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Diretor do BC diz que não vê pressão cambial como as do passado no Brasil

O diretor de Política Econômica do Banco Central (BC), Altamir Lopes, disse que não é vislumbrada nenhuma pressão cambial sobre o Brasil da mesma magnitude observada no ano passado. Ele fez esta afirmação quando questionado sobre avaliações do mercado financeiro de que, se a economia internacional pode gerar desinflação para a atividade doméstica, por outro lado uma possível alta do dólar poderia corroer esse "ganho".

"O câmbio não vai apresentar desvalorizações significativas como nos anos recentes. O câmbio deve permanecer mais ou menos no nível em que se encontra, sem sobressaltos", previu o diretor.

Ele salientou que o rebaixamento recente pela agência de classificação Standard & Poor's (S&P) não mexeu de forma significativa com preços de ativos. Ele disse, porém, que este foi mais um recado de que o Brasil deve perseverar na realização do ajuste fiscal.

Altamir disse ainda que a China é uma economia de grande porte e tem relações significativas com Brasil, mas que não vê pressões sobre o câmbio vindo especificamente deste país.

Juros

O diretor de Política Econômica do BC se esquivou por várias vezes de responder qual a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) vir a aumentar os juros básicos da economia. "O que posso dizer é que nosso cenário não contempla baixa, isso de maneira absoluta", afirmou.

Altamir também foi perguntado sobre se essa sua fala mais clara, que descarta a baixa de juros, e que também foi dita na quinta-feira, 18, pelo presidente da instituição, Alexandre Tombini, e pelo diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, seria uma estratégia para acertar as perspectivas do mercado financeiro, que passou a contar com cortes da Selic depois de sinais dados pelo presidente, na véspera da última decisão, em relação à desinflação que o Brasil pode contratar em função do cenário internacional. "Mercado é mercado e tem lá suas projeções. Nós nos guiamos pelas nossas", respondeu.

O diretor também evitou falar em prazo de validade sobre essa falta de espaço que o Copom enxerga hoje para queda dos juros. Altamir disse que as decisões de política monetária são tomadas a cada reunião do Copom e que manter essa taxa de juro é suficiente para trazer a inflação para 4,5% no próximo ano. "Para trazer a inflação para 2017, nosso cenário não contempla queda dos juros", reforçou.

Inflação

Altamir Lopes afirmou que as expectativas de inflação do mercado financeiro subiram. Ele acredita, no entanto, que elas vão se acomodar quando os sinais de desaceleração na trajetória de alta dos preços começarem a aparecer. "Com a materialização de desinflação de 2 pontos porcentuais no primeiro semestre, o mercado volta a trazer expectativas de volta", disse.

Ele enfatizou que a inflação de janeiro (1,27%), em particular, veio muito elevada. Isso se deu, de acordo com ele, especialmente por causa das "tarifas subnacionais". Como exemplo, o diretor citou que a expectativa da instituição de reajuste de passagem de transporte público aguardada para o ano todo veio praticamente toda em janeiro. "Isso não vai se repetir ao longo do ano."

O diretor disse também que, a despeito de em 12 meses a inflação estar muito elevada, a trajetória agora é de desaceleração mês a mês. Ele admitiu, porém, que não tem visto nenhum ponto de inflexão em relação às expectativas. "Não temos sinalização nesse sentido", afirmou.

Altamir voltou a reforçar que não há expectativa de baixa de juros, quando perguntado novamente sobre a possibilidade de alta dos juros e, mais uma vez também, considerou que "os eventos são avaliados a cada reunião do Copom".

Ele informou que o segmento de serviços, os preços administrados e o câmbio estável ajudam na expectativa da instituição de que o IPCA terá uma redução de 2 pontos porcentuais neste primeiro semestre. Também disse desconhecer estudos sobre mudanças em operações compromissadas existentes no banco, mas salientou que este assunto deve prevalecer nos próximos meses.

Serviços

Altamir Lopes afirmou que já vê sinais de acomodação na inflação de serviços, justamente o último grupo a sentir os impactos da crise, o que seria um bom sinal. Ele também disse que sua expectativa é a de que não haja pressões de preços cambiais, o que poderá fazer com que os preços comercializáveis voltem a rodar no patamar de 5%, ou um pouco acima disso. "Não esperamos pressões sobre o câmbio da mesma magnitude que vimos em anos anteriores", disse, acrescentando que a previsão do BC é de desaceleração da inflação mais forte do que a do mercado.

Isso porque, de acordo com Altamir, a bandeira amarela na tarifa de energia elétrica já foi anunciada e deverá entrar em vigor no próximo mês. Há também, segundo ele, expectativa de que a bandeira se torne verde, o que ainda não está nas contas da autoridade monetária. "Se concretizada, a queda esperada de dois pontos porcentuais na inflação no primeiro semestre torna a tarefa de levar o IPCA à meta em 2017 mais fácil", disse.

Fuga de capitais

O diretor de Política Econômica do Banco Central avaliou que o excesso de liquidez no mundo pode favorecer o câmbio no Brasil. Um desses benefícios é trazer mais fluxo cambial para o País. "Não houve fuga de capitais e hoje também não estamos observando isso", disse.

Segundo ele, a preocupação de agentes com a conta capital está mais relacionada com renda fixa e ações, mas os ingressos de Investimento Direto no País (IDP) são elevados. Lopes ressaltou também que alguns eventos na linha que o BC mencionava na ata do Copom, como afrouxamento da política monetária em alguns países, foram concretizados. "Isso vai trazer impactos para economia brasileira, mas não temos como mensurar isso e quando eles virão", comentou.

Crédito

O representante do BC analisou que o pacote de crédito anunciado pelo governo, de R$ 83 bilhões, não tem impacto no mercado e, tampouco, seria contraditório com a política monetária, uma vez que se tratam de recursos que já estavam no sistema. "Nossa avaliação sobre os R$ 83 bilhões é que não é uma cifra tão significativa como seria se fosse recursos novos", comparou. "São recursos que já estavam no mercado, é uma realocação, não um acréscimo."

Mais cedo, o diretor avaliou que haverá continuidade de restrições de crédito no País, apesar da "melhorazinha" do aumento da demanda. Ele fez esta afirmação durante a divulgação do Boletim Regional, que trouxe também uma pesquisa sobre esse mercado. O BC realizou as entrevistas entre os dias 7 a 18 de dezembro do ano passado. As grandes empresas representaram 92% do total da carteira. Foram consultadas 46 instituições financeiras. Os indicadores variam de -2 (menos concessões) a +2 (mais concessões)

Entre as grandes empresas, a queda da oferta de crédito foi de -1,04 nos últimos três meses e a perspectiva para os próximos três meses é de -1,17. Sobre a demanda, as grandes empresas, que previam queda de 0,46 para os últimos três meses, passam a ver baixa de 0,38 para os próximos. Elas também mudaram de -0,92 para -1,00 de um período para o outro o volume de aprovação de crédito.

No caso das micro, pequenas e médias empresas, o indicador de oferta de crédito entre os dois períodos permaneceu em -1,00, enquanto o da demanda saiu de -0,56 para -0,82 e o de aprovação de -0,74 para -0,76. Sobre o crédito para consumo de pessoas físicas, o indicador dos últimos três meses estava em -0,57 no caso da oferta e assim ficou para os três meses seguintes. Em relação à demanda, passou de -0,48 para -0,61 e sobre a aprovação, de -0,45 para -0,64.

Já no mercado imobiliário para pessoa física, a pesquisa sobre oferta se manteve em -0,44, enquanto a demanda passou de -0,33 para -0,44. A aprovação saiu de -0,11 para -0,44."O crédito habitacional veio um pouco melhor do que se esperava nos últimos três meses", considerou Altamir.