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Para Kennedy Alencar, disputa pelo impeachment será voto a voto

- Para Kennedy Alencar, disputa pelo impeachment será voto a voto

O jornalista e comentarista político do SBT, Kennedy Alencar, esteve na terça-feira (12), em Maringá, onde deu uma palestra sobre o cenário político e econômico do Brasil, durante a comemoração dos 63 anos da Associação Comercial e Empresarial do município (Acim). Em entrevista ao portal Massa News, ele contou o clima tenso vivido atualmente em Brasília.

Kennedy Alencar acredita que a crise está longe do fim, mas que a votação sobre o impeachment, programada para o domingo (17) na Câmara, será um passo importante para uma decisão a respeito do futuro do país. A luta entre governo e oposição está acirrada, com muita negociação nos próximos dias, em uma disputa que promete ser voto a voto. 

Confira a entrevista.

Massa News: Como o senhor vê hoje o cenário político  do Brasil?

Kennedy Alencar: Eu vejo, no curto prazo, com pessimismo e preocupação, mas acho que no longo e médio prazo, as coisas vão se resolver. O Brasil está barato, está fora do preço. Há uma crise que é real, mas também que falta ao governo a capacidade de transmitir confiança para os agentes econômicos. Falta classe política, capacidade de realizar consensos mínimos para aprovar reformas importantes, como a da previdência, aprovar medidas fiscais importantes. O país tem uma situação fiscal que precisa resolver. A dívida pública não pode continuar crescendo neste ritmo. É importante o governo mostrar que terá capacidade para sanar isso no futuro.

Massa News: É possível sair da crise econômica sem  resolver a política?

Kennedy Alencar: Eu acho que o desafio principal é o político. Essa votação que haverá no domingo (10) do impeachment é uma tentativa de solução da crise. Não sei se será a melhor saída porque há vários cenários. Há um cenário em que Dilma barra o impeachment, fica no poder e tem que refundar o governo. O que ela tem a oferecer no dia seguinte? Se o impeachment é aprovado, o governo do Michel Temer vai sofrer contestação de uma parte relevante da sociedade e vai ter que apresentar medidas também para o dia seguinte.

A primeira questão é resolver a política, que está atrapalhando a economia. A intolerância no debate público, a agressividade na disputa partidária é um legado ruim que essa crise pode deixar para as gerações futuras. O Brasil tem que pegar sua classe política, precisa ter uma capacidade maior de serenidade, de equilíbrio, para não deixar a política brasileira se envenenar nos próximos anos.

Massa News: Os partidos têm maturidade para deixar de  lado a paixão, a briga pelo poder, e partir para um diálogo rumo ao  desenvolvimento do país?

Kennedy Alencar: É legítimo que todo partido dispute o poder. É uma ingenuidade a gente achar que a política é um acordo de cavalheiros. Ela é muito dura também, só que há limites para essa disputa pelo poder. O que a gente está vendo hoje no país é uma disputa muito predatória. O Brasil já mostrou no passado recente capacidade da classe política de se entender, quando a gente conseguiu democratizar o país em 1985; quando os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso conseguiram estabilizar a economia e a inflação; quando no governo Lula, criamos um mercado interno forte, com programas sociais que ajudam a amenizar a crise.

O Brasil já deu demonstrações de conseguir conversar e avançar. A gente está em um momento em que isso foi destruído. Por erros da presidente Dilma, que é a principal responsável pelo agravamento da crise; por erro da oposição, sobretudo do PSDB que votou de uma maneira contraditória com sua própria história. Com irresponsabilidade fiscal, votou no Congresso contra medidas que aplicou no governo.

E acho que, de certa maneira, essa fragmentação partidária, esse excesso de partidos, bancadas, isso torna mais difícil no presidencialismo fazer um acordo para tocar a vida adiante. O presidente é eleito, mas o partido pelo qual foi eleito não é maioria no Congresso, então tem que fazer acordo político mesmo, tem que fazer aliança. O problema é que isso está tão fragmentado, existem tantos grupos, que fica difícil o governo ter instrumentos para agradar a todos.

Massa News: Qual a diferença do cenário político do  impeachment de Fernando Collor de Mello em relação ao que se vivencia hoje com  a presidente Dilma?

Kennedy Alencar: Acho que falta aquele quase consenso que havia na época do Collor. E havia também uma prova direta contra o presidente da República. Hoje, a gente tem um grave escândalo de corrupção que foi descoberto. A presidente Dilma está isolada politicamente, pode ver que ela perdeu a maioria no Congresso. E a prova disso é que, no último um ano e meio, ela sofreu diversas derrotas. Mas a gente também viu nos últimos meses, nas últimas semanas, que uma parcela significativa da sociedade, apesar dos erros da Dilma, discorda do impeachment. Então não há aquele quase consenso que havia na época do Collor.

Massa News: Até domingo, quando haverá a votação sobre  o impeachment na Câmara, como será a movimentação política, o clima em  Brasília? 

Kennedy Alencar: Muita disputa voto a voto. O governo perdeu terreno no PMDB e PP na terça-feira (21). De fato, houve uma perda de apoio, mas não tão significativa como disse a oposição. Tanto o governo quanto a oposição dizem ter votos para poder vencer a batalha no domingo. Alguém aí está iludido, está mentindo ou também pode ser um sinal de que há uma disputa muito dura em curso. Há uma disputa entre 50 a 60 deputados que podem negociar com os dois lados e mudar de posição até domingo. E domingo não é o último capítulo da crise, mas pode ser um episódio importante pra se tentar uma solução.

Massa News: O senhor veio a Maringá, cidade do juiz Sérgio Moro. Qual é a força da Operação Lava Jato frente a toda essa  discussão política e também do juiz Sérgio Moro?

Kennedy Alencar: A força da Lava Jato é imensa. Ela desnudou todo um esquema de corrupção audaz, que é um retrato do modus operandi da política brasileira. Um sistema de financiamento tanto para a política como de corrupção e enriquecimento pessoal de muitos desses agentes, tantos públicos como privados. O juiz Sérgio Moro tem tido um papel fundamental à frente da Operação Lava Jato. Ele conduz essa operação, mas eu acho que o combate à corrupção não é incompatível com o Estado Democrático de Direito. 

Em alguns momentos, o juiz Sérgio Moro tomou medidas que sofreram críticas por parte do meio jurídico. Eu acho que é importante os jornalistas serem criticados, a imprensa ser criticada, que os políticos sejam criticados e o Judiciário também possa ser criticado e aprenda. Todo mundo tem que respeitar a lei: o presidente da República, o jornalista e, sobretudo, um juiz porque ele aplica a lei.