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“O policial brasileiro é o mais criativo. Com estrutura, seríamos a melhor polícia do mundo”

“O policial brasileiro é o mais criativo. Com estrutura, seríamos a melhor polícia do mundo”

Marcos Do Val - 45 anos, instrutor da SWAT e consultor de segurança

O ex-militar capixaba Marcos Do Val, 45 anos, pode-se dizer um homem do mundo. Ora está morando no Espírito Santo (ES), ora em Dallas, cidade do Texas (EUA). Quando o assunto é segurança pública, os limites geográficos não existem e, muito menos, o empenho de mostrar o trabalho como consultor e instrutor de imobilizações táticas para os grupos policiais daqui ou do exterior. Desde 2000, é instrutor de uma das polícias mais especializadas em operações especiais e de grande risco como é a SWAT, nos Estados Unidos. Essa experiência o levou a participar da Guarda Suíça, responsável pela Cidade do Vaticano; e do grupo antiterrorismo da equipe de Operações Especiais da Nasa, entre outros. Ele brinca com a sua baixa estatura, de 1,70 m, situação que chegou a causar constrangimentos e dúvida quanto a sua capacidade, mas admite que a criatividade do brasileiro – mesmo diante de pouca estrutura e investimento – é o diferencial da polícia do Brasil. Acompanhe a entrevista que foi feita no início deste mês, quando esteve em Curitiba para ministrar um de seus cursos.

Como surgiu o interesse de desenvolver um curso de segurança e difundir as técnicas para o mundo?

O interesse surgiu em 1999, durante uma operação policial no ES. Percebi que a polícia militar que estava atuando naquele caso estava com dificuldades de conter um dos suspeitos. Durante a fuga, o homem acabou sendo baleado pelo policial. Eu vi que não era o desejo dele de matar.

“Ver a cena, pela primeira vez, de alguém matando e de outro morrendo me levou a estudar o problema. O que fazer para isso não acontecer?”

Resolvi colocar em prática técnicas de mobilização que já conhecia, adaptando o que era de melhor em cada uma delas. Até receber o convite de um policial americano, que estava no Brasil, para conhecer a SWAT e dar o treinamento.

Como brasileiro, você sofreu algum tipo de preconceito?

Sim (sorri). Conheci a SWAT em 2000 e ao verem minha estatura de 1,70 m, eles (os policiais) acharam que eu não tinha nada a ensinar. No entanto, iniciei meus trabalhos com cursos intensos – de 24 horas ininterruptas – e a situação mudou. Chegaram a me pedir desculpas.

Depois do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 muita coisa mudou na cultura americana. A polícia sentiu a necessidade de se abrir para o mundo e conhecer novas técnicas. Por 16 anos, atuei como instrutor da Associação da SWAT como único estrangeiro. Destes, cinco anos trabalhei como policial especial no Texas.

E o que mais chama atenção para os grupos policiais que o contratam, no exterior?

O que é mais peculiar no brasileiro é o grande poder de criação. Ele (o policial) se adapta em qualquer situação. Os americanos são bem limitados. Se não houver uma ferramenta para trabalhar, por exemplo, ele não faz. Já o brasileiro não. Ele cria a técnica, a ferramenta.

“Fico imaginando se estivéssemos a estrutura que a polícia dos EUA tem, com todo o investimento, somado a essa criatividade. A polícia brasileira seria a melhor do mundo. Isto é fato”.

Como você analisa a segurança pública nacional hoje?

Temos um problema sério que é quanto à legislação. A máxima de que “bandido bom é bandido morto” não vai resolver. “ A ‘gente’ acaba dando carta branca para os maus policiais cumprirem a fala. O bandido vai se equipar mais; vai trocar mais tiro; vai ter mais bala perdida. Para ter ideia, o Brasil é o país que mais tem reféns quando o caso envolve assalto. Ele (assaltante) sabe que a polícia vai chegar para matar.

“A legislação não ajuda o cidadão de bem; pelo contrário, facilita quem está cometendo crime”

Qual é o papel da policial paranaense nesse cenário?

Vejo a polícia do PR como sedenta por treinamento, por aperfeiçoamento. Uma das vantagens – e também o reconhecimento – é ter um secretário de segurança policial como é o caso do delegado federal Wagner Mesquita.

Por outro lado, a Guarda Municipal também vem ocupando um espaço importante. Lá fora, quando mostro os vídeos de operações no estado do PR, causa surpresa nos assistentes. Os policiais de lá vêem atitudes humanas, e os vídeos acabam viralizando. Tem o que melhorar? Claro que sim. Nada nasce pronto e nada é perfeito. É preciso aperfeiçoamento e treinamento.