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Sem bancos, empresas do Ibovespa teriam registrado primeiro prejuízo da era real

O lucro conjunto dos quatro maiores bancos listados na Bolsa brasileira impediu que o grupo de empresas que compõem o Ibovespa registrasse um inédito prejuízo consolidado em 2015. Sem considerar as instituições bancárias, as empresas do Ibovespa reportaram prejuízo anual de R$ 29,75 bilhões, um dado negativo que ainda não havia sido apurado desde o início do plano real. Quando incorporado o lucro de R$ 61,95 bilhões dos bancos em 2015, o resultado consolidado das 58 companhias do Ibovespa ficou no azul em R$ 32,20 bilhões, 63,4% menor do que o número do ano anterior.

Os dados do ano passado são um reflexo da paralisia da atividade econômica brasileira, agravada por um ambiente de queda dos preços das commodities no mercado internacional. Por parte dos bancos, entretanto, houve melhora dos resultados sustentada na elevação dos spreads bancários (diferença de quanto o banco paga para captar e quanto cobra para emprestar) e nos ganhos com tesouraria e tarifas.

Levantamento do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, com base em dados consolidados da Economática aponta que desde 1994, ano de adoção do real, o grupo de empresas que atualmente compõem o Ibovespa registrou prejuízo apenas em 1995 e 1996. Em ambos os casos, contudo, o balanço negativo teve origem no sistema bancário, e não o contrário. No conjunto das empresas da chamada "economia real", o pior resultado havia sido o lucro consolidado de R$ 2,6 bilhões reportado em 1995.

Desde 1997, entretanto, os bancos e o grupo formado pelas demais empresas sempre registraram lucro consolidado, uma tendência interrompida no ano passado em função, principalmente, dos prejuízos históricos da Vale (R$ 44,21 bilhões) e da Petrobras (R$ 34,84 bilhões). Mas não foram apenas as duas gigantes que registraram perdas, 12 (21% do total) empresas terminaram 2015 no vermelho. Em 2014, ano em que o lucro consolidado das 58 empresas estudadas havia alcançado R$ 88,04 bilhões, cinco (8,6% do total) reportaram prejuízo.

De acordo com o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, a dificuldade enfrentada pelas empresas em 2015 tem origem na situação econômica. A falta de confiança dos consumidores e dos empresários, a redução dos investimentos, o aumento do desemprego, a queda da renda, a elevação da inflação e o acesso restrito ao crédito, entre outros pontos, estão por trás do prejuízo consolidado de indústrias, redes varejistas e prestadoras de serviços.

Os bancos, na contramão, conseguiram aumentar a rentabilidade a despeito do momento econômico. "A lucratividade dos bancos se descola do resto da economia porque eles têm instrumentos para arrefecer o processo negativo da atividade econômica. Eles conseguem ampliar o retorno a partir do aumento de margens em operações de crédito e de ganhos de tesouraria quando a Selic aumenta", pontua Cagnin. "Além disso, têm um volume importante de receita vindo das tarifas bancárias, uma fonte menos cíclica diante da contração ou expansão da economia", complementa.

Dados do Banco Central revelam que o spread bancário médio no crédito livre do sistema nacional fechou 2015 em 32,1 pontos porcentuais. Em dezembro de 2014, a taxa estava em 20,4 p.p. A trajetória ascendente permanece neste ano, com o spread bancário em 35,8 p.p. no mês passado, alta de quase quatro pontos em relação a dezembro. Na prática, explica Cagnin, os bancos converteram os ganhos obtidos com o volume de crédito concedido nos anos anteriores em ganhos com a margem por operação nos últimos meses.

Os maiores spreads bancários representam mais um fator de preocupação para as empresas da "economia real", cujo acesso a recursos tende a ser agravado também pela exclusão do Brasil da lista de países com grau de investimento concedido pelas principais agências de rating do mundo. Na terça-feira passada, o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, reduziu de 7% para 5% a previsão de aumento do estoque de crédito em 2016.

Ambiente

O prejuízo inédito das empresas brasileiras teve origem, principalmente, no ajuste no valor dos ativos das empresas do segmento de commodities, um processo conhecido como impairment. Essa correção contábil sustentou o prejuízo consolidado de quase R$ 80 bilhões de Vale e Petrobras em 2015, mas não deve se repetir nas mesmas proporções neste ano.

"A China está tentando implementar políticas que amenizem a desaceleração do crescimento e o preço das commodities (minério e petróleo) deu uma leve subida no início de ano. Por isso não devemos ver essas mesmas perdas (com impairment) em 2016", destaca o economista da GO Associados, Luiz Fernando Castelli.

Entre os bancos, por outro lado, o cenário pode apresentar deterioração em relação ao ambiente encontrado no ano passado. "Os bancos elevam os spreads de forma a cobrirem possível trajetória de alta da inadimplência no futuro. A inadimplência subiu em 2015, mas de forma moderada", relembra Cagnin. "Agora, diante de mais um ano de recessão, há o risco de haver maiores impactos sobre a inadimplência", complementa. A Fecomercio-SP estima que a inadimplência no crédito livre saltará de atuais 5,5% para 7% no fim do ano.

A piora da inadimplência é apenas mais uma das faces do momento econômico brasileiro, que deve continuar adverso neste ano. "O que temos visto é a continuidade dessa tendência. A atividade fraca, o consumo deteriorado e a expectativa, ainda, de contração do PIB", ressalta a vice-presidente da Moody´s, Barbara Mattos.

Representatividade

Em entrevista concedida no mês passado, o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, salientou que os bancos são igualmente afetados pelo atual momento econômico. "Os bancos também perdem com a recessão. A inadimplência está subindo por conta da recessão no Brasil", disse.

Os balanços das empresas mostram, contudo, que a participação dos bancos no resultado global das empresas brasileiras ganha relevância justamente em anos de crise, como ocorreu em 1999 (crise cambial) e 2002 (crise pré-eleição de Lula).

Já os únicos prejuízos consolidados das grandes empresas na era Real ocorreram em 1995 e 1996, os dois anos seguintes à adoção do plano real. Em ambos os anos, o prejuízo teve origem nas contas do Banco do Brasil - o Santander ainda não divulgava resultados de sua operação brasileira e Itaú e Unibanco eram empresas distintas. A instituição utilizou os dois anos para fazer provisionamentos bilionários relativos a operações de créditos de liquidação duvidosa e chegou a ser socorrido pelo governo federal, com aporte de R$ 8 bilhões.