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'O Brasil precisa sair dessa situação da paralisia', diz presidente da TAM

O impasse político trava os investimentos e impede o País de retomar o crescimento. Para a presidente da TAM, Claudia Sender, qualquer governo precisa de maioria no Congresso para aprovar medidas necessárias, porém impopulares, que levarão ao ajuste das contas públicas.

À frente da empresa líder na aviação comercial brasileira, Claudia trabalha com um cenário de retração do PIB neste ano de quase 4% e, assim como seus concorrentes, promove um dos maiores cortes de capacidade já feitos pela aviação brasileira. A expectativa é voltar a crescer apenas em 2018.

Leia, a seguir, a entrevista da executiva ao jornal O Estado de S. Paulo.

O impeachment da presidente Dilma Rousseff já foi aprovado na Câmara e aguarda agora o Senado. Como a sra. vê esse cenário?

Estamos no meio do caminho e o mais importante é tomar um rumo. Não vemos nenhum investimento sendo destravado e todos os processos de concessão estão praticamente parados. As grandes reformas, importantes para a nossa economia e para o futuro do País, não conseguem tramitar no Congresso. Temos de sair dessa paralisia, para qualquer lado que seja. Se continuarmos nessa guerra de nós versos eles, a chance de o Brasil voltar a crescer é pequena.

A sra. acha que o impeachment é o melhor caminho?

O que o Brasil precisa é de definição, desde que siga o processo democrático.

Quais as consequências do impeachment para a economia?

Haverá uma mudança de expectativas em um primeiro momento. Mas, se não tivermos medidas sérias, profundas, que enderecem o problema da Previdência, do déficit primário, do baixíssimo nível de investimento no Brasil, não teremos uma retomada do PIB. Então, qualquer que seja o cenário, precisamos mudar a forma como Brasília enxerga o Brasil. E precisamos tomar as decisões difíceis. A não decisão é muito pior do que uma decisão ruim. Uma decisão ruim você pode consertar depois. A não decisão deixa todo mundo nesse limbo que faz com que o Brasil sofra mais.

Um eventual governo Michel Temer tem condições de fazer o Brasil voltar ao crescimento?

Isso vai depender muito de como as coalizões vão funcionar. É importante que, qualquer que seja o governante, ele tenha maioria no Congresso para conseguir aprovar reformas duras. Não tem nenhuma reforma popular de fácil aprovação. As contas do Brasil estão em uma situação muito crítica e as medidas que têm de ser tomadas não são simples ou populares. Qualquer um que esteja no poder precisa angariar apoio para implementar essas reformas.

Quais as medidas urgentes?

Precisamos entender como reduzir as contas públicas, como aprovar a desvinculação das receitas da União e qual vai ser a equação para voltar a aumentar a arrecadação. O governo precisa gerar superávit primário. O segundo passo é entender como estimular o investimento, que está muito baixo. O Brasil tem uma estrutura deficitária de portos, aeroportos e estradas que precisa de projetos atrativos para os investidores. Existe muito caixa no mundo para investir em infraestrutura, mas não temos projetos atrativos o suficiente. Se o País conseguir resolver isso, seria um casamento no paraíso. Além de atrair investimento, poderíamos desonerar o País, reduzindo o custo que a ineficiência da infraestrutura gera em todos os setores.

Como a turbulência política afeta as empresas?

Muitas empresas seguram investimentos para ver o que vai acontecer no País. Isso gera um círculo vicioso. Se você não investe, não cresce, não inova, não gera emprego e renda e o PIB continua contraído.

Como a TAM, especificamente, foi afetada?

A expectativa ruim das empresas e da população afetou negativamente a aviação. Um empresário não vai pegar um voo para Brasília se não acreditar que vai fechar negócio. E o passageiro de lazer tem medo de perder o emprego ou está endividado e não pode parcelar a passagem. Por isso, reduzimos significativamente a nossa malha doméstica e internacional.

As empresas aéreas precisam de um pacote de socorro?

Não. Elas precisam de regras alinhadas às práticas mundiais para conseguir competir com as empresas estrangeiras que voam para o Brasil. As regras de assistência ao passageiro e legislação trabalhista são mais duras no Brasil, o custo do combustível é mais alto e tivemos um modelo de concessão de aeroportos pela maior outorga, que resultou em tarifas aeroportuárias mais caras. Isso tudo onera a aviação brasileira. Se o Brasil seguisse os padrões internacionais e tivesse uma infraestrutura mais adequada, as empresas aéreas teriam uma redução de custo muito expressiva.

Mas outros setores receberam subsídios...

Tenho pouca fé em políticas de subsídio porque elas são temporárias, e depois é preciso aprender a viver sem elas. Especialmente no momento em que o Brasil está, não consigo vislumbrar uma solução que seja destinar parte da verba pública a um setor específico.

A TAM é patrocinadora da Olimpíada. A crise vai afetar os jogos?

Estamos a cem dias da Olimpíada e tudo o que se fala no noticiário no Brasil é negativo. Então, nossa expectativa é bem menor do que a original. Achamos que a Olimpíada é motivo de muito orgulho e uma grande oportunidade de mostrar o Brasil e o Rio para o mundo de outra forma. O Brasil é maior que a crise e o brasileiro é maior que os políticos.

As vendas de pacotes para a Olimpíada estão 40% abaixo da expectativa. Foi bom negócio patrocinar os jogos?

Ainda é cedo para avaliar. Eu ainda espero que os ânimos mudem até lá.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.