante a sessão desta quarta-feira, o maestro ressaltou que foi ele quem denunciou as irregularidades ao prefeito Fernando Haddad (PT), em 2015, e que foi inocentado pelo relatório final da Controladoria-Geral do Município (CGM).

Ao longo de mais de três horas, Neschling explicou aos parlamentares suas funções como contratado do Instituto Brasileiro de Gestão Cultural (IBGC), organização social (OS) responsável pela gestão do teatro.

Negou que acumulasse a função de diretor artístico do IBGC e da fundação, apesar de não saber dizer o nome do dono desse último cargo - Daniela Avelar. Em seguida, classificou o IBGC como a "OS laranja da fundação", termo depois corrigido pelo músico. "Talvez tenha me expressado mal com a palavra laranja. Só queria dizer que o modelo não funciona, que é preciso rever."

O músico defendeu o modelo da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), que é uma organização privada de direito público.

Contratado pela organização que classificou como "laranja", Neschling recebe por 12 meses de trabalho para o teatro, mas passa, de acordo com ele, cerca de três meses por ano fora do País.

O maestro afirmou que essa temporada no exterior favorece uma troca de experiências profissionais que favorecem seu trabalho aqui, à frente do teatro.

Para o presidente da CPI, Quito Formiga (PSDB), o músico terá de explicar melhor quem é laranja de quem. "Ele tem de dizer quem são os beneficiários. A fala dele é surpreendente", afirmou o tucano.

Saída

Mantido no cargo pelo prefeito durante o processo de investigação em curso no Ministério Público Estadual (MPE) - o maestro teve o sigilo eletrônico quebrado recentemente pela Justiça -, Neschling anunciou nesta terça-feira, 16, que vai deixar o posto ao fim de seu atual contrato, no início de 2017. "Já avisei que não ficarei, seja Haddad reeleito ou não."

Amizade com Haddad

Neschling também comentou sua relação de amizade com Haddad, sobre a qual disse ter orgulho. O músico afirmou que recorreu ao prefeito quando soube que cachês a artistas contratados para apresentações pontuais não estavam sendo pagos. Antes desse fato, ocorrido em setembro de 2015, as conversas entre os dois limitavam se à parte artística do teatro.

"Aos 70 anos, com a minha carreira e o meu salário, para que iria me envolver em falcatruas?", indagou o maestro. "Quando tive conhecimento de que artistas não estavam recebendo, pedi para ver as contas da fundação. Herencia e (William) Naked não me permitiram, então avisei ao prefeito e ao então secretário municipal de Cultura, Nabil Banduki, das minhas suspeitas."

Relator da CPI, Alfredinho (PT) afirmou que representantes da oposição ao prefeito Haddad tentam envolver o maestro no escândalo a fim de prejudicar o governo.