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Mulheres ainda tentam romper a barreira da violência

(Foto Juca Varella Fotos Públicas) - Mulheres ainda tentam romper a barreira da violência
(Foto Juca Varella Fotos Públicas)

A palavra “empoderamento” passou a ser usada recentemente para estimular as mulheres a romperem paradigmas culturais que ainda as colocam em segundo plano na sociedade. Apesar do avanço e da difusão de uma série de movimentos defendendo o espaço feminino, ainda é registrada uma enorme quantidade de casos de uma das formas usadas para intimidar e calar as mulheres: a violência.

E ela se manifesta em diferentes formas e lugares com as mulheres brancas, negras, índias, mães, trabalhadoras, provedoras do lar, casadas, solteiras, ricas, pobres, lésbicas e transexuais. Elas se tornam alvos de agressões físicas, de desqualificações verbais, de assédio moral, de cerceamento, de uma pressão social para se comportar ou agir de certa maneira e até mesmo em situações que envolvem questões patrimoniais. “A violência está vinculada à questão de gênero, intrinsicamente ligada a outras formas de dominação e desigualdade”, enfatiza Cleia Oliveira Cunha, presidente do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR).

Se antes a violência contra a mulher estava restrita ao ambiente familiar, os riscos disto acontecer aumentaram com a “ocupação” do sexo feminino em outros ambientes, como o escolar e do trabalho, por exemplo. A violência acontece até mesmo nas redes sociais, com a exposição das mulheres de qualquer idade em situações vexatórias. 

“À medida que a mulher foi se escolarizando e saindo do ambiente de casa, também foi ampliada a questão da violência para outras relações externas. A violência se assenta em um complexo cultural e de normas que são compartilhados tanto por homens quanto por mulheres”, conta Cleia.

Todo este cenário, repleto de diferentes fatores, mexe demais com a mulher. Quando o episódio acontece, a primeira consequência atinge a autoestima de quem vive a violência. A presidente do CRC-PR explica que o episódio de violência faz com que a mulher sinta que sua autonomia foi cerceada, com uma sensação de perda de seu próprio valor, gerando uma enorme insegurança. “A violência afeta o desenvolvimento social, emocional e afetivo da mulher. Por isto, tem que ser trabalhada dentro de uma perspectiva social, avaliando quais foram os impactos psicossociais no mundo desta mulher”, afirma Cleia.

(Foto: Roberto Parizotti/secomCUT)

Quando o caso de violência envolve uma pessoa próxima, seja o companheiro ou um familiar, a situação tende a se tornar ainda mais complicada, pois nem sempre a mulher tem a força para romper o ciclo danoso. Por isto, é essencial que as mulheres procurem ajuda, seja pelo telefone 180 (Central de atendimento à mulher, criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e que orienta sobre direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o país com ligação gratuita), na Delegacia da Mulher ou em equipamentos públicos, como o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS).

Quando a violência contra a mulher vem de quem menos espera

Nenhuma mulher espera que pai, avô, tio, irmão, primo, sobrinho, namorado ou marido cometa um ato de agressão contra ela. Quando se trata de violência no ambiente doméstico, um membro familiar próximo é responsável pelo ato quando a mulher ainda não chegou a sua fase adulta ou não saiu de casa. Quando se torna idosa, ela pode se tornar alvo dos próprios filhos ou de quem se prontificou em ajuda-la na sua sobrevivência. Mas, dos casos que são registrados na Delegacia da Mulher de Curitiba, os agressores mais frequentes são os maridos, namorados e ex-companheiros. Para a delegada Samia Coser, responsável pela unidade, chama atenção a quantidade de mulheres relatando episódios de violência na fase do namoro. Ela acredita que este pode ser um sinal de que as mulheres estão se dando conta mais cedo de que é preciso sair de uma relação abusiva.

A motivação para os casos de violência no ambiente familiar variam entre não aceitar o fim de um relacionamento ou uma atitude tomada pela mulher, evidenciando a influência da relação de dominação que ainda persiste na sociedade. 

“Registramos um significativo aumento de casos de violência por questões patrimoniais e pela guarda dos filhos”, comenta Samia.

Anteriormente, as mulheres que denunciavam seus agressores na Delegacia da Mulher podiam retirar as queixas. E esta era uma das críticas que estas mulheres sofriam por não deixarem a investigação e a punição acontecerem. Hoje em dia, não é mais possível desistir nos casos de agressão física. É permitida a retirada quando há ameaça e difamação, por exemplo. No entanto, é um procedimento complexo porque o caso é encaminhado para o Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. Ela precisa explicar porque ela está desistindo da denúncia.

Samia conta que a procura da mulher vítima de violência acontece, normalmente, de forma gradativa porque ainda há medo da punição ao agressor, além das implicações familiares e sociais. 

“Quando a mulher é informada que não pode desistir, muitas viram as costas e vão embora”, afirma a delegada.

Quando mesmo assim a mulher registra a denúncia, nem sempre ela fica “à disposição” para a investigação e todo o rito processual. Algumas deixam de ir ao Instituto Médico Legal (IML) para fazer o exame que comprova a agressão.

Não existe outra saída a não ser um forte atendimento psicossocial para que esta mulher possa quebrar o ciclo de violência e se sentir amparada. “Acima de tudo, é necessário trabalhar a nossa cultura. A chave para um resultado efetivo está aí. E isto tem que acontecer desde criança. Não tem como entender a violência como algo normal. As mães devem ensinar seus filhos sobre como eles devem tratar as mulheres e como a violência não pode ser a solução para tudo. E devem mostrar para as suas filhas como elas devem ser tratadas. Isto tem que partir da gente, de dentro de casa”, opina.

Segundo dados da Polícia Civil, foram registrados 9.034 inquéritos de violência doméstica e familiar em todo o Paraná no ano passado. O número foi um pouco menor do registrado em 2014, quando a Polícia Civil conduziu 9.729 inquéritos. Em 2016, já são 1310 casos (dados até 23 de fevereiro). Especificamente em Curitiba, em janeiro deste ano houve o registro de 71 casos e outros 65 em fevereiro (também até o dia 23).


Casa da Mulher Brasileira vai reunir atendimento especializado

Em breve, o atendimento à mulher em situação de violência sofrerá mudanças em Curitiba. Isto vai acontecer em uma nova estrutura, chamada de Casa da Mulher Brasileira, que está instalada no bairro Cabral. O espaço vai reunir uma série de serviços públicos, com a promessa de facilitar o atendimento e encaminhamento dos casos.

A Casa da Mulher Brasileira vai abrigar o Centro de Operações da Patrulha Maria da Penha, da Guarda Municipal de Curitiba, a Delegacia da Mulher e núcleos do Ministério Público Estadual, Defensoria Pública Estadual, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do Tribunal de Justiça do Paraná. Também será realizado atendimento psicossocial e de assistência social. A unidade também contará com um alojamento de passagem e uma central de transportes para auxiliar as mulheres para encaminhamentos externos.

Segundo a secretária Roseli Isidoro, da Secretaria Municipal Extraordinária da Mulher, a gestão do espaço será compartilhada entre os órgãos presentes na Casa da Mulher Brasileira, que é um projeto da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, do governo federal. 

“Esta é uma inovação muito grande e esperamos uma sintonia enorme entre todos os parceiros para que possamos evitar tantas tragédias como as que vemos diariamente”, salienta.

Roseli explica que o atendimento psicossocial está a cargo da Prefeitura de Curitiba e que toda a equipe que vai atuar na Casa da Mulher Brasileira está sendo treinada para conferir um acolhimento humanizado da mulher em situação de violência.

A unidade tem 3,8 mil metros quadrados, sendo que mil metros quadrados ficarão para o atendimento da Delegacia da Mulher. “Toda a estrutura da delegacia vai para lá, inclusive expediente e plantão. Acreditamos que isto será fantástico porque a mulher será acolhida por diferentes órgãos e isto eleva a expectativa de levar o caso adiante, tendo um ciclo completo”, avalia a delegada Samia Coser.

As obras de acabamento estão sendo finalizadas e a Casa da Mulher Brasileira deve ser inaugurada até o final de março.