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Protestos por morte de menino deixa rastro de destruição na Baixada Fluminense

Os protestos contra a morte de Matheus Santos Moraes, de 5 anos, na noite de sábado, 2, deixaram um rastro de destruição em Magé, na Baixada Fluminense. O município de 234 mil habitantes localizado a 50 quilômetros do Rio amanheceu ontem com um saldo de 14 ônibus queimados, lojas saqueadas, falta de energia elétrica, ruas interditadas e tensão entre os moradores. Na semana passada também houve manifestações violentas em Madureira, na zona norte da capital, depois do assassinato Ryan Gabriel Pereira dos Santos, de 4 anos, em um confronto entre traficantes.

No começo da manhã de ontem, houve nova troca de tiros entre policiais e criminosos no local. Os donos das poucas lojas abertas resolveram fechar as portas por volta das 12h30, quando circulou a informação de que haveria mais protestos após o enterro do corpo de Matheus, marcado para 16h. O policiamento seguia reforçado pelo Batalhão de Choque, que veio da capital fluminense.

O menino foi baleado na cabeça enquanto brincava na porta de casa, na Favela da Lagoa, no bairro Mundo Novo, quando policiais militares faziam uma incursão na comunidade. Segundo a Polícia Militar, "houve um breve confronto" quando uma equipe do 34º Batalhão realizava um patrulhamento e se deparou com criminosos vendendo drogas no sábado.

Outros três moradores da comunidade foram baleados na ação policial e não correm perigo de morte. O menino foi levado ao Hospital Municipal de Magé, mas não resistiu aos ferimentos. Revoltados, os moradores da favela foram protestar no centro da cidade, onde fica o comércio e a 65ª Delegacia de Polícia.

O local mais afetado na manifestação de sábado foi a rodoviária, onde ontem ainda havia as carcaças de dez ônibus queimados. Três guinchos fizeram removeram os veículos. Funcionários da concessionária de energia elétrica trabalhavam para recompor a rede. Parte do Centro da cidade estava sem energia, porque o fogo ateado aos ônibus atingiu a rede elétrica.

"Estava tudo escuro em frente à rodoviária quando teve novo tiroteio. Ninguém via nada, não sabia para onde correr. Isso aqui estava um terror. Parecia a Síria", disse o guarda municipal Adailton José Barbosa, de 41 anos.

Uma filial da rede de eletrodomésticos Ricardo Eletro foi saqueada. Funcionários da empresa passaram a manhã contabilizando o que foi furtado ou danificado. Agências do Banco do Brasil e do Itaú foram depredadas. A porta de vidro da sede da prefeitura foi quebrada, e um ônibus incendiado em frente à 65ª Delegacia de Polícia, no Centro. O delegado Cley Catão abriu inquérito para "apurar os fatos e diligências estão sendo realizadas para identificar os autores". Ninguém foi preso por causa do protesto.

Os policiais militares acusados de envolvimento no incidente não se apresentaram à delegacia, mas diretamente ao batalhão, e foram ouvidos em um inquérito policial militar. De acordo com o delegado Giniton Lages, da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, esse procedimento prejudicou a investigação, "possibilitando que vestígios importantes fossem perdidos em razão da comunicação tardia". A PM informou que o comando do batalhão vai apurar a conduta dos policiais.

Lages adiantou que vai comunicar a Corregedoria Geral Unificada (CGU) a postura dos agentes envolvidos no tiroteio. Os militares foram ouvidos pelo delegado e suas armas apreendidas. Será feita uma reconstituição dos fatos para confrontar as versões apresentadas pelos militares e pelas testemunhas.

O pedreiro Hélio de Sousa Gomes, de 49 anos, questiona a explicação dos policiais. Ele mora ao lado da casa de Matheus, que brincava com sua neta quando foi baleado. "As pessoas estavam bebendo cerveja na rua quando dois policiais chegaram atirando. Eu tinha acabado de entrar em casa quando ouvi os disparos. Olhei para trás e vi todos deitados no chão. Foi um desespero. Ainda tem manchas de sangue no chão da rua", contou.

O secretário municipal de Ordem Pública de Magé, Nelson Vinagre, disse que o protesto violento pegou o município desprevenido e pediu para a população ficar em casa no domingo, pois havia risco de novos protestos. "Somos uma cidade pacata, pequena. Não dá para imaginar que as coisas chegariam a esse ponto. Um ônibus foi incendiado em frente a delegacia. Estamos com sensação de filme de terror", declarou.