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Sindicato repudia Rabello de Castro na presidência do IBGE e não descarta greve

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ASSIBGE-SN) divulgou nesta quarta-feira, 1, nota de repúdio à escolha do economista Paulo Rabello de Castro para ocupar a presidência do órgão em substituição à atual presidente Wasmália Bivar.

Desde que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência da República, em 2003, o IBGE tinha apenas técnicos e funcionários de carreira na liderança do órgão. Wasmália, que assumiu em 2011, foi antecedida por Eduardo Pereira Nunes, que esteve à frente do IBGE de 2003 a 2011. Antes deles, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o instituto foi presidido por Sérgio Besserman Vianna e Simon Schwartzman.

Em nota, a executiva nacional da ASSIBGE-SN critica as ligações de Rabello de Castro com o mercado financeiro. Os servidores se reúnem em assembleias a partir desta quinta-feira, 2, mas as discussões nos 32 núcleos do IBGE pelo País se prolongarão durante a próxima semana. O objetivo é debater o tipo de estratégia de resistência e mobilização que será adotada pelos trabalhadores, o que pode incluir greve e paralisações.

"A greve não está descartada, mas não está definida a priori, vai depender das assembleias", contou Dione de Oliveira, integrante da executiva nacional do sindicato.

O documento da ASSIBGE-SN lembra que Rabello de Castro é fundador da classificadora de riscos SR Rating, além da consultoria RC Consultores, empresa de previsão econômica e análises de mercado. "Consideramos um retrocesso a indicação de uma pessoa de fora dos quadros da instituição para ocupar sua presidência", declarou o sindicato dos servidores do IBGE.

Ainda não há previsão para a posse do economista, mas uma reunião de transição com a atual presidente foi marcada para 10 de junho. Wasmália declarou que o processo de substituição do comando na instituição foi "pouco protocolar". "Quando fui desligada (da Presidência), não estava esperando mais. Eu já havia sido confirmada no cargo", disse Wasmália a jornalistas.

A atual presidente soube que seria destituída do cargo através da imprensa. "Fiquei sabendo pela imprensa. Depois, Paulo Rabello de Castro (futuro presidente do IBGE) me ligou, e só mais tarde o ministro interino Dyogo Oliveira (do Planejamento, ao qual o IBGE é subordinado)", relatou.

Embora esteja atualmente em viagem de negócios à Holanda, o Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, apurou que Rabello de Castro cancelou todas as palestras que estavam agendadas assim que soube que estava designado para o cargo no IBGE.

Rabello de Castro é próximo ao presidente interino Michel Temer e chegou a ter seu nome cogitado para assumir cargos nos ministérios do Planejamento e Fazenda.

Na avaliação de Wasmália, a proximidade entre Temer e Rabello de Castro pode trazer uma vantagem para o IBGE, uma vez que o órgão atravessa dificuldades financeiras. No entanto, ela pondera que os princípios da imparcialidade do trabalho do instituto devem ser respeitados.

"Nos já entendemos que o novo presidente do IBGE tem acesso direto ao presidente da República. Isso pode trazer vantagens. Ele pode levar as necessidades, pode representar uma tremenda vantagem institucional porque pode trazer recursos de que a casa tanto necessita", declarou Wasmália.

A presidente do órgão disse não acreditar que a indicação de alguém tão próximo a Temer e sem relação com o instituto configure uma interferência política no órgão. "O fato de eu estar me dispondo a me reunir com o (futuro) presidente do IBGE é porque não estou encarando como uma indicação política", disse ela.

Rabello é presidente do Instituto Atlântico, entidade de políticas públicas fundada em 1993, e coordena o Movimento Brasil Eficiente, que defende a simplificação da carga tributária e mais eficiência dos gastos públicos. Ele também integra o Comitê de Gestão do Lide - Grupo de Lideres Empresariais, além de ser membro do Conselho de Administração de grupos empresariais nacionais e internacionais.

Em entrevista concedida em maio ao Broadcast, Rabello de Castro defendeu a criação de uma "Nova Previdência", em que o contribuinte teria a opção de destinar a contribuição ao INSS para a composição de um fundo, do qual seria cotista, e que funcionaria nos moldes de uma previdência privada. O Tesouro Nacional poderia sacar os recursos lá depositados, sob a condição de emitir Obrigações Sociais do Tesouro Nacional (OSTNs), uma espécie de título com remuneração equivalente à da poupança.

A ASSIBGE-SN questionou, em nota, as possíveis contribuições que "um empresário, aguerrido defensor do 'mercado' e da 'eficiência das despesas públicas'" daria ao IBGE. O sindicato defende a realização de eleições diretas para a presidência do órgão.

"A única saída para a crise do IBGE é ampliar a participação democrática da categoria nos rumos da instituição", argumenta a nota, lembrando os problemas financeiros e de falta de pessoal que levaram ao adiamento ou cancelamento de pesquisas que seriam conduzidas pelo instituto, como o Censo Agropecuário.