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Preços, crédito e mercado de trabalho explicam queda no varejo, diz IBGE

(Foto: Marcos Santos/ USP Imagens) - Preços, crédito e mercado de trabalho explicam queda no varejo, diz IBGE
(Foto: Marcos Santos/ USP Imagens)

As altas de preços, o crédito mais caro e restrito e a deterioração no mercado de trabalho estão entre os principais ingredientes por trás da retração nas vendas do comércio varejista do País. A perda de poder aquisitivo da população tem sido determinante para explicar a redução no volume vendido, apontou a gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Isabella Nunes.

Em janeiro, as famílias cortaram significativamente as compras em supermercados (-5,8% ante janeiro de 2015), móveis e eletrodomésticos (-24,3%) e combustíveis (-14,1%), entre outros.

"A queda de supermercados está muito associada à renda. A evolução dos preços dos alimentos está acima do índice geral de preços. A pressão inflacionária nesse segmento faz com que os consumidores se ajustem a marcas mais baratas. Consequentemente, o volume de receitas do segmento cai", explicou Isabella.

Em relação a dezembro, os supermercados caíram 0,9%. Já são três meses consecutivos de taxas negativas no setor, período em que acumulou perda de 3,7%.

O IBGE lembra que os preços dos combustíveis acumularam aumento de 23,7% nos 12 meses encerrados em janeiro, enquanto a alimentação no domicílio ficou 14,2% mais cara no período, de acordo com os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), cuja taxa foi de 10,7%.

"Em termos de preços, a gente pode creditar uma pressão maior nos supermercados e nos combustíveis. Essas atividades vêm com evolução de preços acima da média da inflação. Então a pressão dos preços inibe as vendas, é um fator que reduz o poder de compra", justificou a pesquisadora.

No caso de móveis e eletrodomésticos, o crédito mais caro e restrito afeta o desempenho da atividade. A taxa de juros ao crédito para pessoas físicas subiu de 32,4% ao ano em janeiro de 2015 para 39,2% ao ano em janeiro de 2016, de acordo com os dados do Banco Central.

Além disso, a massa real de salários em circulação no País diminuiu 10,4% entre janeiro do ano passado e janeiro deste ano. No mesmo período, o número de trabalhadores com carteira assinada recuou 2,8%. "Os consumidores estão mais endividados e com uma renda menor. Esse quadro macroeconômico teve impacto (sobre o varejo)", concluiu Isabella.

Queda espalhada

De acordo com o IBGE, todas as atividades do comércio varejista registraram queda nas vendas em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. O volume vendido recuou 10,3%, a décima taxa negativa consecutiva e a mais acentuada desde março de 2003 (-11,4%).

O mês de janeiro de 2016 teve apenas 20 dias úteis, um dia útil a menos do que janeiro de 2015. No entanto, a generalização dos resultados negativos mostra que o efeito calendário não pesou de forma tão significativa.

"O resultado está suportado por um desempenho negativo de várias atividades", afirmou Isabella Nunes. "O mês de janeiro tradicionalmente não é bom para as vendas, porque concentra a maior parte das férias, concentra pagamento de tributos. Mas este mês de janeiro acabou sendo o mais negativo da série histórica", complementou a pesquisadora.

O setor de Móveis e eletrodomésticos, com queda de 24,3% em janeiro ante janeiro de 2015, deu a principal contribuição negativa para a taxa global. A atividade registrou no mês o pior desempenho da série histórica da pesquisa, iniciada em 2001.

"Móveis e eletrodomésticos têm uma dinâmica mais ligada a crédito, que está mais caro e mais restrito", lembrou Isabella.

O segundo maior impacto sobre o recuo global do varejo veio da queda de 5,8% nas vendas dos Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, seguido por Combustíveis e lubrificantes, com redução de 14,1%, também a mais acentuada da série histórica para a atividade.

Os demais resultados negativos foram de Outros artigos de uso pessoal e doméstico (-12,5%); Tecidos, vestuário e calçados (-13,8%); Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (-24,0%); Livros, jornais, revistas e papelaria (-13,3%); e Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (-0,2%).

No comércio varejista ampliado, o recuo de 13,3% foi o mais acentuado da série histórica da pesquisa, em função das perdas de Veículos, motos, partes e peças (-18,9%) e de Material de construção (-18,5%, também a maior queda da série).

Perda acumulada

Os últimos dois meses de retração nas vendas fez o comércio varejista acumular uma perda de 4,1% apenas em dezembro e janeiro, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio. Em janeiro, o varejo recuou 1,5% em relação ao mês anterior, após já ter apresentado queda de 2,7% em dezembro.

A taxa acumulada em 12 meses ainda atingiu a perda mais acentuada da série histórica da pesquisa, iniciada em 2001, ao recuar 5,2%."As vendas no varejo estão 10,8% abaixo do pico registrado em novembro de 2014", lembrou Isabella Nunes.

No varejo ampliado, que inclui as atividades de veículos e material de construção, as vendas estão 17,7% abaixo do pico registrado em agosto de 2012.