20°
Máx
14°
Min

Nova reitora da PUC-SP quer 'recuperar o vanguardismo' da universidade

A psicóloga Maria Amalia Pie Abib Andery, de 63 anos, é a nova reitora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mais votada no processo de consulta à comunidade interna da instituição realizado em junho - venceu entre professores e alunos e teve votação expressiva entre funcionários -, ela foi a escolhida pelo cardeal arcebispo d. Odilo Pedro Scherer, presidente da Fundação São Paulo e grão-chanceler da universidade, e pela Congregação para a Educação Católica do Vaticano. A informação foi divulgada na manhã da segunda-feira, 5.

Depois da polêmica nomeação da sua predecessora, a atual reitora Anna Maria Marques Cintra, em 2012, havia uma expectativa se Maria Amalia, eleita em junho, teria seu nome referendado pelo cardeal arcebispo. Há quatro anos, Scherer escolheu Anna Maria - apesar de ela ter ficado em terceiro lugar no pleito. Desta vez, entretanto, conforme fontes ouvidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, pesaram a favor da eleita dois fatores: o atual equilíbrio financeiro da instituição e uma certa continuidade da gestão, já que ela é pró-reitora de pós-graduação da atual gestão.

Maria Amalia graduou-se em Psicologia pela PUC-SP, fez mestrado na Universidade de Manitoba (Canadá), doutorado na PUC-SP e estágio pós-doutoral na Universidade do Norte do Texas (EUA), todos em Psicologia. Entrou na PUC-SP em 1978 como auxiliar de ensino de Metodologia Científica do Ciclo Básico. Tornou-se assistente mestre em 1983, assistente doutor em 1990, professora associada em 1996 e professora titular em 2002.

Obras

No ano em que completa 70 anos de fundação, a PUC-SP está em obras. Graças a empréstimos de R$ 27 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já foram implementados novos elevadores e melhorias elétricas no câmpus Monte Alegre, acessibilidade no Marquês de Paranaguá, revisão nos telhados de Ipiranga e Santana, além da criação de 16 novos leitos - somando-se aos 130 já existentes - no Hospital Santa Lucinda, gerido pela PUC em Sorocaba.

Estão previstas ainda a instalação de 24 salas de aula inteligentes, equipadas com lousa digital, reforma de auditórios e renovação de equipamentos de informática.

Em 2017, haverá uma segunda fase de obras - com projeto ainda em discussão internamente.

Maria Amalia assume em novembro, em data ainda a ser definida. "Serão anos de muito trabalho. Mas estou confiante de que conseguiremos fazer coisas boas e atualizar o desempenho acadêmico da universidade", afirmou ela, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Depois de uma grave crise financeira que viveu a PUC nos últimos anos, Maria Amalia assume a instituição de 70 anos justamente após a publicação do primeiro balanço positivo desde os anos 1980. Confira entrevista abaixo.

A senhora assume a universidade após o primeiro balanço financeiro positivo em décadas. Quais os desafios de sua gestão?

Meu primeiro desafio - e foi nisso que insisti durante a campanha - é retomar o desempenho acadêmico, atualizar o desempenho acadêmico da PUC. Nossa universidade tem uma longa tradição, especialmente nas Ciências Humanas, e é conhecida pela qualidade do ensino. Precisamos que a universidade retome seu impulso tanto na formação dos graduandos como nas pesquisas, na pós-graduação. Agora que a instituição está equilibrada financeiramente, é preciso voltar a crescer academicamente. A PUC precisa assumir de fato o que tradicionalmente se reconhece como qualidade acadêmica. E recuperar o vanguardismo que a universidade sempre teve: social, político, cultural e acadêmico-científico.

Como estão as obras de melhorias, anunciadas no início do ano?

Estou assumindo agora e vou tomar conhecimento disso. Acompanhei no início as ideias e acredito que esse investimento do BNDES está viabilizando a requalificação da estrutura física da universidade. E são recursos muito bem aplicados pelo Estado brasileiro: a PUC é uma boa pagadora e é prestadora de serviço público importante.

Em 2012, houve uma polêmica com relação à nomeação sua predecessora, a atual reitora Anna Cintra (que ficou em terceiro na votação mas acabou nomeada pelo cardeal). Qual sua relação com d. Odilo Pedro Scherer?

Sempre entendi como direito do cardeal a escolha daquele que para ele seria o melhor nome da lista tríplice, por isso, inclusive, participei da gestão da Anna Cintra. Naquela ocasião, a escolha dele foi importante por razões conjunturais. Por outro lado, sempre acreditei que a tendência do cardeal, historicamente, é respeitar a decisão da comunidade. O ocorrido em 2012 foi uma exceção. No início da atual campanha, eu acreditava que desta vez o mais votado seria o escolhido. A universidade está em outras condições, os candidatos também estão em outras condições. Os três candidatos tinham plenas condições de assumir a reitoria. Fiquei muito contente por ter sido eleita pela comunidade, isso é muito importante na vida universitária. Iniciar uma gestão sendo apoiada pelo cardeal de um lado e pela comunidade de outro é importante para que sejamos bem-sucedidos.

E como a senhora avalia a interferência da Igreja em temas acadêmicos? No ano passado houve o episódio da cátedra Foucault… (A universidade esteve no centro de uma polêmica por conta de uma instância que seria criada, destinada a fomentar o debate em torno do filósofo Michel Foucault (1926-1984), conhecido por suas críticas às instituições sociais, entre elas a Igreja Católica.)

Toda a universidade foi favorável à cátedra mas há, na regulação interna, o entendimento de que a decisão final teria de ser endossada pelo conselho superior da Fundação São Paulo - que decidiu pela não aprovação. Entretanto, nós fizemos um pedido de reconsideração. Ainda tenho esperança de reverter essa decisão. A questão das cátedras é uma questão acadêmica e, historicamente, a Igreja, o cardeal e os conselhos superiores sempre mantiveram a liberdade acadêmica da universidade. Vamos insistir pela reconsideração. Trata-se de definir que a universidade tenha um grupo de estudos importante.

No plano de desenvolvimento institucional publicado no ano passado, a PUC prevê o fechamento de 1,3 mil vagas de graduação até 2019. Em sua opinião, o que deve ser fechado? O que não pode ser fechado?

Ainda precisamos sentar e conversar sobre isso. A meu ver, a universidade precisa diversificar o que oferece em termos de curso. Temos alguns cursos que vêm oferecendo um número de vagas muito superior ao que a gente consegue preencher. Nesses casos é preciso analisar e descobrir quais são as reais variáveis dessa baixa procura e ajustar. Ao mesmo tempo, precisamos criar novas modalidades, mudar a nossa oferta. A PUC tem cursos tradicionais importantíssimos que sempre devemos manter, mas, ao mesmo tempo, a universidade precisa buscar inovar, valorizando o que tem e criando alternativas amplas. Costumo dizer que a vida acadêmica é um milagre: os professores ficando sempre um ano mais velhos, mas os alunos sempre com a mesma idade. Os anseios da juventude vão mudando, temos de equilibrar o que é importante no mundo com as mudanças conjunturais.

Mas cursos serão fechados?

Não necessariamente. Talvez consigamos adequar o projeto pedagógico dos cursos com baixa procura, oferecendo o mesmo com parte do currículo compartilhado com outras áreas por exemplo. Tudo tem de ser estudado.