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Agenda comercial do Brasil pode ter resistência dos EUA

A mudança na política externa brasileira na direção de maior abertura econômica ocorre no momento em que os Estados Unidos estão dominados por uma retórica eleitoral protecionista e antiglobalização que deve dificultar o fechamento de acordos de livre comércio pelo país. Em compensação, a América Latina se volta para governos mais pragmáticos e menos ideológicos, interessados em fortalecer suas economias com a ajuda de exportações.

Esse cenário deve ancorar a política externa do Brasil na região e na integração com as nações vizinhas, apesar do provável fortalecimento dos laços com os Estados Unidos, dizem analistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Para eles, a vitória de Mauricio Macri na Argentina e a posse do presidente em exercício Michel Temer em Brasília abrem as portas para o Mercosul se aproximar da Aliança do Pacífico, o conjunto de nações que representam a opção pela abertura comercial na América Latina.

Os EUA e a região são os principais destinos das exportações de produtos industrializados do Brasil e poderiam ter papel fundamental no processo de retomada do crescimento, afirmou Mauricio Mesquita Moreira, economista-chefe do Setor de Integração e Comércio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e um dos principais especialistas no assunto da região.

"O triste é que nós esperamos o ciclo político em relação ao comércio virar completamente nos Estados Unidos. Hoje, o clima nessa área é mais favorável na América Latina."

Bandeira

Candidato do Partido Republicano à presidência dos EUA, Donald Trump transformou o ataque à liberalização comercial em uma de suas principais bandeiras de campanha. O bilionário sustenta que a derrubada de barreiras levou à transferência de empregos americanos para o exterior e à entrada no país de produtos a preços que não podem ser equiparados pela indústria nacional.

Do lado democrata, o senador Bernie Sanders adotou retórica semelhante, o que forçou sua adversária Hillary Clinton a se declarar contra a Parceria Transpacífico (TPP). Maior acordo regional da história, o pacto reúne 40% do PIB mundial e ainda precisa ser aprovado pelo Congresso dos EUA.

"O governo Temer começa no momento em que há um forte sentimento antiglobalização e anticomércio nos Estados Unidos", observou o presidente do Inter-American Dialogue, Michael Shifter. Em sua opinião, será difícil o presidente Barack Obama conseguir a ratificação do TPP pelos parlamentares americanos antes do fim do seu mandato, em janeiro.

Mas ele vê um cenário distinto na América Latina, onde as dificuldades econômicas devem forçar os países a buscarem maior abertura comercial e mercados fora de suas fronteiras. Ainda assim, Shifter não acredita que haverá mudanças bruscas. "Seria ingênuo pensar que o Brasil ficará como o Chile ou o Peru amanhã, mas poderá dar passos nessa direção."

Pragmatismo

Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute do Wilson Center, acredita que o ministro das Relações Exteriores, José Serra, adotará uma política pragmática, voltada para a obtenção de resultados econômicos que estimulem o crescimento. "Não será mais a política externa do prestígio, mas sim uma política externa que busca resultados econômicos concretos."

Na avaliação de Sotero, o eixo da agenda do ministro será a América Latina. "O Serra tem uma ligação muito forte com a região", afirmou, lembrando os anos em que o novo chefe do Itamaraty passou no Chile durante seu exílio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.