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Bolsas europeias disputam ‘espólio’ da City

A Paris Europlace, entidade que faz lobby para a Bolsa de Paris, lançou na semana passada uma ofensiva para tentar atrair entre 10 mil e 30 mil trabalhadores da City. O objetivo é canibalizar o distrito financeiro de Londres em seu momento de maior fraqueza: o do rompimento entre o Reino Unido e a União Europeia. De olho em bancos, instituições financeiras e em investidores, os mercados de Paris, Frankfurt, Amsterdã e Dublin disputam o espólio de operações realizadas em euros, que ficarão proibidas em solo britânico.

A concorrência foi escancarada logo depois do voto em favor do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, definida em referendo pelos britânicos em 23 de junho. A votação lançou o país em um período de incertezas políticas e econômicas, que inclui desde os termos do "divórcio" entre Londres e Bruxelas até questões nacionais cruciais, como a eventual independência da Escócia e da Irlanda do Norte.

Líderes políticos e analistas econômicos europeus concordam que a instabilidade só vai se reduzir com a nomeação do sucessor do atual primeiro-ministro britânico, David Cameron, hoje demissionário, e com a abertura de negociações com a União Europeia para definir os termos da separação - e sobretudo se os britânicos poderão integrar o Espaço Econômico Europeu (EEE) ou não. Enquanto isso não acontece, os peões vão sendo distribuídos no tabuleiro de xadrez financeiro da Europa.

Logo após o anúncio do resultado do Brexit, a administração de Ile-de-France, a região metropolitana de Paris, enviou uma carta a 4 mil personalidades da City explicando as vantagens de seu mercado financeiro. Na quarta-feira, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, anunciou uma série de reformas na legislação para tornar a Bolsa de Paris e seu distrito financeiro, La Défense, mais atraente.

Entre as medidas está a modificação do regime dos "impatriados", estrangeiros radicados na França, que agora terão 50% de dedução fiscal sobre renda de capital por um período de oito anos, e não mais cinco, além de isenção de certos impostos. Além disso, o Imposto sobre Sociedades será reduzido de 33% a 28% ainda em 2016.

O governo pretende ainda reduzir impostos locais sobre imóveis de escritórios e facilitar a burocracia de empresas e profissionais que migrarem de Londres para Paris, com a criação de um "ponto de entrada único", um portal de procedimentos legais para facilitar a implantação no país - que inclui até escola bilíngue para as crianças. Tudo para mudar a imagem de um país cujo presidente, o socialista François Hollande, afirmou, em discurso de campanha, em 2012, ter o mundo das finanças como "inimigo" e criando, uma vez no poder, um imposto de 75% sobre rendas anuais acima de € 1 milhão - a taxação já foi extinta.

"Senhoras e senhores, eu tenho a impressão de que vocês estão com fome", ironizou Valls na quarta-feira, em discurso aos investidores. "Essa decisão", disse o primeiro-ministro, em referência ao Brexit, "criou uma onda de choque para muitas empresas e cidadãos radicados no Reino Unido que se questionam a respeito". "Nós queremos que Paris seja a primeira praça financeira da Europa."

Fragilidade

Até aqui, nenhum analista prevê um esvaziamento de Londres como maior mercado financeiro do continente. Mas há um setor que com certeza foi fragilizado pelo Brexit: o de bancos de fora da Europa baseados na capital britânica e beneficiados pelo Passaporte Financeiro Europeu, que lhes permite comercializar serviços em toda a União Europeia. Com o rompimento entre Londres e Bruxelas, instituições financeiras britânicas perderão o passaporte e não poderão mais negociar em euros.

A opção será, nesse caso, criar ou reforçar filiais no continente ou, em circunstâncias radicais, migrar. O americano JP Morgan já anunciou a perspectiva de demitir entre mil e quatro mil funcionários, de um total de 16 mil, no Reino Unido. Outras instituições foram ainda mais claras. O Morgan Stanley já informou que pode transferir mil trabalhadores, de um total de 6 mil, para mercados do continente. O HSBC fala em transferir mil pessoas para Paris. O Goldman Sachs, que tem 5,5 mil funcionários na City, também cogita a transferência de cerca de 1,6 mil para Paris ou Frankfurt.

Para o presidente da associação Paris Europlace, Gérard Mestrallet, a concorrência está aberta. "Será necessário que essas empresas escolham entre Paris, Luxemburgo, Frankfurt ou Amsterdã, e agora estamos derrubando os argumentos que jogavam contra Paris."

Para o economista Nicolas Veron, cofundador do instituto econômico Bruegel, de Bruxelas, e pesquisador convidado do Peterson Institute for International Economics, de Washington, entre muitas dúvidas, há uma certeza. "Se o Reino Unido sair do mercado único, o impacto sobre a City será muito negativo. Já era algo previsto antes do referendo, e agora está ainda mais claro", disse ao Estado. "Haverá uma competição entre países europeus para atrair atividades financeiras. É possível que haja vários vencedores daquilo que Londres vai perder." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.