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MST e governo do Paraná dão versões diferentes para mortes de sem-terra

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Secretaria de Segurança do Paraná apresentaram versões diferentes sobre o episódio que resultou na morte de dois militantes e outros seis feridos, quinta-feira, 8, em Quedas do Iguaçu, no Paraná.

Em nota divulgada pela direção estadual no Paraná, o MST afirma que os trabalhadores rurais Vilmar Bordim, de 44 anos, pai de três filhos, e Leomar Bhorbak, de 25, que deixou esposa grávida, foram emboscados pelos PMs e por seguranças contratados pela Araupel.

A Secretaria de Segurança do Paraná, por outro lado, divulgou na tarde desta sexta-feira, em entrevista coletiva, em Curitiba (PR), um áudio em que o sem-terra Pedro Francelino, um dos feridos no confronto, diz à polícia que o primeiro tiro disparado próximo ao assentamento Herdeiros da Terra de 1° de Maio foi dado por um integrante do MST. Francelino prestou depoimento no hospital em Cascavel, onde estava internado e sob custódia.

MST

Segundo a nota do movimento, 25 sem-terra circulavam de caminhonete e motos a 6 km do acampamento, dentro do período decretado como áreas públicas pela Justiça, quando foram surpreendidos pelos policiais entrincheirados. O texto diz que os policiais alvejaram os veículos e os sem-terra correram para dentro do mato. "Em relato, a PM admite que dois corpos foram recolhidos de dentro da mata. Todas as vítimas foram baleadas pelas costas, o que deixa claro que estavam fugindo, e não em confronto com a PM e seguranças", diz a nota. Outros seis trabalhadores foram feridos e dois foram detidos para depor e, depois, liberados.

Ainda segundo o MST, o local da emboscada ficou isolado pela PM durante duas horas, impedindo o socorro dos feridos ou de qualquer pessoa se aproximasse para documentar a cena do crime. "A Polícia Militar criou um clima de terror na cidade de Quedas do Iguaçu, tomou as ruas, cercou a delegacia e os hospitais de Quedas do Iguaçu e Cascavel para onde foram levados os feridos, e impediu qualquer contato das famílias das vítimas com familiares, advogados e imprensa."

Conforme a nota do movimento, o acampamento Dom Tomas Balduino foi iniciado em maio de 2015 e conta com 1,5 mil famílias no imóvel rural Rio das Cobras. A Justiça Federal decretou que as terras pertencem à União, devendo ser destinadas à reforma agrária, segundo a nota. "O MST está na região há quase 20 anos e sempre atuou de forma pacífica para que houvesse o avanço da reforma agrária." O movimento finaliza a nota pedindo "imediata investigação e punição dos responsáveis pelo ataque aos sem-terra e, ainda, o afastamento imediato da PM e da segurança privada, bem como garantia de segurança das vidas dos acampados".

Governo

Segundo o secretário de Segurança, Wagner Mesquita, a região tem vivido sob tensão há muitos anos e a criminalidade chegou a aumentar.

"Estava ocorrendo muitos crimes, como venda ilegal de madeira, carne roubada, e com a chegada da Força Nacional, além de outros aparatos de segurança a situação melhorou, mas elas foram retiradas em 29 de março e nosso pedido de reforço ao governo federal não foi atendido. Dias depois fomos surpreendidos com esse conflito armado", disse.

Com relação ao áudio gravado, ao ser questionado pela polícia se o "primeiro tiro partiu de integrantes do MST", Francelino respondeu : "É, foi do rapaz que morreu, que entrou em óbito lá, com o revólver na mão", disse.

A polícia também perguntou sobre o responsável pela convocação de trabalhadores para o confronto. "Na realidade é assim: lá é soltado um foguete e organizado todo mundo vir para manifestação. Assim de nome especificamente não", afirma.

A Coronel Audilene Rosa de Paula Dias Rocha, Chefe do Estado Maior da Polícia Militar, negou que a polícia tivesse revidado tiros para o alto. "No momento do acontecimento muitas pessoas falam, são informações que chegam, mas para que não tenhamos dúvidas sobre o que aconteceu tudo está sendo investigado", afirmou.

A coordenação estadual do MST tem afirmado que não havia incêndio, e que os integrantes do movimento "foram até uma área de mata fechada para descobrir quem estava no local, quando foram atacados". Segundo o MST, a Polícia Militar não costumava ir até a área. "Saíram do mato já disparando", disse um dos coordenadores Rudimar Moisés, ao Paraná Portal.

O caso está sendo acompanhado pelo Ministério Público, a Ordem dos Advogados do Brasil-Paraná e o governo do Estado. O relatório preliminar deve ser entregue em dez dias.