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Sem ajustes, País pode crescer 1% ao ano na próxima década, diz Meirelles

(Foto: Alexandre Campbell/ Forum World Economic) - Sem ajustes, País pode crescer 1% ao ano na próxima década, diz Meirelles
(Foto: Alexandre Campbell/ Forum World Economic)

O ex-presidente do Banco Central (BC) durante o governo Lula, Henrique Meirelles, acredita que o Brasil poderá encerrar 2016 com uma queda de até 4% no Produto interno Bruto (PIB), atingindo a maior recessão da história após o resultado negativo no ano passado (-3,8%). Ao traçar cenários para a economia no longo prazo, Meirelles afirmou que, mantida a incerteza fiscal, o País terá crescimento baixo na próxima década, de 1% ao ano. Em um cenário com reformas esse patamar poderia subir a 4% ao ano em média, afirmou em palestra no Rio, onde abriu a Super Expofood.

Cotado para voltar ao governo, o ex-presidente do BC destacou que o alto nível de reservas internacionais acumulado nos últimos anos é muito importante e dá tempo ao governo para realizar o ajuste do setor externo, em sua opinião relativamente avançado com ajuda da depreciação cambial e a desaceleração da economia.

"Reservas são muito importantes e é muito positivo que o Brasil tenha acumulado essas reservas, que são um colchão de liquidez", disse.

Nos últimos dias voltou à tona a possibilidade do governo queimar reservas para abater a dívida do País. Ontem, contudo, a presidente Dilma Rousseff afirmou que elas não serão usadas a não ser para a proteção do País de flutuações internacionais. "É importante que o nível de reservas seja mantido", repetiu Meirelles.

As especulações em torno de um convite a Meirelles para voltar ao governo, no Banco Central ou até mesmo na Fazenda, cresceram com a notícia da chegada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto como ministro-chefe da Casa Civil. O economista saiu do evento no Rio sem falar com a imprensa.

O cenário de Meirelles para 2016 é de inflação persistentemente alta e retração econômica. O mercado prevê no boletim Focus uma queda de 3,7% no PIB, que na visão de Meirelles pode se aprofundar a 4%, levando em conta o carry over de 2015. "(a projeção) Já está com uma recessão grande e não podemos subestimar isso. Pode chegar a ser a maior recessão da história do Brasil", afirmou. "O desafio maior é porque existe de fato muita incerteza", completou.

O primeiro cenário traçado por Meirelles prevê a solução de "questões de curto prazo", mas sem preocupação com a questão fiscal, levando a um crescimento de apenas 1% ao ano em média na próxima década. O cenário básico, com ajuste fiscal mas sem reformas, seria de crescimento de 2% ao ano.

Para Meirelles, a única chance de elevar essa perspectiva a 4% ao ano é realizar reformas como a tributária e a previdenciária "no sentido de gerar mais eficiência trabalhista", o que é combatido por parte do PT. Ele defendeu ajustes em despesas como as vinculadas e previdenciárias como fundamentais para equilibrar a curva da dívida líquida do País e evitar que volte aos patamares de 2002, quando atingiu 60% do PIB.

Meirelles disse que o País vive um quadro de inflação elevada e resiliente, mas que não há problema estrutural que impeça a inflação de convergir para perto da meta. "(controlar) A inflação é um desafio. A boa notícia é que o Brasil já fez isso", disse.

O ex-presidente do BC diz que as expectativas de inflação em torno de 7,5% em 2016 é muito forte, principalmente levando em conta o cenário de paralisia na economia. "O Brasil é um dos poucos países no mundo que se preocupam com inflação em meio a uma recessão forte", disse.

Em sua análise de longo prazo, ele destacou a escala de consumo, a inclusão da classe média e a estabilidade política medida pela força das instituições como vantagens do País frente a outros emergentes. O recado foi dado em um momento de queda de braço entre os poderes.

"Ninguém tem dúvida que vai acontecer eleição e que os eleitos vão tomar posse. As instituições funcionam, a imprensa é livre, a Justiça independente. Coisas que muitos emergentes não têm. A médio e longo prazo isso tem efeito importante para o País. Isso é um ganho da democratização", declarou.