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Chanceler da Venezuela vai sem convite a reunião do Mercosul e divide o bloco

A chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, chegou de surpresa a uma reunião emergencial convocada para discutir nesta segunda-feira, em Montevidéu, o futuro de Caracas no Mercosul. Sua aparição imprevista e sua saída intempestiva causaram desconforto e aumentaram a divisão no bloco. Ao sair do ministério de Relações Exteriores, Delcy afirmou que a presidência temporária do Mercosul, com rotatividade semestral, seria transferida nos "próximos dias" para a Venezuela. Foi desmentida uma hora depois pelos representantes dos demais países.

Até mesmo o Uruguai, que insiste isoladamente na passagem imediata da coordenação do bloco para o governo de Nicolás Maduro, disse que o impasse continua. "Vamos dar mais uns dias para que cada país reveja sua posição. Por enquanto, cada um manteve a sua", afirmou o chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa.

Ao ingressar no prédio da chancelaria, no centro de Montevidéu, Delcy defendeu a transferência imediata da presidência do bloco a Caracas e criticou "os maus modos da direita", referindo-se à oposição de Brasil, Argentina e Paraguai. Duas horas depois, cercada por 50 jornalistas, garantiu que o tema estava decidido. Não foi levada a sério.

"Ratificamos o direito que a Venezuela tem, conforme os tratados constitutivos do Mercosul, de receber a presidência. Será nos próximos dias. Tratamos tanto com o presidente Nicolás Maduro quanto com o presidente uruguaio Tabaré Vázquez e o chanceler Nin Novoa", disse.

As palavras de Delcy foram desmentidas em uma declaração conjunta pelos demais. O desconforto com sua chegada foi revelado por assessores das comitivas, que souberam pela manhã de sua presença na cidade. Ela chegou na noite anterior e se reuniu com integrantes da Frente Ampla, coalizão de centro-esquerda que sustenta o governo de Tabaré.

O Brasil foi representado na reunião convocada pelo Paraguai pelo embaixador Paulo Estivallet, subsecretário-geral de América do Sul, Central e Caribe. "Nunca vi algo assim", disse, referindo-se à chegada surpresa de Delcy no encontro. O chanceler José Serra (PSDB-SP) alegou ter outros compromissos agendados. Ele esteve na semana passada no Uruguai para propor o adiamento para agosto de uma decisão sobre a passagem da chefia do Mercosul a Caracas. Estivallet disse que não houve concordância do Uruguai em relação à proposta brasileira.

O governo de Nicolás Maduro tem até o dia 12 para prestar contas sobre sua adesão a cerca de 500 tratados e normas. Não há sanção prevista para quem não cumpra o exigido, mas Paraguai e Brasil condicionam a posse ao seguimento dessas normas. Delcy refutou também a possibilidade de adiamento.

"Adiar seria uma violação aos tratados do Mercosul. A direita da região não quer reconhecer as normas que regem o funcionamento das instituições. Só se estabelece que, depois de um semestre, há passagem da presidência em ordem alfabética", afirmou.

No domingo, em entrevista ao Estado, o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, disse que faltava a Caracas adequar-se a várias normas e tratados e isso seria discutido na reunião. "Não há outra solução que não seja cumprir todas que nós atendemos", afirmou. Nesta segunda-feira, aparentando irritação com o resultado da reunião, ele reiterou as crítica e justificou a ausência da Venezuela entre os convidados. "Estava prevista a participação dos membros fundadores", disse.

Delcy alega que Paraguai e Brasil estão em situação pior em relação ao cumprimento das legislações exigidas pelo Mercosul. Ela não apresentou dados que balizassem suas afirmações e fez uma provocação aos representantes dos dois países na reunião. "Eles se esconderam no banheiro, não quiseram mostrar a cara à Venezuela. Foi uma vergonha."

Segundo integrantes da delegação paraguaia, Delcy não viu os representantes dos dois países na sala reservada para a reunião porque não estava convidada a entrar. Ela se encontrou com o chanceler uruguaio, Nin Novoa, e com o enviado argentino, o vice-chanceler, Carlos Foradori. Zoilaga brincou com a acusação de Delcy. "Se fui ao banheiro, foi por uma necessidade fisiológica". Estivallet também disse ter encarado a provocação com bom humor.