22°
Máx
16°
Min

Sem boletim, ensino infantil ganha relatório

Para que os pais possam acompanhar o desenvolvimento dos filhos na educação infantil - etapa do zero ao 6 anos que não tem provas nem boletim -, escolas particulares de São Paulo estão investindo na produção de relatórios detalhados sobre habilidades e comportamento das crianças. O documento analisa desde se sabem reconhecer as letras de seu nome e contar até dez a se abotoam sozinhos o casaco ou sentam de forma adequada.

No colégio AB Sabin, na Vila São Francisco, zona oeste da capital, os relatórios foram adotados no ano passado como forma de acompanhar o desenvolvimento das habilidades cognitivas, sociais e emocionais das crianças. "Antes, nós mandávamos um relatório dissertativo para os pais, com pontos que a professora e a equipe achavam mais importantes. Agora, temos um modelo a seguir com dezenas de indicadores de avaliação por faixa etária", afirma Monica Mazzo, diretora pedagógica.

Segundo Monica, a mudança aconteceu porque a escola sentiu a necessidade de dar mais satisfação aos pais não apenas sobre o desenvolvimento da criança, mas também sobre as expectativas de aprendizado para ela. "Na educação infantil a avaliação é contínua, não existem notas ou provas. Por isso, a observação é muito importante nessa etapa porque a evolução das crianças também é muito rápida e depende dos estímulos adequados", diz.

No colégio Gimbernau, em Perdizes, na zona oeste, o comentário descritivo dos professores também foi substituído pelo relatório, que apresenta 153 indicadores. Com eles, é avaliado, por exemplo, se a criança aceita esperar sua vez nas brincadeiras, ajuda os colegas, mostra curiosidade e memoriza canções. "Em toda brincadeira ou atividade cotidiana, como comer, ir ao banheiro, calçar o sapato, é importante observar como a criança está se desenvolvendo", diz Simone Gimbernau, coordenadora.

O relatório é trimestral, mas, se for constatado algum problema mais grave no desenvolvimento da criança, os pais são comunicados antes. "Um comportamento mais irritadiço ou se ela não quer comer, isso não pode esperar", explica.

Autonomia

A designer Joana Alveal, de 39 anos, diz aprovar os relatórios que recebe do filho Gael, de 5, que estuda na Gimbernau. Segundo ela, funcionam como um indicativo sobre o que esperar da criança em cada faixa etária. "Eu fiquei sabendo que meu filho fazia coisas na escola que não praticava em casa, como comer sozinho ou amarrar os sapatos. Acho que, por querer um mimo dos pais, ele não fazia sozinho. Quando ficamos sabendo, começamos a estimular que ele tivesse mais autonomia."

Para Paula Neves Fava Bom, coordenadora do colégio Pio XII, no Morumbi, na zona sul, esse tipo de relatório sinaliza aos pais aspectos que em geral eles não dão atenção. Também ajudam os professores, pois como têm metas estabelecidas para cada faixa etária, são indicadores de quais conteúdos foram absorvidos pelos alunos.

Segundo Claudia Ayres, coordenadora do colégio Marista Glória, no Cambuci, região central, após compartilhar o documento com os pais, estratégias são traçadas. "Concebemos a educação infantil como um período em que as aprendizagens se desenvolvem de maneira processual e em espiral. O que garante para cada criança seu tempo individual de construção."

Isso é importante também para tranquilizar as famílias e desencorajar comparações. "Muitos comparam o desempenho do filho com o dos colegas ou dos irmãos mais velhos e essa pressão é muito ruim para a criança", diz Adriana Meneguello, coordenadora do colégio Mary Ward, no Tatuapé, zona leste.

Para Adriana, os pais precisam entender que algumas das informações apresentadas no relatório dependem da educação em casa. "Uma criança que tem pouca iniciativa na escola, provavelmente tem pouca autonomia em casa. O trabalho precisa ser conjunto."

Professor

Para Gabriela Clotilde Monteiro, especialista em Educação Infantil pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), quando as escolas optam por um relatório muito extenso é importante que elas reservem um tempo e deem ajuda aos professores, para que seja possível prestar atenção em todos os detalhes cobrados. "Tem de haver um equilíbrio para que o professor não fique apenas preocupado com os indicadores e esqueça da parte pedagógica", diz.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.