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Calçadas no entorno da prefeitura causam transtornos para pessoas com deficiência visual

Calçadas no entorno da prefeitura causam transtornos para pessoas com deficiência visual

Tinha tudo para ser um dia normal na vida de Luiz Gustavo. Ele estava andando com uma amiga pela pista tátil do calçadão da rua XV de Novembro, tudo poderia dar certo, mas os dois são cegos. Confiando na direção apontada pela pista, ele seguia tranquilamente até que o inesperado aconteceu.

A pista levou ele até o chafariz que fica entre a alameda Muricy e a avenida Marechal Floriano Peixoto. “Como ela estava desligada e não havia nenhuma sinalização ou obstáculo, não ouvimos o barulho da água e acabamos caindo dentro do chafariz. Eu e a minha amiga nos machucamos, mas não foi nada grave”, contou.

O acidente aconteceu em 2014. A reportagem do Massa News foi até o local e constatou que pelo menos a pista tátil foi refeita: agora, ao invés de terminar no chafariz, ela dá a volta no mesmo. No entanto, não demorou muito tempo para que novas irregularidades fossem encontradas há poucos metros dali.

A tradicional Feira de Inverno, que começou neste mês de junho, leva centenas de pessoas interessadas em adquirir produtos de artesanatos ou comer comidas típicas de diversos cantos do país e do mundo. No entanto, para quem tem deficiência visual, e se usasse a pista tátil isso é um tanto quanto arriscado.

Isso porquê, as barracas montadas estão exatamente em cima das pistas táteis que passam pelo meio da praça Osório. Com isso, há duas opções para as pessoas com deficiência visual: arriscar passar pelo meio da feira e encarar a grande quantidade de pessoas ou desistir e passar pela pista lateral, deixando a feirinha de lado.

(Foto: Lucas Karas/Massa News)(Foto: Lucas Karas/Massa News) 

Uma situação similar pode ser observada em outro lugar inusitado: em frente à sede da Prefeitura de Curitiba. Por lá, o problema não são os obstáculos sobre as pistas, mas sim a direção que elas levam. Nos dois lados da rua, a pista tátil termina em um gramado. Ou seja, se a pessoa com deficiência visual confiar, poderá acabar caindo sobre a grama.

Pista tátil em frente à prefeitura leva o deficiente visual ao gramado (Foto: Lucas Karas/Massa News)Pista tátil em frente à prefeitura leva a pessoa com deficiência visual ao gramado (Foto: Lucas Karas/Massa News) 

No outro lado da rua, o mesmo problema (Foto: Lucas Karas/Massa News)No outro lado da rua, o mesmo problema (Foto: Lucas Karas/Massa News) 

Atravessando a rua, mais um problema com pista tátil chamou a atenção. Neste caso, tudo já começa na guia rebaixada para pessoas com mobilidade reduzida, que fica de frente para uma vaga de estacionamento - que inclusive estava ocupada no momento em que a reportagem comprovou a situação.

Se, mesmo assim, a pessoa com deficiência visual conseguir acessar a pista tátil, novamente estará correndo um risco. Afinal, a pista termina na grade do prédio do Tribunal de Justiça do Paraná e não há nenhuma sinalização alertando o perigo. Aqui vale uma explicação técnica: as faixas horizontais significam “siga” e a sinalização de círculos significa “atenção”.

Na frente do TJ, além da guia rebaixada estar em uma vaga, a pista termina em uma grade (Foto: Lucas Karas/Massa News)Na frente do TJ, além da guia rebaixada estar em uma vaga, a pista termina em uma grade (Foto: Lucas Karas/Massa News) 

Para Lilian Merege Biglia, professora de orientação e mobilidade do Instituto Paranaense dos Cegos, isso é um problema grave. “Isso é um absurdo, uma falta de respeito e de bom senso por parte da prefeitura de Curitiba”. Ela defende que não adianta implantar pistas táteis enquanto não houver uma melhoria nas calçadas públicas para todos os cidadãos. “Eles ficam gastando dinheiro público com essas pistas e deixam de investir nas calçadas, que deveria ser o foco principal.”

De acordo com Lilian, a pista tátil é uma boa solução, desde que haja uma estrutura acessível e a cooperação de todos os setores da sociedade. “As calçadas precisam ser lisas, retas e principalmente sem obstáculos. Quando estou ensinando meus alunos a andar pelas pistas táteis, canso de presenciar placas do comércio e outros objetos impedindo a passagem.”

Segundo a professora, o problema é que as pessoas se preocupam com o politicamente correto e acabam pensando de uma maneira generalista. “Quando falamos em calçadas acessíveis, não estamos defendendo apenas o interesse das pessoas com deficiência. Mas sim de toda a sociedade, desde o cego até a mãe que precisa andar com o carrinho nas calçadas irregulares de Curitiba”, afirmou.

A professora citou a Espanha como um exemplo a ser seguido. "Todo o mobiliário urbano fica dentro dos prédios ou próximo ao meio fio. Os barzinhos colocam suas mesas e cadeiras em um local que não atrapalha o passeio. O telefone público é do tipo cabine que começa do chão, o que assegura que um cego não vai bater a cabeça, como acontece aqui no Brasil com os orelhões." 

Ela explicou que por lá, quem define e orienta a prefeitura quanto à acessibilidade das ruas e das calçadas é o professor de Orientação e Mobilidade da Once (organização dos Cegos da Espanha. "Com uma calçada assim, nem precisamos de pista tátil. Mas ela continua sendo excelente em outras estruturas, como no metrô, por exemplo", explicou. 

A professora citou o exemplo da calçadas na Espanha (foto), que são lisas e com obstáculos próximos à rua, facilitando a vida do deficiente visual (Foto: Lilian Biglia)A professora citou o exemplo das calçadas na Espanha (foto), que são lisas e com obstáculos próximos à rua, facilitando a vida da pessoa com deficiência visual (Foto: Lilian Biglia) 

Além disso, ela afirma que se a pessoa com deficiência visual for depender apenas da pista tátil, só vai andar em alguns trechos do centro de Curitiba. “Nos bairros mais afastados há pouquíssimas pistas voltadas para os cegos. E mesmo na região central, não há nenhuma interligação total das pistas que possibilite ele ir para qualquer lugar do Centro.”

Para Luiz Gustavo - o rapaz que foi traído pela pista tátil -, a falta de fiscalização e de manutenção das calçadas é um problema. “A gente sempre precisa andar com cautela, porque sempre há algum obstáculo. Eu até decorei os buracos no Centro para evitar me machucar”, relatou. “A solução ideal seria cuidar melhor das calçadas e fazer algo que beneficiasse a todos, ao invés dessas soluções paliativas”, destacou.

Em entrevista para a Rede Massa, Jaqueline da Silva, coordenadora do mobiliário urbano da Prefeitura de Curitiba, afirmou que não há nada de errado na forma como a pista foi construída na frente da prefeitura e na grade do TJ. “O que está executado lá é exatamente a orientação que a norma nos dá. Ali, ele (a pessoa com deficiência visual) teria condições pelo alinhamento predial, quer seja um gradil, quer seja um meio fio, de balizar (com a bengala).”

A professora Lilian não concorda com o posicionamento da prefeitura. “Eles estão seguindo a norma, mas não têm bom senso ao construir daquela forma. É uma desvirtuação, já que a pista tátil tem o objetivo de direcionar e não complicar a vida do deficiente visual. Novamente, é uma falta de respeito”, finalizou.

Em nota, a Secretaria Municipal de Trânsito (Setran) informou que, "no caso dos pisos táteis na região da Prefeitura e Tribunal, vai verificar os locais indicados e, se necessário, irá rever os projetos e fazer as alterações necessárias."