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Improvisadas e sucateadas, 'delegacias-cadeias' são panela de pressão no Norte do Paraná

(foto: Ghabiru Sperandio/Conselho Comunitário de Segurança de Arapongas) - Improvisadas e sucateadas, 'delegacias-cadeias' são panela de pressão no Norte do Paraná
(foto: Ghabiru Sperandio/Conselho Comunitário de Segurança de Arapongas)

Calor, falta de espaço, goteiras, estruturas danificadas, falta de camas, mofo, sujeira. Funcionários sobrecarregados, fugas e rebeliões. O cenário parece um inferno para a maioria das pessoas, mas é a realidade de grande parte das delegacias do norte paranaense. Segundo dados da Secretária da Segurança Pública (Sesp), são quase dez mil detentos em delegacias da polícia civil ao redor do estado. Desse número, cerca de 70% são provisórios, com quase três mil  já condenados.

A delegacia de Jaguapitã (46 km de Londrina), por exemplo, tem uma capacidade para suportar apenas 12 presos, porém atualmente a população carcerária da cidade é mais que o triplo. “O policial é até lixeiro por aqui. Fazem tudo, limpam, dão comida para os presos, fazem boletim de ocorrência. Estas não são as funções deles. Eles precisam investigar, é uma situação insustentável”, lamenta o delegado Maurício de Oliveira Camargo.

Falta de estrutura

Há outros problemas que povoam as “delegacias-cadeias”. Em Primeiro de Maio (61 km de Londrina), apesar de a população carcerária ser o dobro da que a delegacia suporta, o maior problema é estrutural. “Nós somos um presidio que não deu certo. Já fomos obrigados a fazer diversas reformas aqui. Reforçamos o teto, colocamos cerca elétrica, aumentamos o muro”, aponta o delegado Marcos Paulo. O local é uma casa adaptada, com toda a estrutura de uma residência comum. O jardim que decora o quintal com a cerca branca de cerca dois metros de altura sugere uma residência familiar. Mas lá, mais de duas dúzias de criminosos se espremem em “quartos”. 

No ano passado, quase oito mil detentos foram transferidos das delegacias para as cadeias públicas. A média de transferência por semana, segundo a secretaria, varia entre 100 e 150 detentos.

Indisciplina

Todos os anos são registradas fugas e rebeliões nas cadeias improvisadas. Na última quarta-feira (27), dez presos fugiram da delegacia civil de Assaí. O policial estava na cozinha quando foi surpreendido por quatro criminosos armados que o renderam e o agrediram, obrigando a abrir as celas. Apenas um foi capturado.

Damião Benassi é o delegado de Assaí e Uraí ao mesmo tempo. Ele se desdobra para atender as duas cidades, mas, segundo ele, quem mais sofre é a população. “A fila de espera para quem vai fazer um boletim de ocorrência chega a quatro horas. Imagina você ser assaltado, ter um carro roubado e esperar tanto tempo na fila para fazer um BO? Além da insegurança de ter criminosos que podem fugir a qualquer momento, tão próximos da população”, completa.

Junto e misturado

Outro problema comum às delegacias da região é a mistura de presos considerados de alta periculosidade com outros detentos que cometeram crimes considerados mais leves.

“Não temos estrutura para separar, eles se misturam. O ladrão de grande perigo convence o ladrão pequeno, que não tem histórico, a entrar nas brigas, ajudar nas fugas. Essa situação tira a essência da cadeia de devolver o criminoso renovado para a sociedade”, relata o delegado de Siqueira Campos, Juliano Fonseca, que administra 38 presos na delegacia. Segundo o delegado, somente no ano passado foram registradas duas tentativas de fuga. “Eles estavam tentando fugir com uma faca. Quase cortando o teto e nós não temos estrutura para impedir. Impossível”, desabafa o delegado.

Soluções

A saída para o problema das “delegacias-cadeias” é complexa. Os profissionais da área divergem quanto as medidas a serem tomadas pelas autoridades. O investigador de Bela Vista do Paraíso (40 km de Londrina) Wilson Lima defende a construção de novos presídios. “Estamos cheios de liminar aqui. Verba para melhoria de estrutura, para a transferência de detentos, cansamos de pedir. O governo tem que dar um jeito de construir penitenciarias. Do jeito que está não dá mais para ficar”.

Já Marcos Paulo, delegado de Primeiro de Maio (61 km Londrina) defende a transferência de agentes penitenciários para as delegacias civis. “Os investigadores não têm esse preparo. Agentes penitenciários são profissionais preparados para isso. Temos que desafogar os policias e contornar essa situação. As ‘delegacias–cadeias’ precisam ser extintas”.

Resposta

A Secretaria de Segurança do Estado afirma que há avanços no sistema penitenciário do estado. A adoção das tornozeleiras eletrônicas é um exemplo disso. A medida é adotada para aqueles presos que cometeram crimes de menor potencial e passam a ser monitorados a partir do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) da Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária. O número de presos monitorados subiu de 500 no início de 2015 para mais de 2,5 mil este ano. A secretaria afirma ainda, que diversas reformas de ampliação estão sendo feitas ao redor do estado.

(Colaboração: Danilo Brandão/Massa News)