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À mídia argentina, Temer diz que covardia travou reformas

O presidente Michel Temer reconheceu à imprensa argentina ter baixa popularidade e disse que não se importa de terminar seu mandato assim, desde que aprove teto de gastos, reforma previdenciária e nova lei trabalhista. Em entrevista aos jornais Clarín e La Nación publicada neste domingo, Temer afirmou que o País está em crise por covardia de quem se negou a fazer reformas. Ele disse ter a coragem para levar cortes adiante.

Amanhã, Temer fará sua primeira visita bilateral ao presidente argentino Mauricio Macri em Buenos Aires. Opositores brasileiros planejam um protesto na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada. O governo argentino decidiu receber Temer na Quinta de Olivos, residência oficial, a 17 quilômetros do palácio presidencial.

O protesto deverá ter seu pico às 18h, ao ser reforçado por grupos kirchneristas e sindicatos. Neste momento, Temer já deverá estar no Paraguai, onde jantará com o presidente Horacio Cartes, antes de voltar a Brasília. Os principais pontos abordados por Temer junto aos meios argentinos foram:

Impeachment

Questionado se a corrupção entre políticos que julgaram a ex-presidente Dilma Rousseff afetaria a legitimidade do processo de impeachment, Temer destacou que os casos estão sendo avaliados pela Justiça. Ele argumentou que o processo foi legal e legítimo por seguir a Constituição. "Quando se vota na chapa presidencial se vota tanto no presidente quanto no vice", sustentou.

Lava Jato

Temer afirmou que a recente referência do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a novas operações não significa que ele controle o que vai fazer a Polícia Federal. Sobre o seu próprio envolvimento na operação, o presidente salientou ter sido citado na investigação de forma preliminar. "Foi uma menção irresponsável", defendeu-se. Temer apresentou-se como um incentivador da Lava Jato e afirmou que o PMDB também é alvo, assim como "cinco ou seis partidos" e "uns 50 incriminados de todos as legendas do país". Sobre um suposto direcionamento contra o PT, respondeu: "Talvez por ter ocupado o poder por 13 anos, o PT ganha mais relevância nas investigações em relação a seus membros, inclusive um ex-presidente."

Ruptura

Questionado sobre a razão para o Parlamento não ter acompanhado a tentativa de ajuste de Dilma no início do segundo mandato, Temer citou a rejeição a sugestões do PMDB, que teriam levado a um distanciamento natural. Ele mencionou também os protestos nas ruas. "Tudo isso mobilizou o Congresso que, no passado, apoiava o governo e passou a buscar o impeachment. Uma das dificuldades da ex-presidente foi uma falta de interlocução, de diálogo com o Congresso."

Impopularidade

Indagado sobre o tempo que ficou fora do País em seu primeiro mês no poder - durante o G-20 na China e a reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) nos EUA -, mesmo tendo baixa popularidade, Temer lembrou ter feito reuniões com empresários e representantes do agronegócio. Pressionado a dizer por que não é visto em meio ao povo, respondeu que tenta pacificar o país e sua prioridade é aprovar o teto para gastos públicos. "Estamos recuperando a credibilidade fiscal. Não estou com uma preocupação eleitoral. Se chego ao fim do governo com 5% e consigo colocar o país nos trilhos, me dou por satisfeito. Não tenho preocupação com a popularidade."

Estratégia

Temer lembrou nunca ter disputado um cargo majoritário, só como vice, e concordou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em recente entrevista ao Clarín detectou sua falta de projeção popular. Questionado se não precisaria de apoio da população para passar o teto de gastos, a reforma previdenciária e novas leis trabalhistas, Temer disse que precisa mesmo é do Parlamento. "Tendo o apoio do Congresso vou ter naturalmente o apoio popular."

Reformas

O presidente afirmou que o País "está como está" por covardia em implementar reformas. "Eu não tenho essa covardia, tenho coragem para impulsionar essas medidas", afirmou. Ele mencionou um déficit na Previdência para esse ano de R$ 140 bilhões e para o próximo ano de R$ 180 bilhões. Segundo ele, nesse ritmo, em cinco anos não haverá dinheiro para pagar aposentados.

Visita à Argentina

Temer afirmou que irá a Buenos Aires acompanhado dos ministros de Relações Exteriores, da Defesa, da Segurança Institucional, da Indústria e Comércio e da Justiça. Ele evitou criar expectativa sobre anúncios concretos e previu uma declaração de amizade entre os países. Temer disse sentir-se cômodo com Macri. "Acho que pensamos da mesma maneira." O presidente brasileiro falou que as barreiras comerciais serão tratadas, assim como um plano para acelerar a negociação de um tratado de livre comércio com a União Europeia. Segundo o Clarín, os brasileiros pretendem convencer os argentinos a comprar aviões Embraer e têm interesse em aumentar o controle na fronteira. De acordo com o jornal, os argentinos pedirão menos barreiras comerciais aos brasileiros.

Mercosul

Temer citou também a crise do Mercosul. Em um tom mais suave que o usado por Macri em entrevista a meios brasileiros na quarta-feira, o brasileiro disse que não é um objetivo suspender a Venezuela do bloco por descumprimento de normas aduaneiras e de direitos humanos (a Venezuela tem prazo até 1º de dezembro para se enquadrar). O presidente afirmou que essa adaptação não foi exigida de Caracas antes "porque havia outros governos" no Brasil e na Argentina. "A intenção é que a Venezuela se regularize. Estamos preocupados com as detenções de natureza política lá". Ele apoia a realização em 2016 do referendo que encurtaria o mandato de Nicolás Maduro e obrigaria a convocar nova eleição. O chavismo manobra para a consulta ser feita só após 10 de janeiro, o que não levaria a votação antecipada. Um vice substituiria Maduro.

Protestos

Sobre os protestos organizados contra sua visita a Buenos Aires, Temer se disse "zero preocupado". Ele será recebido por Macri na Quinta de Olivos, a residência oficial, enquanto as manifestações se concentrarão na Praça de Maio, a 17 quilômetros da Casa Rosada.

Economia brasileira

Diante da expectativa dos argentinos de que uma retomada da economia brasileira os ajude, Temer evitou dar prazos para isso. Ele disse que o crescimento depende primeiro da aprovação da emenda constitucional sobre o gasto público. "Calculo que em meados do próximo ano a economia estará recuperada, teremos passado a tormenta."