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Por que tantas crianças ainda desaparecem?

(Foto: CFM- Conselho Federal de Medicina SP) - Por que tantas crianças ainda desaparecem?
(Foto: CFM- Conselho Federal de Medicina SP)

“Mas foram apenas dois minutos”. A frase é fictícia, mas a situação poderia sim ser real, já que dois minutos são suficientes para uma criança desaparecer e em alguns casos, para sempre. Como o caso do pequeno João Rafael Kovalski, que em dois minutos sumiu e já se vão quase três anos. Da linda menina de cabelos louros, a Stefani Vitória Rochinski, que há quase quatro anos desapareceu sem deixar pistas, e de muitas outras crianças que nunca mais são encontradas. Mas, existem peculiaridades em cada caso, e não dá, isso de acordo com a polícia, para trabalhar com ‘regras’ neste setor. A delegada Iara Dechiche, titular do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas da Polícia Civil do Paraná, o Sicride relata, no entanto, que uma criança não desaparece simplesmente, mas para falar sobre isso, é preciso resgatar um pouco do histórico de desaparecimentos no Paraná.

Na década de 1980 o Estado vivenciou, junto com os outros dois estados do Sul, um boom de desaparecimentos de crianças. Foi a época da mulher que ficou conhecida como “a maior traficante de bebês do Brasil”, a Arlete Hilu. “Não tem como contextualizar sem falar da Arlete Hilu, claro que eram outras circunstâncias, mas ela foi apontada como responsável por muitos desaparecimentos, que na verdade não se tratavam pura e simplesmente de sumiços, eram crianças que foram enviadas para adoção para famílias de fora do Brasil”, conta Iara. “E, em muitos casos, essas crianças eram doadas pelas mães, ou ainda vendidas”, acrescenta.

Desta forma, era uma outra realidade, um outro século, uma outra forma de as autoridades lidarem com a situação. A delegada relata que ainda nos anos 80, mas depois, quando se encerrou o ciclo de atuação de Arlete Hilu, outro tipo de desaparecimento de crianças iniciou. Foi o período de Guilherme Caramês em Curitiba, Edenilton Palma, em Maringá, Adriano Marques da Silva, em Cascavel, e muitos outros em todo o Estado. 

“Esses desparecimentos ocorreram em outras circunstâncias, e começaram a crescer e então que foi criado o Sicride, que é o único órgão estadual do Brasil especializado em investigações de crianças desaparecidas”, enfatiza.

Até aí tudo bem, mas com a passagem dos anos, com toda a modernidade que existe hoje, como crianças ainda desaparecem sem deixar rastros? Como em tempos que todo mundo tem um smartphone e acesso à internet ninguém vir uma criança sendo levada, não se ter nenhuma pista. “Bom, vamos falar de Paraná, porque aqui temos uma realidade, no nordeste do Brasil, por exemplo, é outra muito diferente”.

O Sicride atende desaparecimentos de pessoas com idades entre zero e onze anos e onze meses. Acima disso, é competência da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, que tem um setor específico para casos de desaparecimentos. Ainda falando de crianças, casos em que os pais são separados, uma das partes tem a guarda, e a outra um dia resolve levar a criança, não é considerado desaparecimento, e desta forma é tratado pela DHPP. 

“Trata-se de outro tipo de crime, é uma subtração de incapaz, não de desaparecimento”, explica.

Iara volta a afirmar que hoje, no Estado, não existem desaparecimentos de crianças. “O que acontece é de a criança sair da escola, teria que ir direto para casa, mas, acaba indo para a casa de um coleguinha e é logo encontrado”, relata. “Ou, outra situação comum de desaparecimento, é de crianças que moram em regiões ribeirinhas”.

E por falar em região ribeirinha, é preciso falar de João Rafael. O desaparecimento do menino ocorreu na casa da família, em Adrianópolis. Nos fundos da residência passa um rio, e o local foi alvo de buscas durante muitos dias. “Foram várias linhas de investigação neste caso, inclusive de que teria sido sequestrado e levado para fora do Brasil, mas isso não se confirmou”.

A delegada comentou, porém, que as investigações estão em fase de finalização. “Nos próximos meses devemos encerrar o caso”. Iara comentou que tudo que poderia ser feito nesta investigação, foi feito. “Fizemos tudo, até acionamos o Instituto das Águas para fazer um estudo do rio, analisando profundidade, velocidade da água, o relevo do rio, enfim, para verificar se seria possível que a correnteza tivesse levado o menino para longe, a quantidade e a espécie dos peixes”, conta. “O laudo ficará pronto em breve”.

A área não é fácil para se trabalhar, pois envolve o emocional de familiares, e muitas vezes a perda. A delegada comentou que após muito tempo, as chances de encontrar uma criança desaparecida, são mínimas. “Nós não paramos de procurar, o Sicride segue investigando os casos, temos o projeto de progressão da imagem, que através de fotos da criança e da família, fazemos o envelhecimento para dar uma noção de como a criança está atualmente”, diz.

 “Mas, sim, é bastante complicado localizar uma pessoa com o passar do tempo”.

Ela comentou que o caso da menina Stefani Rochinski também está em fase de finalização. “Foram duas linhas de investigação, uma de que ela teria sido levada por mulheres para um ritual religioso e que foi totalmente descartada, e outra que ainda avaliamos”.

Cuidados

Em tempos de internet, cuidar com quem os filhos tem contato pelas redes sociais é fundamental. Assim como orientar as crianças que moram próximas a rios, lagos, cavas, de que é perigoso. “Por menor que a criança seja, tem que ensinar, falar que morre, a criança tem que ter medo mesmo”, diz.

Outra orientação, básica e antiga, mas que ainda vale muito, é não conversar com estranhos, não aceitar doces e muito menos ‘dar uma voltinha’ com quem não conhece. “A violência sexual é uma terrível realidade, e a criança está exposta a ela, por isso, é preciso que os pais orientem a ter medo mesmo, para não se tornarem vítimas”.

O que fazer

Se por acaso você se deparar com uma situação de desaparecimento, vale lembrar que não é preciso esperar 24 horas para registrar o caso na polícia, pelo contrário, percebeu que a criança não está onde deveria, fez uma busca com quem deveria estar com a criança e não encontrou acione a polícia imediatamente. “Isso garante que em caso de sequestro, de a criança efetivamente ter sido levada por alguém, que ela seja localizada com rapidez”.