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'São duas contabilidades diferentes', diz Lula sobre Instituto e LILS Palestras

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi taxativo ao afirmar à Polícia Federal que a contabilidade do Instituto Lula, entidade sem fins lucrativos, e da LILS Palestras e Eventos, empresa usada por ele para dar consultorias e palestras, não se confundem. Sobre todo resto das movimentações financeiras das duas pessoas jurídicas ligadas a ele, "não sei, querido" foi uma das frases mais ouvidos no primeiro depoimento prestado por Lula à Operação Lava Jato, no dia 4 de março, quando foi levado coercitivamente para depor por determinação do juiz Sérgio Moro.

"O Instituto Lula e LILS Palestras se confundem contabilmente, o senhor não se intromete nisso?", questionou o delegado Luciano Flores de Lima, da equipe da PF da Lava Jato. As duas receberam entre 2011 e 2014 um total de R$ 55 milhões de doações e pagamentos.

"Não se confundem porque são duas contabilidades diferentes. Acontece que a pessoa é uma só, eu gostaria de me dividir em dois", respondeu Lula.

Evasivo

Boa praça, despachado e às vezes irônico, Lula deixou em aberto as suspeitas da Polícia Federal de que as finanças do Instituto Lula e da LILS Palestras se confundiam e podem ter servido para ocultação de propina da Petrobras.

O delegado insistiu no assunto: "Mas quem cuida dessa contabilidade?".

"Eu gostaria de me dividir em dois. Devem ter empresa de contabilidade aí, deve ter", respondeu o ex-presidente.

O ex-presidente repetiu 31 vezes a palavra "querido" ao tratar com o delegado Luciano Flores de Lima.

Contabilidade

Lula atribuiu a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, as responsabilidades sobre as finanças. "Se você conversar o mesmo assunto com o Paulo Okamotto, você receberá explicações."

Em 109 páginas de transcrição do depoimento, divididas em cinco partes, Lula disse que nunca procurou empresas para pedir dinheiro para os projetos da entidade. Citou Okamotto e quatro diretores - Clara Ant, Celso Marcondes, Paulo Vannuchi e Luiz Dulci - da entidade como responsáveis pelos pedidos de recursos.

"Não, porque não faz parte da minha vida política, ou seja, eu desde que estava no sindicato eu tomei uma decisão: eu não posso pedir nada a ninguém porque eu ficaria vulnerável diante das pessoas", afirmou o petista. Dos R$ 55 milhões, 60% vieram de empresas acusadas de corrupção na Petrobras - entre elas Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez e UTC (cujo dono confessou pagar propinas no esquema).

O delegado quis saber qual a função de Lula como "presidente de honra do Instituto". "Eu era, na verdade eu era a fotografia do instituto, eu era a cara do instituto, era não, eu sou a cara do instituto, o instituto está ali por minha causa, o do Clinton só existe por conta dele, o do Kofi Annan só existe por conta dele, qualquer instituto só existe em função da cara da pessoa que dá o nome, o Instituto Mandella existe por causa do Mandella, então o instituto vai existir, eu não sei se vai persistir quando eu morrer, mas enquanto eu existir está lá o instituto."

Lula afirmou que o instituto "não é uma ONG". "O instituto não é, eu tomei uma decisão que o instituto não seria uma ONG, nós não vamos fazer um instituto que 'Ah, mandar 10 milhões para cuidar não sei do que, não sei aonde', não, não é esse o papel do instituto", afirmou o ex-presidente.

Segundo ele, o papel da entidade "é tentar mostrar para as pessoas que é possível pescar, o papel do instituto é ensinar as pessoas a pescar os mesmos peixes que nós pegamos no Brasil".

A Lava Jato suspeita que valores repassados ao Instituto e pagamentos de palestras para a LILS ocultaram dinheiro de propina, desviado da Petrobras.