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Paulínia torce por Marcela no Alvorada

Um Camaro amarelo circula pelo centro de Paulínia, no interior de São Paulo, anunciando a chegada do circo. Entre outras maravilhas, o locutor promete o incrível e inigualável número do globo da morte e um duelo espacial entre o Batman e o Homem-Aranha. Apesar do esforço de marketing, a população local parece pouco interessada.

A cidade anda mesmo concentrada em outro espetáculo: a possibilidade de uma legítima paulinense se tornar a primeira-dama do País.

Se o burburinho em torno de Marcela Temer já era uma constante desde 2011, quando ela apareceu ao lado de Michel Temer na posse da presidente Dilma Rousseff, a possibilidade de o cônjuge assumir o cargo máximo da República e um perfil publicado na revista Veja, em que ela foi definida como "bela, recatada e do lar", fizeram a fervura transbordar e impactar toda a região.

Mas, alto lá. Antes de qualquer intromissão na vida alheia é preciso olhar para Paulínia. Embora quase que um apêndice de Campinas (até 1964 era parte dela), a cidade não se deixou obscurecer.

Tem o maior polo petroquímico da América Latina, o sétimo maior PIB per capita do País e já foi chamada de Hollywood brasileira (título ameaçado com a suspensão, no ano passado, de um importante Festival de Cinema). Agora, apesar da importância econômica da cidade, a alma caipira ainda resiste no modus operandi da política local e nas relações interpessoais.

Recatos à parte, a possibilidade de Marcela Temer tornar-se uma figura de relevância nacional já aguça a sensibilidade de quem vive do comércio. Um dos grandes empresários locais, Francisco Antônio Vieira, 62 anos, conhecido na cidade como Chiquinho dos Pisos, conta que precisa ligar para o tio de Marcela para saber se o casal pretende construir alguma "mansão" na cidade. Em caso positivo, Chiquinho gostaria de ser o responsável, claro, pela colocação dos pisos e azulejos.

Miss - Amigo da família, Chiquinho reconhece que o seu relacionamento com os parentes de Marcela teria sofrido um pequeno abalo em 2011 - quando deu entrevistas em que fazia comentários jocosos sobre a diferença de idade entre Temer, 75, e Marcela, 32. "Eu não falei na maldade, foi com humor. O problema é que saiu no jornal e causou a maior confusão."

Sobre a personalidade de Marcela, Chiquinho dá uma pista. "Minha filha concorreu com ela no tão falado concurso de miss aqui de Paulínia, em 2002. Marcela ficou em segundo e, pelo que sei, não gostou do resultado. Nem queria receber o prêmio de vice", diz Chiquinho. Para ele, Marcela tem (ou tinha) como característica a competitividade.

Foi Chiquinho quem ligou para a Associação Comercial de Paulínia atrás do contato de Geraldo Araújo, tio de Marcela. "Eu achei que ele ainda era o presidente da Associação", fala. Não é mais.

Ainda assim, ele consegue o telefone com a secretária e repassa à reportagem. Araújo não faz nenhuma objeção à entrevista e ainda sugere uma padaria do centro como ponto de encontro.

Para tristeza de Chiquinho, Araújo, que atualmente trabalha como assessor parlamentar de um vereador do PRTB, nega que o casal pretenda construir qualquer imóvel na cidade. Com autoridade e desenvoltura, ele também pronuncia-se em relação ao futuro político da sobrinha e da família. "Nós estamos aguardando o desenrolar dos acontecimentos, mas de uma forma calma e respeitosa. Temos muito respeito pela presidente que ainda está no cargo, que foi eleita. Ainda temos que aguardar o resultado no Senado", diz.

O discurso conciliador trouxe à tona uma lenda que corre em Paulínia, de que o pai de Marcela, o economista Carlos Antônio Araújo, teria sido filiado ao PT. "Sim, de fato, há muito tempo, lá atrás mesmo, meu irmão foi do PT."

Apesar da precaução com as palavras, Araújo consegue imaginar a sobrinha como uma primeira-dama voltada para o social. "Ela não vai esquecer suas raízes, é de uma família de classe média, que trabalhou muito. Sei que ela tem sensibilidade social", revela o tio.

Origem - Marcela e Temer, então candidato a deputado federal, se conheceram em Paulínia, durante o churrasco de lançamento da candidatura de um correligionário do peemedebista. O evento foi organizado por um empresário, Paulo Berenguel, que também era o dono de um jornal local, O Momento. Foi ele quem deu o primeiro emprego a Marcela. "Depois do concurso de miss, ela trabalhou como recepcionista para o jornal. Ganhava um salário mínimo e trabalhava meio período. Era séria e responsável."

O perfil publicado pela revista Veja explodiu nas redes sociais e fez com que muitas mulheres postassem fotos ironizando o título "bela, recatada e do lar". Mais do que isso, despertou um debate sobre o conteúdo e machismo que a figura de uma primeira-dama pode despertar.

Abria Meira, estudante da Unicamp e membro do coletivo feminista Juntas, que também atua na região de Campinas e Paulínia, afirmou que a polêmica em torno da figura de Marcela "só reforça o papel que a sociedade machista e a mídia reservam para a mulher". Para ela, a ideia de uma primeira-dama seria a de "uma mulher acessório, uma mulher que está sempre perto para servir e ser uma coadjuvante na vida do marido e na política".

Em Paulínia, os jovens se dividem entre a excitação de ter uma "famosa" local e o tédio do discurso de mulher irretocável e perfeita. "Acho que isso tudo pode trazer coisas boas para a cidade. Acho também que uma primeira-dama pode puxar o governo para questões voltadas ao social", fala a estudante Jennifer Miranda, 25 anos. "Pode ser bonita, pode ser do lar, mas a coisa do recato pegou mal. Quem é recatada ou recatado? Isso não existe", disse Elisana Vieira Rios, 16 anos.

Ao ouvir o discurso da amiga, Alef Bonatti, 17 anos, pergunta com candura: "O que é recato"? Na mesa, todos riem. Mas ninguém sabe a resposta.

Educação - O currículo escolar pode ser uma pista do que pensa a personagem da semana. Na escola estadual Porphyrio da Paz, a reportagem é recebida por uma funcionária que diz não concordar "com essa palhaçada que está acontecendo no País". Segundo ela, Marcela teria sido "uma aluna igual às outras". O histórico escolar ficou nas mãos de outra funcionária do colégio que, sem nos dar acesso ao documento, afirmou que as notas da menina "até que eram boas".

Uma ex-colega de escola poderia trazer novos elementos que contasse mais sobre Marcela. Daniela Motta Vieira, 30 anos, revelou que Marcela, de fato, sempre foi muito reservada e que tinha poucas amigas. "Nunca foi de se enturmar com ninguém, não saía, não ia para as festas."

Em São Paulo, a Faculdade Autônoma de Direito (Fadisp) segue a mesma linha da escola secundária de Marcela. Não dá muitos detalhes sobre sua carreira acadêmica. Apenas afirma que ela era uma aluna frequente e com boas avaliações. Segundo a instituição, o Trabalho de Conclusão de Curso de Marcela foi sobre "A Fertilização In Vitro no Direito Brasileiro".

Se a escola não ajuda, quem sabe o tatuador de Marcela revelaria algo a mais, algo que ela tenha confessado durante a sessão em que marcou o nome do marido na própria nuca - sessão acompanhada pelo próprio Michel Temer, no estúdio em São Paulo.

"Olha, não tenho nada para revelar, acho que talvez só o fato de ela demonstrar a vontade de fazer uma segunda tatuagem. Aliás, pode vir fazer comigo", comenta Paulo Tattoo, mostrando que não é só em Paulínia que estão de olho no business que uma primeira-dama pode gerar. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.