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ABDI vai aproximar indústria de startups, diz novo presidente da entidade

A aproximação entre a indústria e as startups é a principal linha de trabalho do novo presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Luiz Augusto de Souza Ferreira, um jornalista de 35 anos que atua como mentor de eventos como o Campus Party e o Startup Weekend.

Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", ele disse ter conversado com entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e ouvido a opinião "unânime" que a ABDI deveria ser fechada, caso não se reaproximasse da indústria.

O presidente da ABDI pretende lançar um programa, ainda em agosto, para selecionar startups que tenham projetos úteis para a indústria. "Não são só boas ideias, são coisas que estejam funcionando", frisou. E, a partir daí, fazer uma ponte com as empresas. "Hoje, elas não se falam: o pessoal das startups acha que a indústria é velha, os industriais acham que as startups só fazem jogos para videogame." A agência pretende estabelecer parcerias com grupos que apoiam startups e scaleups (empresas de médio porte), como a Endeavour, a Startup Weekend e a Wira.

Para convencer as indústrias a adotar inovações, a ideia é bancar pilotos dentro das próprias empresas "para mostrar que funciona mesmo". Os recursos para isso, explicou ele, podem vir de fundos. Ele pretende estruturar um fundo privado, inicialmente de R$ 150 milhões, para financiar essa aproximação entre a indústria e a ponta inovadora. "As indústrias importam tecnologia da China, dos Estados Unidos, da Índia, e aqui tem uma molecada fazendo a mesma coisa."

Para facilitar a aproximação, a ABDI pretende montar um escritório dentro da Fiesp. "Não adianta ficar aqui em Brasília, porque aqui não tem indústria", afirmou Ferreira.

A ABDI é subordinada ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), comandada por Marcos Pereira, um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. O viés religioso do ministro levantou dúvidas sobre como ele comandaria a área de inovação tecnológica da pasta. "As pessoas olham o lado da igreja e não o lado gestor do ministro", minimizou Ferreira, que diz ter ligação "zero" com a Universal.

Antes de assumir a ABDI, ele presidia o conselho de administração do Confia, "o maior banco de microcrédito da cidade de São Paulo". Foi também responsável pela área de empreendedorismo da prefeitura paulistana entre 2010 e 2013, na gestão de Gilberto Kassab.

A ABDI vai defender, dentro do governo, que sejam suspensas as fiscalizações que o Ministério do Trabalho faz em indústrias com base na Norma Regulamentadora (NR)12, um conjunto de regras sobre segurança em operação de equipamentos que é duramente criticado pela indústria. "A NR12 é idiossincrática, só tem no Brasil", disse Ferreira. "Ela encarece o custo dos equipamentos em pelo menos 15%, por isso a posição da ABDI é pela suspensão da fiscalização com base na NR-12."

Ele afirmou que "há boa vontade" por parte do Ministério do Trabalho em discutir a questão. "Não se pode precarizar as condições de trabalho, mas se o custo for muito elevado a indústria vai demitir", frisou. "A posição da ABDI é em defesa da indústria nacional."

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Até há pouco tempo, funcionários da ABDI que viajavam ao exterior tinham direito a uma diária de US$ 700 ou 700 euros, dependendo da moeda, independente do destino. E viajavam de classe executiva até para destinos próximos, como Buenos Aires. Nessas viagens, algumas autoridades levavam até a secretária.

"Nem sei como gastavam isso tudo", espantou-se Ferreira, que relatou ao jornal o padrão da gastança que encontrou. As diárias já foram cortadas pela metade e os voos em classe executiva foram proibidos para deslocamentos com duração inferior a 12 horas sem interrupção.

Os gastos com pessoal da agência tomavam 60% do orçamento de R$ 92 milhões anuais. "Se fosse uma empresa privada, estaria quebrada", comentou. Com a demissão de 37 funcionários, seis deles com os mais altos salários, de R$ 25 mil por mês, a despesa baixou para 43% do orçamento e a meta é chegar a 37% até o final de agosto.

"Era um grau de aparelhamento muito grande", disse o presidente, que contou já estar sofrendo oposição dentro da agência por causa dessas medidas. "Tinha gente do PT, do PMDB, mas 80% eram ligados ao Alessandro, o 'mister Bumbum'", afirmou. Ele se referiu a Alessandro Teixeira, que ficou conhecido nas redes sociais por ser casado com a miss bumbum Miami 2013, Milena Santos. A tia de Milena trabalhava na ABDI.

Ferreira assegurou que as demissões não tiveram corte partidário. A lista, explicou ele, foi elaborada pela área de Planejamento da agência com base em critérios técnicos e administrativos. "Meu assessor de imprensa tem foto no Facebook com a Dilma", exemplificou.

Dos demitidos, 14 eram do quadro da agência e haviam passado por concurso público. Por se tratar de uma agência, esses servidores são contratados segundo as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e não possuem estabilidade.

A ABDI convocou para retorno ao trabalho cinco funcionários que estão afastados há bastante tempo. "Não é por doença, é por um entendimento da agência que eles podiam ficar assim para cuidar de outras coisas da vida", comentou o presidente. "Tem gente morando nos Estados Unidos e não é para fazer doutorado nem nada parecido." Essas pessoas não recebem remuneração, mas ocupam postos sem efetivamente trabalhar para a agência.

Os cortes atingiram até as horas extras dos motoristas. "Havia muito gasto por falta de planejamento", afirmou Ferreira. "Agora, se eu fico trabalhando depois das 19 horas, meu motorista vai embora e eu volto a pé ou pego um Uber." Com isso, ele acredita que conseguirá economizar algo como R$ 100 mil a R$ 200 mil por ano.

Procurado, Alessandro Teixeira preferiu não comentar.