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Paciente com problemas neurológicos está há meses na UPA da CIC

Imagem ilustrativa (Foto: Luiz Prado / Estadão Conteúdo) - Paciente com problemas neurológicos está há meses na UPA da CIC
Imagem ilustrativa (Foto: Luiz Prado / Estadão Conteúdo)

Um paciente com “problemas neurológicos” - conforme indicação da Secretaria Municipal de Saúde - está há meses na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Cidade Industrial de Curitiba. O homem, de 59 anos, foi flagrado por uma pessoa no chão de uma das salas da unidade, em um momento de crise. O coordenador de logística Kleber Siqueira, que presenciou a cena, comentou que as pessoas que estavam próximas ficaram impressionadas e não sabiam como ajudar o paciente.

“Ele ficou neste quadro de cinco a sete minutos, mas foi o suficiente para assustar. Havia outros pacientes no mesmo espaço, passando por situações diferentes. Chamamos uma enfermeira e depois de algum tempo apareceu profissionais para o acolhimento do senhor”, relata. Kleber produziu um vídeo sobre a situação no mês de maio.


Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, este é um caso diferenciado porque há a união de problemas neurológicos com uma questão social. O paciente fez um atendimento na UPA da CIC e a instituição que anteriormente o abrigava informou que não tinha mais condições de fazer isto por conta da situação do paciente, que às vezes apresenta um comportamento agressivo. “O paciente não tem problemas psiquiátricos, mas sim neurológicos. Consumiu álcool por muitos anos e isto desencadeou problemas em sua saúde física. É uma junção de problemas clínicos e neurológicos”, conta Carmem Ribeiro, chefe de gabinete da secretaria.

De acordo com ela, o paciente não tem família e, por isto, o caso ganha um componente social. A secretaria vem tentando uma instituição que tenha as condições para acolher o homem. No entanto, segundo Carmem, estão existindo uma série de dificuldades para isto. “O caso também está sendo acompanhado pela Fundação de Ação Social e o Ministério Público”, afirma.

Repercussão

Apesar de ser considerada como uma situação atípica pelo órgão público, o caso acende uma discussão em torno do acolhimento de pacientes com problemas de saúde mental que necessitam de uma assistência mais intensiva e prolongada. O homem em questão, por sofrer consequências do abuso do álcool, pode ser considerado um paciente de saúde mental, mesmo que atualmente não faça uso da substância. Ou seja, ele tem um problema de saúde mental que ocasionou problemas neurológicos. Além disto, ele possui episódios de agressividade.

A partir de 2001, com a lei federal 10.216, que determinou a reforma psiquiátrica, houve a redução considerável de leitos em hospitais especializados e a aplicação de outras formas de atendimento, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). “Estamos em uma estrutura caótica. Nos últimos anos foram desativados leitos psiquiátricos e as estruturas que a lei determinou para as suas substituições não foram abertas de maneira efetiva. Não foram abertos leitos em hospitais gerais, como a lei estabelece, por exemplo”, comenta o presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, André Rotta Burkiewicz.

De acordo com ele, o foco foi a extinção dos leitos em hospitais com estrutura manicomiais, mas “não se falou em fechamento de todos os leitos”. “Nos últimos 10 anos, o Ministério da Saúde fechou leitos sistematicamente. Existe uma grande dificuldade de acolhimento para quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS). A UPA ou as unidades de saúde não possuem profissionais qualificados para avaliar estes pacientes de maneira correta”, salienta. Burkiewicz conta quer os CAPS atenderiam pacientes em situações consideradas de moderadas a graves. Mas há casos de pacientes graves que precisam de internamento e os CAPS não conseguem absorver este tipo de caso.

Para o médico psiquiatra Dagoberto Hungria Requião, professor da cadeira de psiquiatria no curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a reforma psiquiátrica foi fruto de uma ideologia e resultou no atendimento parcial das demandas dos pacientes de doenças relacionadas à saúde mental, especialmente os casos graves que requerem atendimento em hospital com uma equipe multidisciplinar. 

“Leitos foram fechados sem a preocupação sobre o que fazer com estes pacientes, para onde podem ser encaminhados e para onde vão depois da alta”, explica.

Os dois especialistas não veem uma solução a curto prazo para o atendimento de casos graves e que demandam internamento prolongado.

Curitiba

A diretora do departamento de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde, Luciana Savaris, afirma que a reforma psiquiátrica agregou outros dispositivos que não existiam antes de 2001. De acordo com ela, Curitiba não deixou de ter leitos direcionados para casos de saúde mental e ainda foi somado o atendimento de 12 CAPS, voltados - entre outras finalidades -, para transtornos mentais e transtornos em decorrência do uso de substâncias psicoativas.

Nestas unidades, o atendimento acontece de maneira voluntária. 

“Não tem condição de se manter quem não quer tratamento. Às vezes, os hospitais psiquiátricos são acionados em casos de maior contingência e em outros momentos até mesmo por uma maior supervisão. Cada caso é um atendimento e será feita uma decisão conjunta dos especialistas”, esclarece.

Atualmente, o município conta com 64 leitos em sete unidades do CAPS e os hospitais compõem a rede de atendimento, principalmente o Hospital Bom Retiro e a Clínica Elio Rotenberg. A central de leitos do estado também pode ser acionada.

De acordo com Luciana, a cidade tem como atender a demanda deste setor. “Quem precisa de ajuda deve buscar uma unidade de saúde ou um CAPS, que possuem equipes de acolhimento”, indica. Ela lembra que qualquer pessoa pode atravessar por momentos com incidência de situações ligadas à saúde mental, independentemente da existência de transtornos mentais.