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Operação da PF afeta dívida da Eldorado

Da Juízo Final à Caça-fantasmas, as dezenas de operações da Polícia Federal que aconteceram nos últimos dois anos, no âmbito da Lava Jato, foram deteriorando o crédito das empresas que tiveram seus executivos presos ou delatados. O dinheiro ficou caro demais para elas ou simplesmente deixou de existir. No dia 1.º de julho, quando a polícia bateu à porta do grupo J&F, conhecido pela marca de carnes Friboi, essa realidade atingiu outra companhia do grupo, a Eldorado Celulose.

Em uma semana, os preços dos bônus da Eldorado negociados no mercado internacional caíram 21%, sinalizando que os investidores começaram a perceber um risco elevado de a companhia perder sua capacidade de pagamento. Os bônus são uma espécie de título de crédito em que uma empresa, em vez de se financiar com um banco, capta recursos com os mais diferentes investidores internacionais.

A Eldorado fez sua emissão no mercado internacional há cerca de um mês. Se fosse hoje, pagaria quase o dobro de juros, que saltaram de cerca de 8% para perto de 15%, segundo executivos de bancos que atuam no segmento. Em menor grau, também os títulos da JBS foram afetados e caíram cerca de 1,5%. A queda aconteceu mesmo em um cenário em que os bônus brasileiros em geral se valorizaram.

Esse bônus pode ser negociado, como é feito com as ações no mercado acionário. Na sexta-feira, a cotação do papel da Eldorado era de apenas 78% do seu valor de face. É como se o investidor pegasse um cheque de R$ 100 e vendesse para alguém que está disposto a pagar apenas R$ 78 por ele. Isso acontece porque a percepção passa a ser de que a empresa não terá capacidade de pagar o valor total da dívida no vencimento.

Esse tipo de desvalorização aconteceu com diversas companhias implicadas pela Lava Jato, como as construtoras OAS, Odebrecht e Andrade Gutierrez. A própria Petrobrás passou por um período difícil quando se discutia se a empresa conseguiria ou não publicar o balanço financeiro, logo no começo da Operação Lava Jato. Neste ano, a Odebrecht chegou a ser negociada por 26% de seu valor de face quando deixou de publicar seu balanço. Isso porque, sem os resultados publicados, segundo informou a empresa, os investidores teriam o direito de cobrar antecipadamente US$ 3,5 bilhões em dívidas. Mesmo com atraso, a Odebrecht conseguiu publicar o balanço e agora o papel vale cerca de 50% do valor de face.

Delação

A Eldorado ficou nesta situação porque foi citada na delação premiada do ex-vice presidente da Caixa, Fábio Cleto, que acusou o pagamento de propinas para obtenção de um financiamento de R$ 960 milhões do FI-FGTS. O esquema envolveria o deputado Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, apontado como seu operador. A partir dessa delação, a Polícia Federal deflagrou a Operação Sépsis, que cumpriu mandados de busca e apreensão na companhia e na casa do presidente e sócio da J&F, Joesley Batista.

De acordo com o executivo do alto escalão de um grande banco, o fato de a J&F ter sido de certa forma implicada pela operação é que acabou atingindo também os papéis da JBS - mas em menor grau, já que se trata, segundo o executivo, de uma companhia global solidificada e menos frágil financeiramente. Um outro executivo de banco diz, no entanto, que as instituições já estão mais restritivas para conceder novos créditos a qualquer empresa do grupo. Isso significa, na prática, que os bancos vão cobrar mais caro e pedir mais garantias. Para a Eldorado, a situação é pior, já que foi citada diretamente.

De qualquer forma, a empresa refinanciou boa parte de sua dívida que vence no curto prazo. Além dos US$ 300 milhões que captou com os bônus, também obteve empréstimos de R$ 1,8 bilhão neste ano, a maior parte dos bancos estatais. BNDES, Banco do Brasil e Caixa foram os principais financiadores. Além disso, a empresa vive boa fase de geração de fluxo de caixa em função da valorização do dólar. A Eldorado e a JBS não quiseram comentar. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.