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Obra parada do Metrô assombra moradores

Da expectativa de estar ao lado de uma estação de metrô, o paulistano foi agora para o incômodo de conviver com imóveis vazios, tapumes, escombros de obras e vias interditadas por prazo indefinido. As áreas onde ficariam as 15 paradas da Linha 6 - Laranja, obra cuja paralisação foi confirmada pelo governo do Estado na segunda-feira, 5, já estão sem seguranças - e colecionam vizinhos insatisfeitos.

"A gente conta com esse tipo de obra para melhorar nossa vida. É um absurdo simplesmente pararem. Demoro duas horas para chegar em casa. Se essa obra estivesse pronta, e também a Estação Vila Sônia da Linha 4, eu ganharia muito tempo", afirma a recepcionista Rosana de Oliveira, de 40 anos, funcionária de um hospital localizado próximo do que seria a Estação Perdizes, na esquina da Rua Apinajés com a Avenida Sumaré, na zona oeste de São Paulo, e moradora de Taboão da Serra, na região metropolitana.

Quem mora na região também não gostou da notícia. O analista de sistemas José Joaquim Barreiros, de 58 anos, relata que, mesmo antes da divulgação da paralisação das obras da linha, já havia ocorrido casos de pessoas jogarem entulho nos imóveis desocupados para a obra - naquele trecho, não chegaram a ocorrer as demolições do terreno. "Jogaram sofá, armário, lixo. Depois, alguém limpou."

Em outro ponto da cidade, na esquina da Avenida Pompeia com a Rua Venâncio Aires, a engenheira Silvia Loeser, de 55 anos, relata "tristeza" ao saber da paralisação do projeto e cita a importância da ampliação da malha metroviária. E cita os riscos de invasão dos espaços ao enumerar os impactos que espera para a região. "São Paulo é assim. Não pode haver um lugar vazio que é ocupado", referindo-se às ocupações por dependentes químicos para consumo de drogas. "Muita gente vem de longe para cá."

Os imóveis desapropriados nas duas estações estavam protegidos na quarta-feira, 7, só com tapumes. Não foi possível ver nenhum segurança no interior dos locais vazios - uma oficina, um consultório dentário e um banco em Perdizes; e, na Pompeia, um posto de gasolina.

Brasilândia. Além do temor dos mesmos problemas, lideranças comunitárias da Brasilândia, zona norte da cidade, que teria a ligação com o centro e com as demais linhas de metrô facilitadas pela obra, são os que mais reclamam. "A promessa da linha é tão antiga que muita gente nem acreditava que sairia. Agora, quando parecia que ia sair, acontece isso. Além de ter a preocupação em isolar o que está desapropriado, eles (governo) têm de pensar que a gente continua desassistido", diz o líder comunitário de Brasilândia Henrique Deloste.

Consórcio alega falta definanciamento

O consórcio Move São Paulo, formado pelas empresas Odebrecht e Queiroz Galvão, informou que a paralisação das obras da Linha 6-Laranja do Metrô se deu diante da dificuldade na contratação de um financiamento a longo prazo para o projeto. "A decisão resguarda o interesse público na medida em que mitiga danos à viabilidade do empreendimento e preserva as atividades já executadas".

Por meio de nota, a empresa nega que haja falta de seguranças nos canteiros ou imóveis desocupados para a linha. "Todas as áreas possuem vigilância adequada, que é feita de forma presencial ou por rondas", diz o texto. "Não há falta de vigias, a segurança fica posicionada em pontos estratégicos nas frente de obras. A segurança realizada hoje nos canteiros de obras tem o mesmo padrão que vem sendo praticado nos últimos meses e estará garantida durante todo o período de suspensão", argumenta. É de responsabilidade do consórcio garantir a segurança dos locais.

Governo

Ao comentar a suspensão das obras, o Metrô - empresa gerenciada pelo governo do Estado e contratante do consórcio Move São Paulo - afirmou ver "com preocupação" a não obtenção do financiamento e a paralisação das obras. "Qualquer atraso na obra causa multa e rescisão contratual", afirma o texto.

O governo diz ainda que "é importante frisar que tanto o consórcio Move São Paulo quanto o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) têm pleno conhecimento do cronograma da obra e do planejamento financeiro para a sua execução".

'Não houve preocupação com os vizinhos e os negócios'

A chef Carla Pernambuco, do Carlota, restaurante vizinho de onde seria a Estação Angélica-Pacaembu, fez um desabafo nas redes sociais ao saber da paralisação da obra. Disse que "planejamento é fundamental" e cobrou diretamente o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Ao jornal O Estado de S. Paulo, disse que a obra vem prejudicando seus negócios e seus vizinhos.

"Toda obra tem impacto, mas o que parece é que, em nenhum momento, houve preocupação com os moradores e os negócios do entorno. A vizinhança já está sendo degradada, a partir do momento que obstruíram ruas. Há intenso tráfego de caminhões na região e um grande terreno baldio no lugar de casas", disse a chef, também apresentadora do canal Discovery Home & Health.

"Este canto da Rua Sergipe era bucólico, com moradores e pequenos comércios. Isso acabou da noite para o dia", conta. "Sinalizaram que a nossa rua está interditada, como se não existíssemos. Tudo isso nos trouxe uma enorme insegurança", disse a chef, que enfatizou seu apoio ao metrô - mas com "um projeto planejado, uma obra segura e com prazos de início e término bem definidos."

Dada a incerteza diante de prazos para retomada, ela pede outro uso para os espaços vazios. "Que se faça então uma praça para que todos possam usar e se desobstruam as Ruas Sergipe e Ceará, até que haja recursos", pede a chef, que tem restaurante - um dos mais renomados da capital - há 21 anos.

Outro defensor da obra é o professor de história da ópera Sérgio Casoy, de 67 anos. Seu pai mora ao lado da Estação Perdizes. "Acho fabulosa a ideia de ter uma estação tão perto."

Mas, mostrando-se um tanto incrédulo com a paralisação, ele disse aguardar uma ação do governo. "Se a questão é a falta de dinheiro de uma empresa, façam nova licitação e chamem outra", pede. Ocorre que a obra, uma parceria público-privada licitada em 2013, teve apenas um grupo interessado, justamente o que, agora, alega problemas de financiamento. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.