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Em entrevista, Lula fala em 'golpe político'

(Foto: Paulo Pinto/ Agência PT) - Em entrevista, Lula fala em 'golpe político'
(Foto: Paulo Pinto/ Agência PT)

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a afirmar que o processo de impeachment da Dilma Rousseff em curso na Camara dos Deputados é um "golpe político". Em entrevista ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, o petista disse que o impedimento é tramado por um grupo que deseja chegar ao poder desrespeitando o voto popular. Lula também criticou os "vazamentos seletivos" contra políticos do PT e defendeu uma mudança da política econômica em caso de continuidade do governo.

"É um golpe porque, embora esteja previsto na Constituição Brasileira o impeachment, para que a pessoa seja vítima de um impeachment, é preciso que ela tenha cometido um crime de responsabilidade e a presidenta Dilma não cometeu um crime de responsabilidade", afirmou.

O ex-presidente defendeu também que qualquer político tem o direito de querer chegar à presidência da República, basta disputar uma eleição. "Eu perdi três eleições, três. Não encurtei o caminho, esperei 12 anos para chegar à presidência da República."

Lula também defendeu a postura do PT em relação aos pedidos de impeachment de presidentes anteriores, como Fernando Collor e FHC. "Não, veja, o PT tinha pedido o impeachment para o Collor e aconteceu porque ele tinha cometido o crime de responsabilidade. Do Fernando Henrique Cardoso, a Câmara nem aceitou, a Câmara nem aceitou o pedido do impeachment. Portanto, morreu ali mesmo, né? Talvez porque não tivesse crime de responsabilidade", disse.

O ex-presidente disse acreditar que o processo de impeachment contra Dilma só teve início por causa de uma "vingança" do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "O presidente da Câmara ficou zangado, porque o PT não votou com ele na Comissão de Ética e ele resolveu se vingar do PT, tentando criar o impeachment da presidenta Dilma, o que eu acho um abuso muito grande neste momento político", afirmou.

Lula também criticou a postura da imprensa em relação a Cunha, afirmando que os veículos de comunicação o tratam com "certa normalidade". "O Eduardo Cunha não tem respeitabilidade, nem congressual, nem na sociedade, para fazer isso, mas acontece, às vezes até com uma certa proteção de determinados setores da mídia nacional, o que eu acho muito grave", disse.

Lava Jato

Com críticas ao "espetáculo de pirotecnia" da Lava Jato, Lula disse que o governo tem muita responsabilidade pelas investigações. Segundo ele, só se torna possível devido às condições criadas pelos mandatos petistas para a punição de corruptos. Entre essas ações, o ex-presidente citou a maior autonomia do Ministério Público, a criação do Portal da Transparência e o fortalecimento da Controladoria-Geral da União.

Ele também disse que outro ponto positivo das investigações do esquema de corrupção na Petrobras é o fato de empreiteiros serem presos por crimes de corrupção. "Porque aqui no Brasil prendia-se um pobre porque roubava pão, mas não prendia-se um rico que roubava 1 bilhão. Prendia-se um pobre porque roubava remédio, mas não prendia um cidadão rico que sonegava imposto de renda", disse.

Lula afirmou que crê que a Lava Jato o faz crer que "a gente possa sonhar que um dia este país seja um país realmente sério".

Ainda sobre as investigações, Lula criticou os "vazamentos seletivos" contra petistas e afirmou que a lei deve ser aplicada contra todos os corruptos, independente dos partidos. "O que eu acho fantástico e hilariante é que as empresas têm dois cofres. Um cofre de dinheiro honesto e um cofre de dinheiro corrupto. O cofre de dinheiro honesto é para o PSDB, para o PMDB e para outros partidos. O cofre de dinheiro podre é para o PT. É no mínimo insanidade mental acreditar nisso", disse.

Para Lula, o afastamento de Dilma e as punições "seletivas" têm como objetivo impedir que ele volte a ser candidato à Presidência da República. Sobre uma eventual nova campanha presidencial, Lula disse que não vai aceitar contribuições empresariais.

Crise econômica

Perguntado sobre a crise econômica brasileira, Lula reiterou que ela é causada pelas medidas para barrar o avanço da crise financeira mundial de 2008. Segundo ele, a política de desoneração de impostos durante o primeiro mandato de Dilma "esvaziou o caixa do governo", mas que a presidente tentou reverter o cenário no início de 2015, com o ajuste fiscal.

"Ela (Dilma) começa mexendo exatamente em alguns direitos elementares dos trabalhadores coisas pequenas e isso jogou grande parte do nosso público contra nós, e não conseguimos reverter até hoje", disse.

Para Lula, a saída da crise passa, portanto, por uma mudança da política econômica. "É por isso que tem que ter uma política econômica voltada para estimular o financiamento, o crédito, o consumo, a microindústrias, a média-indústria, ou seja, fazer algo que faça a roda gigante girar para frente", disse.