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'A crise vai ser superada com novas lideranças', diz presidente da FDC

Desde o início do ano à frente da Fundação Dom Cabral, Antonio Batista da Silva Junior faz questão de ressaltar a excelência da escola no trabalho de ajudar empresas a melhorarem fluxo de caixa, logístico ou otimizar processos. Não é à toa que fundação é eleita há 11 anos a melhor escola de negócios da América Latina, segundo o jornal inglês Financial Times.

No entanto, o executivo admite que ter um bom desempenho econômico já não é mais o suficiente para uma corporação nos tempos atuais. "Não adianta só ter lucro, precisa ter reputação, resiliência e mostrar respeito no relacionamento com os stakeholders (seus diversos públicos)." Ler, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Com a Operação Lava Jato e brigas societárias frequentes, a questão da governança está mais importante no País?

A questão da governança é global e atual. As empresas multinacionais têm se preparado com adoção de sistemas de compliance e regras de transparência. Agora, as empresas brasileiras, mesmo as de médio porte, estão se estruturando também, para ganhar mais estabilidade nas tomadas de decisão, na relação entre o executivo e o conselho e também com o mundo externo. Todas as práticas passam a ser mais fiscalizadas e reguladas.

Isso pode ajudar na reputação dos negócios?

Vivemos uma crise de confiança nas instituições, desde as empresas até a igreja. É um fenômeno mundial. No Brasil, vivemos uma situação especial, que é a discussão da ética, da corrupção, da relação entre o público e o privado. E, para superar essa crise, precisamos de líderes fortes, tanto empresariais quanto políticos e sociais. A crise vai ser superada a partir da emergência dessas novas lideranças.

É preciso substituir as pessoas ou bastam novas regras?

Precisamos de um novo conceito de liderança, seja com pessoas novas ou com a capacitação das antigas. Esse desenvolvimento passa pela educação. Não dá para transformar um país sem transformar as pessoas. E isso vale para as empresas. Durante muito tempo, as organizações só pensavam no lucro financeiro, era o que as escolas de negócios ensinavam, era fácil prever o futuro com base em gráficos de indicadores passados. Isso mudou.

O cliente hoje tem outras demandas, além do produto?

Estamos vivendo quatro mudanças. A primeira é a dispersão de poder, que passou dos detentores dos meios de produção para o consumidor e a sociedade civil organizada. A segunda, são as novas ideias, que incluem um novo conceito de Justiça. Com as pessoas vivendo mais próximas, em centros urbanos, as injustiças ficaram mais evidentes para a sociedade. Depois vem o compartilhamento, com empresas como Uber e Airbnb desafiando negócios estabelecidos. E, por fim, a tecnologia, que causa impacto em todos os negócios e também a forma como as pessoas se relacionam com as organizações e o governo. A tecnologia torna a fiscalização desses agentes muito mais fácil.

E o que precisa mudar?

Um exemplo é a relação das grandes empresas com o governo, que sempre foi marcada pelo clientelismo. Algo que sempre ocorreu agora explodiu e está exposto. Esses desenvolvimentos mudam a percepção sobre o Estado. O caso do nadador Ryan Lochte, que foi pego em uma mentira durante a Olimpíada, é um bom exemplo. Antes, importava o resultado do nadador na piscina. Agora, não é mais assim. E ele perdeu patrocínios, teve um prejuízo enorme por causa de uma mentira. Com as empresas é a mesma coisa. Não adianta só ter lucro, precisa ter reputação, resiliência e mostrar respeito no relacionamento com seus stakeholders. Os executivos e os conselhos vão ter de entrar nessa conversa. O jogo agora não é o lucro do curto prazo, mas a imagem da empresa no longo prazo.

As empresas estão realmente preocupadas com esse legado?

Há uma conscientização nesse sentido, mas não é uma prática estabelecida. Há as vanguardistas, como a Natura, que têm um capital de reputação esplêndido, construído de maneira genuína durante décadas. E há aquelas que conseguiram queimar a reputação que tinham ao serem envolvidas na Operação Lava Jato. É bom lembrar que algumas empresas citadas, como a Petrobrás e a Odebrecht, receberam no passado prêmios de governança no exterior. Mas tinham fragilidades em seu sistema que corroeram essa reputação.

Isso também ocorre no exterior, com empresas como Volkswagen e Siemens.

Sim, não é algo brasileiro. Teve a Siemens, a Volkswagen, a British Petroleum com o vazamento no Golfo do México, a crise americana que carregou os grandes bancos.

Como fica o papel da Dom Cabral, como escola de negócios, dentro desse novo cenário?

A escola é procurada por duas razões. A primeira é resolver problemas econômico-financeiros. E nisso temos 300 professores e 40 anos de tradição. Sabemos ajudar as empresas a melhorar fluxo de caixa, logística, otimizar processos e a compreender melhor as necessidades dos clientes. A outra questão é a formação de líderes, pois todas as empresas são do tamanho das pessoas que nela trabalham - não são menores nem maiores. As empresas hoje são cheias de especialistas apaixonados pelo que fazem, mas precisamos que sejam capazes de pensar o negócio como um todo, que liderem pessoas e obtenham resultados por meio delas. Na fundação, estamos questionando a concepção dos programas, no sentido de que os líderes não devem pensar só em resultados econômicos. Eles têm de ser menos escravos da performance e mais agentes do progresso. O líder precisa pensar no todo - a sociedade, os clientes e a corporação, evidentemente.

Como isso se reflete na grade dos cursos?

Queremos que os nossos professores tenham uma compreensão de outras disciplinas. Temos trazido disciplinas não só de gestão, mas de filosofia, sociologia, psicologia, artes. Temos encorpado o programa tradicional com outras ciências. E também tratando o conceito da sustentabilidade em todas as disciplinas. A ideia é uma visão mais humanista e menos ferramental. O CEO hoje, além de trazer resultados e equilibrar interesses, precisa também deixar um legado.

Essa ideia do legado atende a mudanças na sociedade?

Sim, é uma percepção do dia a dia. É o filho que não quer mais tirar carteira de motorista, quer andar de bicicleta, ou que não compra um produto na prateleira do supermercado porque a imagem daquela empresa não é boa. Há empresas que percebem essa transformação social e começam a agir; há outras que serão levadas a agir. Eu vejo essa transformação com muito otimismo, e todo o mundo terá de mudar. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.