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Fundação Casa: eles querem um voto de confiação

O garoto de camiseta branca e calça azul segura o título de eleitor e repete: "Não é só um papelzinho". Aos 16 anos, João (nome fictício) vai votar pela primeira vez nas eleições do próximo dia 2 de outubro - em um seção especial montada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em uma unidade da Fundação Casa, em Osasco, na Grande São Paulo.

João, que está cumprindo pena sócio educativa por roubo de carro, ainda não sabe em quem vai votar para prefeito ou vereador, mas tem noção de que com o seu voto algo pode começar a mudar. Não, ele não é mais um inocente. João não nutre grandes esperanças em relação ao futuro de sua cidade ou País, ele está pensando em uma mudança mais íntima e pessoal. "Votar é participar de alguma coisa. É fazer parte da vida. Cidadania, né?"

Assim como João, 1.080 adolescentes internados em 45 centros socioeducativos na capital, interior e litoral de São Paulo estão inscritos para votar. De acordo com a legislação eleitoral, os adolescentes autores de ato infracional aptos a votar são aqueles com idades entre 16 e 21 anos incompletos, submetidos à medida socioeducativa de internação ou ao programa de internação provisória. No dia da eleição, uma seção improvisada será montada dentro das unidades da Fundação Casa.

Para que os internos possam escolher os seus candidatos, aulas e palestras sobre democracia e as funções de prefeitos e vereadores estão sendo ministradas dentro das próprias unidades. Nas próximas semanas, por exemplo, os garotos também irão ter acesso aos programas de rádio e televisão dos candidatos. "Nossa ideia é sensibilizar pelo voto. Nós apresentamos a importância do processo eleitoral para os meninos e deixamos com que eles façam suas próprias escolhas. Através da participação na política, esses meninos aprendem sobre direitos e deveres ", afirma o agente educacional Iure Teixeira, Silva, 33 anos.

Dentro da unidade de Osasco, garotos conversam sobre corrupção, Lava Jato e impeachment. Assim como acontece do lado de fora, os meninos também estão impregnados do discurso de que "todo político é ladrão", mas, ainda assim, enxergam na possibilidade de participar do processo eleitoral uma espécie de reabilitação.

Vitor (nome fictício), que caiu por tráfico de drogas, pensa que políticos que "olhem para os bairros mais pobres, que pensem em saúde e principalmente em educação" podem evitar que outros garotos tomem um caminho errado na vida.

Lucas (nome fictício), que está cumprindo pena por assalto, acha que o mais importante é que se tenha noção do 'passado' de cada candidato. "Tem quem só prometa fazer as coisas. No meu bairro, tinha candidato que só aparecia para entregar bala em véspera de eleição. A gente precisa ser esperto", afirma. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.