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Virada Cultural vira protesto contra Michel Temer

Havia grupos organizados e não organizados. Artistas mais engajados, como Armandinho, e de atitudes menos visíveis, como Genival Lacerda. A Virada de 2016 foi temática e se transformou em uma grande mobilização antigoverno Michel Temer.

Muitos telões de shows, que ficam ao fundo dos palcos, exibiram as duas frases que eram mais vistas e ouvidas por todo lado. "Fora Temer" e "Temer jamais". Mesmo em espetáculos de artistas que não se pronunciaram diretamente contra o político, como no show de Criolo no Palco Júlio Prestes ou dos Mestres da Soul, no República, os inscritos apareciam e chamavam a plateia a bradar contra Temer.

O grupo de maior atuação política foi o Arrua. Cinquenta integrantes distribuíam panfletos e pintavam as frases em camisetas em uma base instalada no meio da plateia da Júlio Prestes. Gabriel Medina, 34 anos, um dos líderes, informou ao Estado que chegou a distribuir 7 mil cartazes. "As pessoas vinham buscar, espontaneamente. Em menos de 20 minutos saíram 2.500 panfletos."

Outra marca de 2016 foi uma sensação maior de segurança, resultado provável da política de esvaziamento de shows do perímetro nervoso central e da expansão para outras regiões da cidade. O público era menor do que no ano passado, o que deixava mais nítida a presença dos policiais militares e da Guarda Civil Metropolitana.

Os incidentes presenciados pela reportagem foram menos graves do que em outras edições. No palco Júlio Prestes, durante o show de Criolo, um homem puxou um revólver e provocou correria, mas não atirou. Muita confusão na frente do palco também, com o próprio Criolo e seus músicos pedindo que as pessoa se acalmassem.

Os policiais, ao contrário da atitude agressiva de reação em 2015 à violenta edição de 2014, observavam mais do que investiam em revistas e desmobilizações de supostos grupos praticantes de arrastões. Houve registros de furtos e brigas, ainda que não tenham sido fornecidos os números gerais. Um homem de 21 anos morreu após desmaiar e bater a cabeça nas escadarias da Estação Anhangabaú do Metrô, mas, segundo a Secretaria Municipal de Cultura, fora da área da Virada. Uma mulher levou uma facada nas costas de supostos assaltantes durante um show.

Dianne Reeves fez a apresentação mais sofisticada da primeira noite. Estava simpática, superando barreiras da língua e alguns andamentos mais lentos, como o do blues que encerrou o show. Improvisou citando Águas de Março, de Tom Jobim, e, antes de sair, não deve ter entendido muito quando os gritos de fora Temer começaram.

Grupos de policiais eram percebidos ao longo de corredores sempre problemáticos, como o da Avenida São João e o da Rua Vitória, uma minicracolândia. As luzes de led instaladas pela Prefeitura deixaram a Praça da República bastante clara, mas não iluminaram a Avenida Rio Branco, um acesso importante que leva ao palco principal, na Júlio Prestes.

No sábado, mesmo com shows de maior apelo, como Baby do Brasil e Armandinho, na Júlio Prestes, nãohavia concentrações de plateia tão grandes. As maiores massas vieram mesmo no domingo, sobretudo aos shows de Criolo e Nação Zumbi.

Antes dos primeiros coros de fora Temer, o Vale do Anhangabaú se concentrava na noite de sábado para assistir a Elis - A Musical, no palco dos musicais. Ali, havia problemas de invasão acústica, com música alta interferindo em algumas partes da montagem. O musical ganhou adaptações, muitas partes foram extraídas para viabilizar a produção em praça pública.

O preço é ter se tornado muitas vezes um show, não um musical, com uma sequência de músicas grudadas umas às outras. Mas foi comovente. Os atores se emocionaram e passaram isso para o público. Mais do que o palco de dança, que tomava aquele espaço em edições anteriores, o dos musicais se consagra, ainda que com desafios a vencer.

Quando a noite avança, muda o perfil da plateia. Ela se torna mais jovem e com efeitos alcoólicos mais visíveis. Mas os shows visitados pela reportagem nesse período seguiam sem incidentes graves. Um trio elétrico na Avenida Rio Branco misturava música eletrônica e sambas-enredo.

Às 5h, o projeto Mestres da Soul levava à República Di Melo, Carlos Dafé, Lady Zu e Tony Tornado. A banda Black Rio fazia apoio para todos. Tornado e seu filho, Lincoln, fizeram uma participação rápida, mas de muita interação. Uma das exceções foi o show de Elza Soares, à 1h da manhã. Brigas e tumultos à frente do palco provocaram correia. Furtos de celulares foram registrados por pessoas que estavam nessa área.

O palco República institucionalizou o "fora Temer" no show dos soulmen brasileiros. As caixas de som de retorno aos músicos, que ficam nos palcos, traziam todas cartazes escritos "Temer nunca mais". E um telão ao fundo do palco exibia "Fora Temer" entre as músicas ou em cada troca de artista. A volta do Ministério da Cultura foi comemorada pela cantora de forró Fatel Barbosa: "Agora, o Ministério da Cultura já existe".

No palco das mulheres, na Avenida São João, Teresa Cristina fez um show comovente apenas com o violão de Carlinhos Sete Cordas. O show era uma homenagem a Cartola, mas ela pediu licença para prestar homenagem cantando músicas de Dona Ivone Lara. Fez referência às discussões nas redes sociais dos que chamam músicos de desocupados, que só querem ganham dinheiro do MinC. "Agora, a vagabunda vai sambar."