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Jovem não consegue fazer denúncia de racismo e caso já vira 'novela'

(Foto: Divulgação) - Jovem não consegue fazer denúncia de racismo e caso já vira 'novela'
(Foto: Divulgação)

Uma jovem utilizou as redes sociais nesta segunda-feira (20) para denunciar um caso de racismo sofrido por sua irmã na sexta-feira (17), dentro da linha Interbairros IV, em Curitiba, entre 18h e 18h20. De acordo com o relato, um passageiro da linha começou a insultar a menina, disseminando palavras de ódio, além de tentar agredi-la e cuspir em seu rosto.

“Ele a chamou de ‘macaca’, ameaçou de morte, perguntou se nossos pais eram ‘macacos’, disse que na terceira guerra mundial faria questão de matá-la, perguntou quanto tempo ela ficou no sol para ser tão ‘preta’ e falou coisas horríveis”, descreve o relato publicado na rede social.

Em entrevistas ao Massa News, a internauta que não quis se identificar contou que sua irmã estuda no Colégio Estadual do Paraná, faz Técnico em Edificações, e neste dia teve uma aula especial no canteiro de obras em Santa Felicidade. “Ela estava voltando da aula, no ônibus Interbairros IV, saindo do terminal do CIC”, disse. O homem entrou no ônibus por volta das 18h, no terminal do Fazendinha. “O indivíduo viu ela e começou a fazer os insultos nazistas”.

A jovem ainda contou que o indivíduo tentou agredir a menina fisicamente. Os outros passageiros não fizeram nada, mas seus amigos, todos menores de idade, a cercaram e não deixaram o homem se aproximar. “Como não conseguiu chegar perto, ele cuspiu na cara dela”. O homem desceu no Terminal do Pinheirinho. De acordo com a vítima, ele era alto, branco e tem cerca de 35 anos. Estava vestido com uma calça bege e uma camiseta azul.

Novela nas delegacias

Assim que chegou em casa, a vítima contou o ocorrido à família, que logo registrou boletim de ocorrência (B.O.) no Centro Integrado de Atendimento ao Cidadão (Ciac-Sul). Lá, foram orientados a ir ao Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), o que só pode ser feito nesta segunda-feira (20), já que o local funciona em horário comercial, de segunda à sexta.

“Apesar de orientar a vítima e a família a irem ao Nucria, o B.O. foi encaminhado pelo Ciac-Sul à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa no centro de Curitiba. Provavelmente um erro ou um descaso do funcionário do Ciac-Sul que estava de plantão”, disse a advogada da família.

Dessa forma, a família foi ao Nucria na segunda-feira, como orientados. “Ao chegar ao Nucria os funcionários se recusaram atender, alegando incompetência, que só atendiam casos de violência contra criança e adolescente no caso ‘abuso sexual’”. O local encaminhou a família ao 13º Distrito Policial, no Tatuquara. “Chegando lá, foram informados que não eram competentes porque o agressor não está identificado. E que era para irem na delegacia de homicídios porque era onde o B.O. estava”, relata a advogada.

Assim, a família foi até a delegacia de homicídios e, de acordo com a advogada, ouviu a mesma frase de todas as outras vezes, de que o local não teria a competência para receber o caso. Novamente a vítima foi encaminhada para outra delegacia, o 11º DP, localizado na CIC, onde também não puderam resolver o caso.

“Nós não somos competentes. Isso é com o Nucria”, disse o atendente do 11º DP. A família exigiu que ligassem para o Nucria e informassem isso, e novamente o local disse que não poderia atender o caso. “É essa a novela da (in)competência, não pelo simples fato de não quererem instaurar o inquérito e colher as provas, mas principalmente pelo descaso com que lidam com a situação, não sabem instruir as vítimas, não conhecem as suas próprias competências não estão prestando um favor é o trabalho deles”, desabafou a advogada.

Agora o caso está com o Ministério Público do Paraná (MPPR), para o que o inquérito seja instaurado e as provas colhidas.

A advogada ainda alerta. “Quando presenciar esse tipo de crime, não se cale, não seja omisso, não seja convivente com o ato em silêncio, registre, tente tirar fotos, não permita que agrida uma pessoa indefesa, esse fato aconteceu dentro de um coletivo cheio e apenas os amigos da vítima se manifestaram contra o agressor, um ônibus cheio de outras pessoas e todas indiferentes? Porque só nos importamos quando é com a gente?”

Até o momento, o relato da jovem na rede social tem mais de 300 curtidas e 500 compartilhamentos. A Prefeitura de Curitiba se manifestou sobre o ocorrido também por meio de rede social, e orientou a vítima a procurar a Secretaria de Direitos Humanos.


Confira na íntegra a nota oficial da Polícia Civil do Paraná:

Referente ao caso da adolescente de 15 anos que sofreu injúria racial no ônibus, na sexta-feira (17/06), a Polícia Civil informa que o caso foi atendido pelo Centro Integrado de Atendimento ao Cidadão(CIAC-SUL), e posteriormente encaminhado ao Núcleo de Proteção a Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria). Um Inquérito Polícial (IP) foi instaurado na unidade para apurar os fatos. A especializada também instaurou um procedimento interno para verificar o porquê o Boletim de Ocorrência (BO) não foi registrado na delegacia, sendo que qualquer delegacia policial pode ser registrado um BO por injuria racial. A adolescente foi intimada para comparecer na delegacia na quarta-feira (22) para prestar depoimento. 

Colaboração Louise Fiala